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Apocalipse

Apocalipse 9: os gafanhotos do abismo e a sexta trombeta

Leia Apocalipse 9 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São João em Patmos escreve o Apocalipse enquanto contempla a visão da Mulher no céu
Diego Velázquez, São João Evangelista na Ilha de Patmos, 1619–1620. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Apocalipse 9 descreve a quinta e a sexta trombetas, os dois primeiros ais anunciados pela águia. Na quinta, sobe do poço do abismo uma nuvem de gafanhotos monstruosos, cujo rei é o anjo Abadon. Na sexta, uma cavalaria imensa vinda do Eufrates mata a terça parte dos homens. O capítulo termina com uma constatação triste: os sobreviventes não se converteram.

Contexto de Apocalipse 9

As quatro primeiras trombetas, em Apocalipse 8, atingiram a natureza. Agora os flagelos atingem diretamente os seres humanos e têm uma origem demoníaca: vêm do abismo. O pano de fundo é a praga dos gafanhotos no Egito (Ex 10,12-15) e a invasão de gafanhotos descrita pelo profeta Joel como um exército (Joel 2). As imagens são propositalmente assustadoras, como num pesadelo, para mostrar o que é o mal quando age solto. Mas o texto repete que ele tem limites.

Explicação de Apocalipse 9

Versículos 1 e 2: a estrela e o poço do abismo

Na quinta trombeta, João vê uma estrela que tinha caído do céu sobre a terra. Ela recebe a chave do poço do abismo. A estrela caída é interpretada por muitos como um anjo, possivelmente um anjo caído; Jesus disse ter visto Satanás cair do céu como um raio (Lc 10,18). Note que a chave é dada: o abismo só se abre com permissão. Do poço sobe uma fumaça como de grande fornalha, que escurece o sol e o ar.

Versículos 3 a 6: gafanhotos que ferem como escorpiões

Da fumaça saem gafanhotos com poder como o dos escorpiões. Recebem uma ordem estranha para gafanhotos: não devem tocar na erva, nas plantas nem nas árvores, mas só nos homens que não têm o selo de Deus na fronte. Os marcados de Apocalipse 7 estão protegidos. Também não podem matar, só atormentar, e por cinco meses, tempo aproximado da vida de um gafanhoto, segundo muitos comentadores: um prazo limitado. A dor é tamanha que os homens procurarão a morte e não a encontrarão. O mal promete vida e entrega tormento.

Versículos 7 a 12: a aparência dos gafanhotos e o seu rei

A descrição é um acúmulo de imagens: parecem cavalos preparados para a guerra, com algo como coroas de ouro na cabeça, rosto humano, cabelos como de mulher, dentes de leão, couraças de ferro, asas que fazem barulho de carros de muitos cavalos correndo para a batalha e caudas com ferrões de escorpião. Joel já comparava os gafanhotos a cavalos e a carros de guerra, com dentes de leão (Jl 1,6; 2,4-5). A mistura de traços humanos e animais mostra algo desfigurado, que imita a realeza e a beleza mas destrói.

Eles têm um rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadon e em grego Apolion. Os dois nomes significam destruição, destruidor. Alguns estudiosos notam um possível jogo de palavras com o deus Apolo, venerado por alguns imperadores; é uma hipótese. O primeiro ai passou; vêm ainda dois.

Versículos 13 a 16: os anjos soltos junto ao Eufrates

Na sexta trombeta, uma voz sai dos quatro chifres do altar de ouro, o mesmo altar onde subiam as orações dos santos. Ela manda soltar os quatro anjos amarrados junto ao grande rio Eufrates. O Eufrates era a fronteira oriental do Império Romano; além dele estavam os partos, temidos por Roma, e de lá tinham vindo, no passado, os invasores de Israel, como a Assíria e a Babilônia. Os anjos estavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano: nada acontece fora do tempo marcado por Deus. Eles devem matar a terça parte dos homens. João ouve o número da cavalaria: duas miríades de miríades, isto é, duzentos milhões, número que expressa uma multidão impossível de contar, e não um efetivo militar a ser calculado.

