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Milagre eucarístico de Alcalá de Henares (1597)

Hóstias roubadas e devolvidas a um jesuíta ficaram intactas por décadas em Alcalá. Veja a história das Santas Formas e o mistério do seu paradeiro.

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Gravura de A. Palomino que representa as Sagradas Formas de Alcalá de Henares
Sagradas formas de Alcala por A. Palomino (cropped), Creator:Gregorio Fosman, 1653. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O milagre eucarístico de Alcalá de Henares, perto de Madri, é a história das chamadas Santas Formas: 24 hóstias consagradas que um ladrão arrependido entregou aos jesuítas em 1597 e que, segundo os registros, permaneceram intactas por muitos anos, enquanto hóstias comuns guardadas no mesmo lugar se estragaram. O culto foi autorizado em 1619. As hóstias foram escondidas em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, e o seu paradeiro é desconhecido até hoje.

O que aconteceu em Alcalá de Henares?

Segundo o catálogo, em 1597 um homem foi se confessar na igreja dos jesuítas de Alcalá. Ele tinha andado com um grupo de ladrões que atacava igrejas de aldeias vizinhas e levava objetos de culto. Arrependido, devolveu ao confessor as hóstias consagradas que ainda tinha consigo. Uma reportagem do semanário Alfa y Omega, da arquidiocese de Madri, dá o nome desse sacerdote: padre Juan Juárez.

O confessor informou o seu superior. A ideia inicial era consumir as hóstias numa Missa, como se faz normalmente. Mas os padres temeram que estivessem envenenadas, pois tinham chegado notícias de casos assim com sacerdotes em Múrcia e em Segóvia. Decidiram então guardá-las num cofre de prata e esperar que se decompusessem naturalmente, como acontece com o pão.

Anos de observação

Onze anos depois, as hóstias, que eram 24, continuavam intactas. O catálogo conta que o padre Luis de la Palma, então provincial dos jesuítas, mandou levá-las para um porão úmido, junto com hóstias não consagradas. Com a umidade do lugar, as hóstias comuns logo se estragaram, enquanto as consagradas não mostraram sinal de deterioração.

Passados mais alguns anos, os jesuítas decidiram tornar o fato público. Novos exames foram feitos pelo médico García Carrera, catedrático e médico do rei, e por teólogos, que consideraram a conservação das hóstias um verdadeiro milagre.

Leia também: Milagre Eucarístico de Siena: hóstias intactas há séculos

A Igreja reconheceu o milagre de Alcalá de Henares?

Sim, no sentido de autorização do culto. Segundo o catálogo, em 1619 as autoridades eclesiásticas autorizaram oficialmente o culto das Santas Formas, que passaram a ser adoradas publicamente. Em 1620, o rei Filipe III presidiu uma procissão solene em honra delas, com toda a família real.

O catálogo não reproduz o texto do ato de 1619 nem diz qual autoridade o assinou. A reportagem do Alfa y Omega fala de uma proclamação pública naquele ano, com a transferência das hóstias para a capela do colégio dos jesuítas.

Onde estão as hóstias hoje?

A história das Santas Formas tem um final em aberto. As etapas, segundo as fontes consultadas, foram estas:

  1. As hóstias foram expostas num ostensório octogonal, com três hóstias de cada lado, presente do cardeal Spínola.
  2. Quando o rei Carlos III expulsou os jesuítas da Espanha, no século XVIII, as hóstias continuaram em Alcalá. O catálogo diz que foram levadas para a igreja matriz; a igreja do antigo colégio jesuíta é hoje a paróquia de Santa Maria.
  3. Em 1936, no início da Guerra Civil, a igreja foi incendiada. Pouco antes, sacerdotes esconderam as hóstias e o ostensório.
  4. Segundo o historiador Manuel Vicente Sánchez Moltó, citado pelo Alfa y Omega, as três pessoas que sabiam do esconderijo morreram durante a guerra. Até hoje não se sabe onde as hóstias estão.

Muitas buscas foram feitas na igreja e na cripta, sem resultado, e o catálogo cita o desabafo de um biógrafo da cidade, Anselmo Raymundo Tornero: "Deus faça de novo um milagre!".

A capela das Santas Formas, construída em 1687 e decorada com afrescos de Juan Vicente de Ribera, foi restaurada e reaberta em 2012 como capela de adoração perpétua, aberta dia e noite. No retábulo há uma cópia do ostensório antigo, com 24 hóstias consagradas, em memória das que se perderam.

Leia também: Milagre eucarístico de Herentals (1412): as hóstias na sebe

O que o milagre de Alcalá de Henares ensina sobre a Eucaristia?

O caso de Alcalá não fala de sangue nem de carne, mas de hóstias que não se corromperam. A Igreja ensina que a presença de Cristo na Eucaristia começa na consagração e dura enquanto subsistirem as espécies eucarísticas (CIC 1377). Em situações normais, quando a hóstia se deteriora, a presença sacramental cessa. Por isso o caso chamou a atenção de médicos e teólogos da época.

A lição principal, porém, está no começo da história: um pecador arrependido que procura a confissão e devolve o que tinha roubado. A Eucaristia e a Penitência caminham juntas, como lembra São Paulo.

"Examine-se cada um a si mesmo e, assim, coma deste pão e beba deste cálice." (1Cor 11,28)

A fé na presença real não depende da conservação dessas hóstias (CIC 67). Hoje, a capela de adoração perpétua de Alcalá mostra bem isso: mesmo sem a relíquia, o povo continua diante do mesmo Senhor, presente em cada hóstia consagrada.

Perguntas frequentes

O que são as Santas Formas de Alcalá?

São 24 hóstias consagradas, roubadas e depois devolvidas em 1597, que segundo os registros permaneceram intactas por décadas. O culto público foi autorizado em 1619.

As Santas Formas ainda existem?

Não se sabe. Foram escondidas em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, e as pessoas que conheciam o esconderijo morreram. O paradeiro continua desconhecido.

Posso visitar a capela das Santas Formas?

Sim. Desde 2012 ela funciona como capela de adoração perpétua, aberta 24 horas, na igreja do antigo colégio dos jesuítas de Alcalá de Henares.

Para aprofundar

Fontes

Milagres Eucarísticos no mundo: catálogo da exposição de São Carlo Acutis; Catecismo da Igreja Católica (§§ 67 e 1377); Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Alfa y Omega (semanário da arquidiocese de Madri), reportagem sobre a capela das Santas Formas.

As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.