Atos dos Apóstolos 3 conta o primeiro milagre dos apóstolos depois de Pentecostes. Pedro e João sobem ao templo para rezar e curam, em nome de Jesus, um homem coxo de nascença que pedia esmola na Porta Formosa. Diante do povo admirado, Pedro explica que a cura vem de Jesus ressuscitado e convida todos à conversão.
Contexto de Atos dos Apóstolos 3
O capítulo anterior terminou dizendo que os apóstolos realizavam muitos prodígios e sinais e que os fiéis frequentavam o templo todos os dias (Atos 2). Agora Lucas mostra um desses sinais com detalhes. Os primeiros cristãos de Jerusalém eram judeus e continuavam a rezar no templo nas horas fixas. O milagre provoca o segundo discurso de Pedro, e esse discurso terá consequências no capítulo seguinte, com a primeira prisão dos apóstolos (Atos 4).
Explicação de Atos dos Apóstolos 3
Versículos 1 a 3: o encontro na porta do templo
Pedro e João sobem ao templo à hora nona, por volta das três da tarde, hora da oração que acompanhava o sacrifício da tarde. Os dois aparecem juntos várias vezes nos Evangelhos e em Atos. À porta chamada Formosa, todos os dias colocavam um homem coxo de nascença para pedir esmola aos que entravam. Pedir esmola na entrada do templo era comum: quem ia rezar estava mais disposto a dar. O homem vê os apóstolos e lhes pede uma ajuda.
Versículos 4 a 8: em nome de Jesus, levanta-te
Pedro fixa os olhos nele, junto com João, e diz: olha para nós. O homem os observa, esperando receber alguma coisa. Então vem a frase mais conhecida do capítulo: "Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isso te dou" (At 3,6). E Pedro ordena, em nome de Jesus Cristo, o Nazareu, que ele ande. Toma-o pela mão direita e o levanta. Na mesma hora os pés e os tornozelos se firmam.
O homem dá um salto, fica de pé, começa a andar e entra com eles no templo, andando, pulando e louvando a Deus. Há um detalhe bonito: quem antes ficava à porta, sem poder entrar, agora entra no lugar da oração. Os profetas anunciavam que nos tempos do Messias o coxo saltaria como um cervo (Is 35,6).
Versículos 9 e 10: o povo reconhece o mendigo
Todo o povo vê o homem andando e louvando a Deus. Reconhecem que é o mesmo que ficava sentado pedindo esmola na Porta Formosa. Por isso ficam cheios de espanto. O milagre é público e verificável: todos conheciam aquele homem havia anos.
Versículos 11 a 16: não fomos nós, foi o nome de Jesus
O homem não larga Pedro e João, e o povo corre até eles no pórtico de Salomão, uma galeria coberta do templo. Pedro aproveita para falar. Primeiro afasta qualquer mérito pessoal: por que olham para nós como se fosse por nosso poder ou piedade? Quem agiu foi o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus dos pais, que glorificou o seu Servo Jesus.
Em seguida Pedro recorda a paixão sem rodeios. Vocês entregaram e negaram Jesus diante de Pilatos, que queria soltá-lo; negaram o Santo e o Justo e pediram a libertação de um assassino. Mataram o Autor da vida, mas Deus o ressuscitou, e nós somos testemunhas. O contraste é forte: preferiram quem tira a vida e rejeitaram quem a dá. Foi a fé no nome de Jesus que deu firmeza àquele homem. Na Bíblia, o nome significa a própria pessoa e o seu poder.
Versículos 17 a 21: ignorância e conversão
Pedro muda de tom e chama os ouvintes de irmãos. Reconhece que agiram por ignorância, assim como os seus chefes. Deus usou até esse mal para cumprir o que os profetas anunciaram: que o Cristo havia de sofrer. Por isso, o convite é claro: arrependam-se e convertam-se, para que os pecados sejam apagados.
