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Apocalipse

Apocalipse 10: o anjo e o livrinho doce e amargo

Leia Apocalipse 10 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São João em Patmos escreve o Apocalipse enquanto contempla a visão da Mulher no céu
Diego Velázquez, São João Evangelista na Ilha de Patmos, 1619–1620. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Apocalipse 10 é uma pausa antes da sétima trombeta. Um anjo forte desce do céu com um livrinho aberto na mão e jura que não haverá mais demora para o cumprimento do mistério de Deus. João recebe a ordem de comer o livrinho, que é doce na boca e amargo no estômago, e é enviado a profetizar de novo a muitos povos.

Contexto de Apocalipse 10

Como entre o sexto e o sétimo selo houve o intervalo do capítulo 7, aqui também, entre a sexta e a sétima trombeta, o livro faz uma pausa, que vai até Apocalipse 11,14. Depois dos flagelos de Apocalipse 9, e da recusa dos homens em se converter, o foco passa para a missão profética da Igreja. A cena é uma nova vocação de João, inspirada na vocação de Ezequiel, que também comeu um rolo (Ez 2,8 a 3,3), e na visão final de Daniel, em que um anjo jura sobre o tempo do fim (Dn 12,7).

Explicação de Apocalipse 10

Versículos 1 e 2: o anjo forte e o livrinho aberto

João vê descer do céu outro anjo forte, envolvido numa nuvem, com o arco-íris sobre a cabeça, o rosto como o sol e as pernas como colunas de fogo. São traços que lembram a glória de Deus: a nuvem da presença, o arco-íris do trono (Ap 4,3), a coluna de fogo do Êxodo e o rosto de Cristo na primeira visão. Por isso, alguns intérpretes viram no anjo o próprio Cristo; a maioria entende que é um anjo que reflete a glória de quem o envia. Ele tem na mão um livrinho aberto. Põe o pé direito sobre o mar e o esquerdo sobre a terra: a sua mensagem vale para o mundo inteiro.

Qual a relação desse livrinho com o livro selado do capítulo 5? Há leituras diferentes. Para uns, é o mesmo plano de Deus, agora aberto pelo Cordeiro e entregue para ser anunciado; para outros, é uma mensagem mais restrita, a que João vai profetizar no capítulo 11.

Versículos 3 e 4: os sete trovões

O anjo grita com voz forte, como leão que ruge, imagem com que os profetas falam da voz de Deus (Am 3,8; Os 11,10). Então os sete trovões fazem ouvir as suas vozes. João se prepara para escrever, mas uma voz do céu manda: sela o que os sete trovões disseram e não o escrevas. É o único lugar do livro em que João é proibido de registrar uma revelação. A lição é clara: Deus não revelou tudo, e não cabe a nós preencher o silêncio com especulações.

Versículos 5 a 7: não haverá mais demora

O anjo levanta a mão direita para o céu e jura por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o Criador do céu, da terra e do mar e de tudo o que neles existe. O juramento é que não haverá mais demora. Em Daniel, o anjo jurava que o fim viria depois de um tempo, tempos e metade de um tempo (Dn 12,7); aqui, a espera chega ao seu termo. Quando o sétimo anjo tocar a trombeta, se cumprirá o mistério de Deus, como ele anunciou aos seus servos, os profetas.

Mistério, na linguagem do Novo Testamento, é o plano de salvação escondido em Deus e revelado em Cristo (Rm 16,25-26; Ef 3,3-6). O anjo não marca uma data. Ele afirma que o plano de Deus está em andamento e que a sua realização é certa. É a resposta ao até quando dos mártires em Apocalipse 6,10.

Versículos 8 a 10: comer o livrinho

A voz do céu manda João pegar o livrinho aberto da mão do anjo. O anjo lhe diz: toma e come; ele será amargo no teu estômago, mas na tua boca será doce como mel. João come, e é exatamente assim. Ezequiel também comeu o rolo e o achou doce como mel (Ez 3,3), e Jeremias dizia que as palavras de Deus eram alegria para o seu coração (Jr 15,16).

