Atos dos Apóstolos 26 traz o último grande discurso de defesa de Paulo, diante do rei Agripa II, de Berenice e do governador Festo. Ele conta pela terceira vez sua conversão, destacando a missão recebida de Cristo: abrir os olhos dos povos para que passem das trevas à luz. Festo o chama de louco, Agripa diz que quase se convence, e todos concluem que Paulo é inocente.
Contexto de Atos dos Apóstolos 26
É a audiência solene preparada em Atos 25. Paulo já apelou a César e irá a Roma, mas aproveita a ocasião para anunciar Cristo a um rei judeu que conhece as Escrituras. O discurso é o mais elaborado de suas defesas e cumpre o que Jesus anunciou: os discípulos seriam levados diante de reis e governadores por causa do seu nome (Lc 21,12). O relato da conversão se compara com Atos 9 e Atos 22; aqui, a missão aos pagãos é anunciada pelo próprio Jesus no caminho.
Explicação de Atos dos Apóstolos 26
Versículos 1 a 3: diante do rei
Agripa permite que Paulo fale. Ele estende a mão, gesto dos oradores antigos, e se diz feliz por se defender diante do rei, porque ele conhece os costumes e as questões dos judeus. Pede que o ouça com paciência. Paulo não fala apenas para se livrar; quer ser compreendido.
Versículos 4 a 8: a esperança de Israel
Paulo lembra que todos os judeus conhecem sua vida desde a juventude em Jerusalém: viveu como fariseu, segundo o grupo mais rigoroso da religião. Agora está sendo julgado por causa da esperança na promessa que Deus fez aos pais, a mesma que as doze tribos esperam alcançar servindo a Deus noite e dia. E faz uma pergunta direta: por que parece incrível que Deus ressuscite os mortos? Para Paulo, crer na ressurreição de Jesus é ser fiel à esperança de Israel.
Versículos 9 a 11: o perseguidor
Paulo confessa que pensava ser seu dever combater o nome de Jesus, o Nazareno. Em Jerusalém, com autorização dos chefes dos sacerdotes, prendeu muitos cristãos e votou a favor quando eram condenados à morte. Percorria as sinagogas castigando-os e tentando forçá-los a blasfemar. Em sua fúria, perseguia-os até em cidades estrangeiras. A sinceridade de Paulo mostra que a graça de Deus é maior do que o pecado.
Versículos 12 a 18: a missão de abrir os olhos
No caminho de Damasco, ao meio-dia, Paulo vê uma luz do céu, mais brilhante que o sol, que envolve a ele e aos companheiros. Todos caem por terra, e ele ouve uma voz em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão. O aguilhão era a vara pontuda usada para guiar os bois; resistir a ele só fere o animal. Jesus se identifica e dá a missão: levanta-te, eu te escolho como servo e testemunha do que viste e do que ainda te mostrarei. Ele o enviará ao povo e aos pagãos para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás para Deus, e recebam o perdão dos pecados e a herança entre os santificados pela fé. As palavras lembram a missão do Servo em Isaías (Is 42,6-7). Paulo, que ficou cego, é enviado para abrir os olhos dos outros.
Versículos 19 a 23: obediência à visão
Paulo afirma que não foi desobediente à visão celeste. Anunciou primeiro em Damasco e em Jerusalém, em toda a Judeia e depois aos pagãos, que se convertessem e se voltassem para Deus, praticando obras dignas da conversão. Foi por isso que os judeus o prenderam no Templo e tentaram matá-lo. Com a ajuda de Deus, continua dando testemunho a pequenos e grandes, sem dizer nada além do que os Profetas e Moisés anunciaram: o Messias haveria de sofrer e, sendo o primeiro a ressuscitar dos mortos, anunciaria a luz ao povo e aos pagãos.
Versículos 24 a 29: quase cristão
Festo interrompe em voz alta: Paulo está louco; o muito estudo o fez perder o juízo. Para um romano, a ressurreição parecia delírio. Paulo responde com calma que não está louco; fala palavras de verdade e de bom senso. O rei sabe dessas coisas, e nada disso aconteceu num canto escondido. Então se volta para Agripa: o rei crê nos profetas? Ele sabe que crê. Agripa responde, entre irônico e tocado, que por pouco Paulo não o convence a tornar-se cristão (At 26,28). Paulo replica que, pouco ou muito, pede a Deus que não só o rei, mas todos os que o ouvem, se tornem como ele, exceto por estas correntes. É a resposta de um homem livre por dentro, que deseja para os outros a mesma alegria que encontrou.
Versículos 30 a 32: inocente
O rei, o governador, Berenice e os presentes se levantam. Retirando-se, comentam que esse homem não fez nada que mereça morte ou prisão. Agripa diz a Festo que Paulo poderia ser solto se não tivesse apelado a César. Como Jesus diante de Pilatos e Herodes (Lc 23,14-15), Paulo é declarado inocente pelas autoridades.
O que Atos dos Apóstolos 26 ensina para a fé católica?
O discurso mostra a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Paulo não anuncia uma religião nova sem raízes: Cristo cumpre o que Moisés e os Profetas anunciaram, especialmente sua paixão e ressurreição. A Igreja lê as Escrituras de Israel à luz de Cristo, como ensina a Dei Verbum (ver Dei Verbum).
A missão dada a Paulo descreve o que acontece na conversão e no Batismo: passar das trevas à luz, ser libertado do poder do mal, receber o perdão dos pecados e a herança dos santos. Não por acaso, os antigos chamavam o Batismo de iluminação (ver símbolos do Batismo).
Por fim, a conversão aparece como resposta livre a um chamado. Paulo resistia, e Jesus o chamou com paciência. A fé verdadeira se mostra em obras dignas da conversão.
Reflexão para hoje
Muitos de nós também damos coices contra o aguilhão: resistimos a um chamado, a uma mudança, a um perdão que Deus nos pede. E isso machuca. O caminho da paz começa quando deixamos de lutar contra Deus e aceitamos ser conduzidos.
Paulo fala a um rei como falaria a qualquer pessoa: com respeito e com desejo de que ele encontre Cristo. Sua frase final é bonita: queria que todos fossem como ele, menos as correntes. O verdadeiro testemunho não nasce de querer vencer uma discussão, mas de desejar o bem do outro.
Agripa ficou no quase. Quantos de nós vivemos uma fé de quase: quase rezamos, quase perdoamos, quase mudamos. Deus deseja a nossa resposta inteira.
Para rezar com Atos dos Apóstolos 26
- Em que ponto da minha vida estou resistindo ao aguilhão de Deus?
- Em que área da minha fé eu vivo no quase?
- Desejo, de verdade, que as pessoas ao meu redor conheçam a alegria de Cristo?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, luz mais brilhante que o sol, abre os meus olhos e tira-me das trevas. Perdoa as vezes em que resisti ao teu chamado. Não me deixes ficar no quase: quero responder a ti por inteiro. E dá-me o desejo sincero de que todos te conheçam e sejam felizes contigo. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum.
Perguntas sobre Atos dos Apóstolos 26
O que significa recalcitrar contra o aguilhão?
O que Agripa respondeu a Paulo?
Qual foi a missão que Jesus deu a Paulo segundo Atos 26?
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