Então virão tempos de alívio da parte do Senhor, e Deus enviará o Cristo destinado a eles, Jesus. O céu deve recebê-lo até o tempo da restauração de todas as coisas, de que Deus falou pelos profetas. Pedro olha para o futuro: Jesus voltará, e a história caminha para a plenitude.
Versículos 22 a 26: Moisés, os profetas e Abraão
Pedro termina mostrando que Jesus é o cumprimento de toda a Escritura. Moisés anunciou que Deus suscitaria um profeta como ele, que deveria ser ouvido (Dt 18,15-19). Todos os profetas, a partir de Samuel, anunciaram estes dias. E os ouvintes são os filhos dos profetas e da aliança que Deus fez com Abraão, quando disse que na sua descendência seriam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 22,18). Deus ressuscitou o seu Servo e o enviou primeiro a eles, para abençoá-los, afastando cada um das suas maldades.
O que Atos dos Apóstolos 3 ensina para a fé católica?
O capítulo mostra que Jesus ressuscitado continua agindo por meio da Igreja. Os apóstolos não curam por conta própria, mas em nome de Jesus. A Igreja entende assim o seu ministério: os sacramentos e a missão não são obra humana, mas ação de Cristo por meio de seus ministros.
A reação do povo, que louva a Deus ao ver o homem curado, é lembrada pelo Catecismo quando fala da oração de louvor diante da ação do Espírito (CIC n. 2640). Todo sinal verdadeiro de Deus termina em louvor a ele, e não em admiração por quem o realizou.
O discurso de Pedro também ensina com equilíbrio sobre a responsabilidade pela morte de Jesus. Ele fala com franqueza, mas reconhece a ignorância e abre logo a porta da conversão. A Igreja ensina que a paixão de Cristo não pode ser atribuída indistintamente a todos os judeus daquele tempo nem aos de hoje, como afirma o Concílio Vaticano II na declaração Nostra Aetate. E, no sentido mais profundo, todos os pecadores tiveram parte nos sofrimentos de Cristo. Os versículos 13 a 15 e 17 a 19 são lidos no 3º Domingo da Páscoa do Ano B.
Reflexão para hoje
Pedro e João não tinham dinheiro, mas tinham Jesus. Muitas vezes achamos que só podemos ajudar quem sofre se tivermos recursos. Recursos são importantes, e a Igreja sempre pediu partilha. Mas há algo que ninguém pode comprar: um olhar atento, uma palavra de fé, uma oração, a presença de quem para diante do outro e diz olha para nós.
O mendigo esperava pouco: algumas moedas. Recebeu muito mais. Às vezes pedimos a Deus pequenas soluções, e ele quer nos dar uma vida nova. Vale perguntar se não estamos sentados há anos na porta, pedindo esmolas, quando Deus quer nos levantar e nos fazer entrar.
Por fim, o homem curado entra no templo louvando. A gratidão é a resposta natural de quem foi tocado por Deus. Quando recebemos uma graça, o melhor caminho é contar o que Deus fez e voltar à oração, e não apenas seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
Para rezar com Atos dos Apóstolos 3
- O que eu tenho para dar aos outros, mesmo quando me falta dinheiro ou tempo?
- Em que área da minha vida eu me acostumei a ficar à porta, sem coragem de levantar e entrar?
- Agradeço a Deus as graças recebidas, ou passo logo ao próximo pedido?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, Autor da vida, toma-me pela mão como Pedro tomou o homem da Porta Formosa. Levanta-me das minhas paralisias e faz-me entrar na tua casa com louvor. Ensina-me a dar aos outros o que tenho de mais precioso, que és tu. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2640; Concílio Vaticano II, declaração Nostra Aetate.
Perguntas sobre Atos dos Apóstolos 3
Onde ficava a Porta Formosa?
O que significa Não tenho ouro nem prata?
Por que Pedro diz que agiram por ignorância?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.