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Apocalipse

Apocalipse 8: o silêncio no céu e as primeiras trombetas

Leia Apocalipse 8 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São João em Patmos escreve o Apocalipse enquanto contempla a visão da Mulher no céu
Diego Velázquez, São João Evangelista na Ilha de Patmos, 1619–1620. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Apocalipse 8 começa com a abertura do sétimo selo, seguida de meia hora de silêncio no céu. Um anjo oferece incenso junto com as orações dos santos e lança fogo sobre a terra. Depois, sete anjos recebem trombetas, e as quatro primeiras trazem flagelos sobre a terra, o mar, as águas e os astros, sempre sobre a terça parte. Uma águia anuncia ainda três ais.

Contexto de Apocalipse 8

Depois do intervalo de consolação de Apocalipse 7, o sétimo selo abre uma nova série de sete: as trombetas, que vão até o capítulo 11. O Apocalipse não segue uma ordem cronológica simples; muitos intérpretes pensam que as séries de selos, trombetas e taças retomam, de ângulos diferentes, a mesma realidade, com intensidade crescente. As trombetas se inspiram nas pragas do Egito (Ex 7 a 10): assim como Deus agiu para libertar Israel do faraó, ele age para libertar o seu povo dos poderes que o oprimem.

Na Bíblia, a trombeta anuncia a manifestação de Deus no Sinai (Ex 19,16), a queda de Jericó (Js 6), o dia do Senhor nos profetas (Jl 2,1; Sf 1,16) e a vinda de Cristo (1Ts 4,16). É um alarme que chama à atenção e à conversão.

Explicação de Apocalipse 8

Versículo 1: meia hora de silêncio

Quando o Cordeiro abre o sétimo selo, faz-se no céu um silêncio de cerca de meia hora. Depois de tanto canto e tanto trovão, tudo para. Há várias leituras: a pausa solene antes da ação de Deus, como pedem os profetas, silêncio diante do Senhor (Sf 1,7; Hab 2,20); ou o silêncio litúrgico do templo enquanto se oferecia o incenso, para que as orações fossem ouvidas. Meia hora indica um tempo breve.

Versículo 2: sete anjos com trombetas

João vê os sete anjos que estão de pé diante de Deus, e eles recebem sete trombetas. A tradição judaica falava de sete anjos que assistem diante do Senhor; o livro de Tobias apresenta Rafael como um dos sete que estão diante da glória de Deus (Tb 12,15).

Versículos 3 a 5: o incenso e as orações dos santos

Outro anjo vem e fica de pé junto ao altar, com um turíbulo de ouro. Recebe muito incenso para oferecê-lo, com as orações de todos os santos, sobre o altar de ouro diante do trono. E a fumaça do incenso sobe da mão do anjo diante de Deus, com as orações dos santos. É uma das cenas mais belas do livro: as orações dos fiéis na terra chegam a Deus e fazem parte da liturgia do céu, como dizia o Salmo: que a minha oração suba como incenso (Sl 141,2).

Em seguida, o anjo enche o turíbulo com fogo do altar e o lança sobre a terra: há trovões, vozes, relâmpagos e terremoto. O gesto lembra Ezequiel 10,2. O que vem a seguir aparece como resposta às orações dos santos, e não como capricho de Deus. O clamor dos mártires de Apocalipse 6,10 está sendo ouvido.

Versículos 6 e 7: a primeira trombeta

Os anjos se preparam. Na primeira trombeta, granizo e fogo misturados com sangue caem sobre a terra. A terça parte da terra, das árvores e de toda a erva verde se queima. A imagem lembra a sétima praga do Egito, o granizo com fogo (Ex 9,23-25).

Versículos 8 e 9: a segunda trombeta

Na segunda trombeta, algo como uma grande montanha em chamas é lançado ao mar. A terça parte do mar se torna sangue, morre a terça parte das criaturas marinhas e se perde a terça parte dos navios. Lembra a primeira praga, as águas do Nilo transformadas em sangue (Ex 7,20). Jeremias também chamou a Babilônia de montanha incendiada (Jr 51,25). Para uma economia que dependia do mar e do comércio, como a do império, a imagem era muito forte.