Comer o livro quer dizer assimilar a Palavra, deixá-la entrar por inteiro antes de anunciá-la. Ela é doce, porque é verdade, consolo e promessa de vitória. E é amarga, porque inclui a cruz, a rejeição, o juízo sobre o pecado e o sofrimento de quem a anuncia. O profeta não fala de algo que não provou.

Versículo 11: profetizar de novo

Então dizem a João: «É preciso que profetizes de novo» (Ap 10,11) a muitos povos, nações, línguas e reis. A missão não termina com as visões; ela se renova. O anúncio é universal e chega até os reis, isto é, até os poderes do mundo. O capítulo seguinte mostrará como é esse testemunho profético.

O que Apocalipse 10 ensina para a fé católica?

O capítulo fala da Palavra de Deus e da missão profética. A Igreja ensina que a Escritura deve alimentar a vida do cristão, e que ela oferece aos fiéis o pão da vida tanto da mesa da Palavra quanto da mesa do Corpo de Cristo (Dei Verbum 21). A imagem de comer o livro expressa bem esse alimento: a Liturgia da Palavra não é só ouvir, mas acolher por dentro.

Os trovões selados lembram que a Revelação pública se completou em Cristo, mas o modo e o momento do fim continuam sendo mistério. Jesus mesmo disse que não cabe a nós conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou (At 1,7). Por isso a Igreja desaconselha cálculos sobre o fim do mundo e convida à vigilância serena. Pela Crisma e pelo Batismo, todo cristão participa da missão profética de Cristo e é chamado a anunciar, com palavras e com a vida.

Reflexão para hoje

A Palavra de Deus é doce e amarga. Quem começa a ler a Bíblia com seriedade conhece as duas coisas. Há dias em que um versículo consola como mel. Há outros em que ele incomoda, porque pede perdão a quem nos feriu, honestidade no trabalho, mudança de hábitos. As duas experiências são sinal de que a Palavra está agindo.

Testemunhar a fé também tem essas duas faces. É bonito falar de Deus a um amigo, a um filho, a um colega. Mas às vezes vem a incompreensão, a ironia, o afastamento. O livrinho amargo no estômago não é sinal de fracasso, é parte da missão.

E há o silêncio dos trovões: nem tudo nos é dado saber. Isso liberta da ansiedade de quem quer controlar o futuro. Basta saber que o mistério de Deus vai se cumprir.

Para rezar com Apocalipse 10

  • Eu deixo a Palavra de Deus entrar em mim, ou só a escuto por fora?
  • Que parte do Evangelho é doce para mim, e qual é amarga?
  • Consigo descansar no mistério de Deus sem querer saber tudo?

Sugestão de oração:

Senhor, dá-me fome da tua Palavra. Que eu a receba inteira, doce e amarga, e deixe que ela me transforme por dentro. Quando eu tiver medo do futuro, ensina-me a confiar no teu mistério. E envia-me, como João, a anunciar-te com a vida. Amém.

A missão profética continua em Apocalipse 11. Compare com a vocação de Ezequiel 3.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Concílio Vaticano II, Constituição Dei Verbum.

Perguntas sobre Apocalipse 10

Por que o livrinho é doce na boca e amargo no estômago?

A Palavra de Deus é doce porque traz a alegria da verdade e da salvação. Torna-se amarga quando o profeta precisa anunciá-la num mundo que resiste e quando ela inclui sofrimento e juízo. A imagem vem de Ezequiel 3,1-3.

O que disseram os sete trovões?

Não sabemos. João é proibido de escrever o que ouviu e recebe a ordem de selar a mensagem. O texto ensina que nem tudo sobre o plano de Deus nos foi revelado.

Quem é o anjo forte de Apocalipse 10?

O texto o chama de anjo. Pela descrição gloriosa, alguns intérpretes viram nele o próprio Cristo, mas a maioria entende que é um anjo enviado com grande autoridade, que reflete a glória de Deus.

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