Versículos 17 a 19: cavalos de fogo e enxofre

Os cavaleiros têm couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. Os cavalos têm cabeça de leão e soltam pela boca fogo, fumaça e enxofre, os três flagelos que matam a terça parte dos homens. O fogo e o enxofre lembram a destruição de Sodoma (Gn 19,24). O poder dos cavalos está na boca e na cauda, que se parecem com serpentes e ferem. A serpente é, desde o Gênesis, imagem do inimigo.

Versículos 20 e 21: e não se converteram

O capítulo termina com o ponto principal. O resto dos homens, que não morreu, não se converteu das obras das suas mãos. Continuaram adorando os demônios e os ídolos de ouro, prata, bronze, pedra e madeira, que não podem ver, ouvir nem andar, como zombavam os salmos (Sl 115,4-7). E não se converteram dos homicídios, das feitiçarias, da prostituição e dos roubos. É a mesma dureza do faraó diante das pragas. A idolatria e a injustiça andam juntas.

O que Apocalipse 9 ensina para a fé católica?

O capítulo fala da realidade do mal e do demônio, sem exageros e sem negação. O mal existe, tem força e destrói, mas não é um poder igual a Deus: precisa receber a chave, age por tempo limitado e não pode tocar nos que têm o selo de Deus. A Igreja ensina que Satanás é apenas uma criatura, forte por ser puro espírito, mas limitada, e que a sua ação é permitida pela providência divina, que sabe tirar bem até do mal. Veja a doutrina católica sobre anjos e demônios.

O texto também mostra que o mal se destrói a si mesmo. Os ídolos que o ser humano adora acabam por atormentá-lo. E deixa claro o sentido dos flagelos: chamar à conversão. Deus respeita a liberdade, até quando ela se fecha. Por isso a Igreja insiste na conversão contínua e no sacramento da Confissão.

Reflexão para hoje

Os gafanhotos do abismo só podem ferir quem não tem o selo de Deus. Para o cristão, isso não significa imunidade ao sofrimento, mas uma proteção mais profunda: o mal não pode arrancar de nós a pertença a Deus, se não a entregarmos.

Hoje os ídolos raramente são estátuas de ouro. Podem ser o dinheiro, o prazer sem limite, a busca de poder, um vício que começa como alívio e termina como tormento. O capítulo descreve bem esse caminho: promete coroa e entrega ferrão.

O versículo mais duro é o que diz que eles não se converteram. Vale a pergunta honesta: quantas vezes um sofrimento poderia ter sido ocasião de voltar para Deus, e eu continuei igual? Nunca é tarde para mudar.

Para rezar com Apocalipse 9

  • Que ídolo moderno me promete vida e me tira a paz?
  • Eu confio que o mal tem limites diante de Deus?
  • Que conversão concreta eu tenho adiado?

Sugestão de oração:

Senhor, guarda-me com o teu selo quando as forças do mal se levantarem. Liberta-me dos ídolos que prometem vida e trazem tormento. Não permitas que o meu coração se endureça; dá-me a graça de me converter hoje e de voltar sempre para ti. Amém.

Antes da sétima trombeta, há uma nova pausa em Apocalipse 10.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB).

Perguntas sobre Apocalipse 9

Quem é Abadon em Apocalipse 9?

É o nome dado ao anjo do abismo, rei dos gafanhotos. Em hebraico Abadon quer dizer destruição, e o texto traduz o nome em grego como Apolion, o Destruidor. É uma figura das forças do mal, que destroem em vez de dar vida.

Os gafanhotos de Apocalipse 9 são armas modernas?

Não há base para essa leitura. O texto usa imagens de Joel e das pragas do Egito, em que nuvens de gafanhotos eram símbolo de devastação. As figuras falam do poder destruidor do mal, e não de máquinas de um tempo determinado.

Por que os homens não se convertem em Apocalipse 9?

Os versículos finais mostram que, mesmo diante dos flagelos, muitos continuaram adorando ídolos e praticando o mal. O texto revela a dureza do coração humano e mostra que o objetivo dos sinais era a conversão.

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