Versículos 10 e 11: a terceira trombeta

Na terceira trombeta, cai do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, sobre a terça parte dos rios e das fontes. O nome da estrela é Absinto, uma planta muito amarga. A terça parte das águas fica amarga, e muitos morrem. Jeremias usa o absinto como imagem do castigo que vem da infidelidade (Jr 9,14; 23,15). É o inverso do milagre de Mara, onde Deus tornou doces as águas amargas (Ex 15,23-25). Ao longo do tempo, houve quem quisesse identificar essa estrela com acontecimentos modernos; o texto, porém, fala com símbolos dos profetas, não com previsões de fatos determinados.

Versículo 12: a quarta trombeta

Na quarta trombeta, é atingida a terça parte do sol, da lua e das estrelas, e o dia e a noite perdem a terça parte da sua luz. Lembra a nona praga, as trevas sobre o Egito (Ex 10,21-23). As trombetas vão desfazendo, por partes, a ordem da criação descrita no Gênesis: terra, mar, águas, astros. O pecado desordena o mundo.

Versículo 13: a águia e os três ais

João vê uma águia voando no meio do céu, gritando: ai, ai, ai dos habitantes da terra, por causa das três trombetas que ainda vão soar. Os ais são lamentos e advertências, como os dos profetas. As três últimas trombetas serão mais graves e atingirão diretamente os seres humanos.

O que Apocalipse 8 ensina para a fé católica?

Este capítulo é uma grande catequese sobre a oração. As orações dos fiéis têm valor diante de Deus, sobem ao seu trono e participam da sua ação na história. A Igreja expressa isso na liturgia: o incenso, quando usado na Missa ou nas Vésperas solenes, é sinal da oração que sobe a Deus e da honra devida a ele. Também o silêncio tem lugar na liturgia, como momento de escuta e adoração, em vários pontos da celebração.

Os flagelos parciais ensinam que os juízos de Deus na história não são vingança cega, e sim advertências que deixam espaço para a conversão. Deus permite que o mal produza as suas consequências, para que o ser humano reconheça o seu erro e volte. É uma leitura de esperança, e não de terror. Sobre os anjos que servem diante de Deus, veja também a doutrina católica sobre os anjos.

Reflexão para hoje

Antes das trombetas há silêncio e há oração. É um bom roteiro para a vida: antes de agir, antes de reagir às notícias, antes de decidir, parar e rezar. Num mundo de barulho constante, meia hora de silêncio pode parecer muito. Mas é nele que Deus é escutado.

A cena do incenso também consola quem acha que reza em vão. A mãe que reza pelo filho afastado, o idoso que reza o terço sozinho em casa, a comunidade que intercede pelos doentes: tudo isso sobe diante de Deus nas mãos de um anjo.

As águas amargas e a luz diminuída podem ser vistas também na vida pessoal: quando nos afastamos de Deus, aos poucos as coisas perdem o gosto e a luz. O chamado das trombetas é para voltar enquanto é tempo.

Para rezar com Apocalipse 8

  • Eu reservo um tempo de silêncio diante de Deus no meu dia?
  • Acredito que as minhas orações realmente chegam a Deus?
  • Que área da minha vida ficou amarga por estar longe dele?

Sugestão de oração:

Senhor, que a minha oração suba à tua presença como incenso. Ensina-me o silêncio que escuta e a confiança que persevera. Quando a vida se tornar amarga, chama-me de volta para ti, e transforma as minhas águas amargas em águas doces. Amém.

A quinta e a sexta trombetas estão em Apocalipse 9.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB).

Perguntas sobre Apocalipse 8

Por que há meia hora de silêncio no céu em Apocalipse 8?

O texto não explica. Muitos intérpretes veem no silêncio a preparação solene para a ação de Deus e o momento em que as orações dos santos são escutadas, como no silêncio do templo na hora do incenso.

O que é a estrela chamada Absinto?

É a imagem da terceira trombeta: uma estrela cai e torna amarga a terça parte das águas. Absinto é uma planta amarga que os profetas usam como símbolo de castigo e de sofrimento; não é previsão de um acidente ou de um fato determinado.

O que significa a terça parte nas trombetas?

Indica que os flagelos são graves, mas parciais e limitados. A destruição não é total, porque o objetivo ainda é chamar os homens à conversão.

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