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Temperança: a virtude do equilíbrio cristão

Temperança não é tristeza nem proibição. É a liberdade de usar bem os prazeres e os bens da vida, sem ser dominado por eles.

Atualizado em 6 min de leitura
Temperança em obra de Piero del Pollaiuolo
Temperance, Piero del Pollaiuolo, 1470. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A temperança é a virtude moral que modera a atração dos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados (CIC 1809). Ela garante o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites do que é honesto. Não se trata de desprezar o prazer, mas de não ser escravo dele.

A temperança é a quarta das virtudes cardeais. Ela cuida justamente das áreas em que somos mais vulneráveis: comida, bebida, sexualidade, conforto, consumo, uso do tempo e das telas. Por isso é uma virtude muito atual.

O que o Catecismo ensina sobre a temperança?

O Catecismo explica que a pessoa temperante orienta para o bem os seus apetites sensíveis, guarda uma santa discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração. Ele cita a Escritura:

"Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos." (Eclo 18,30)

No Novo Testamento, a temperança aparece muitas vezes como "sobriedade". São Paulo ensina, em texto citado pelo Catecismo, que a graça de Deus nos educa para viver neste mundo com sobriedade, justiça e piedade (Tt 2,12). O Catecismo também lembra que, segundo Santo Agostinho, viver bem é amar a Deus de todo o coração, e que a temperança é a forma desse amor que se conserva íntegro e incorrupto.

O domínio de si é também um dos frutos do Espírito Santo (Gl 5,22-23). Isso mostra que a temperança não é só esforço humano: é obra da graça em quem coopera com ela.

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Quais são as partes da temperança?

São Tomás de Aquino mostra que a temperança se desdobra em várias virtudes, cada uma moderando um tipo de desejo:

VirtudeO que moderaVício contrário
AbstinênciaO desejo de comerGula
SobriedadeO uso de bebidas alcoólicas e de tudo o que altera a razãoEmbriaguez
CastidadeO desejo sexual, segundo o estado de vidaLuxúria
PudorOs gestos, olhares e modos ligados à intimidadeImpudor
MansidãoA iraIra desordenada
ClemênciaO rigor nas puniçõesCrueldade
HumildadeO desejo da própria grandezaSoberba
EstudiosidadeO desejo de saberCuriosidade vã
ModéstiaO modo de vestir, falar e se apresentarOstentação

Repare que vários pecados capitais aparecem nessa tabela. A temperança é o grande remédio contra a gula, a luxúria, a ira e, de certo modo, a soberba.

Há também um vício por falta

São Tomás observa que existe um vício oposto à temperança por defeito: a insensibilidade, que despreza os prazeres legítimos a ponto de prejudicar a saúde ou os deveres. A temperança cristã não é desprezo pela comida, pelo descanso ou pela alegria. Jesus participou de banquetes e transformou água em vinho em Caná (Jo 2,1-11). O problema não está nos bens, mas na desordem.

Por que a temperança é tão difícil hoje?

Vivemos cercados de estímulos pensados para nos fazer consumir mais: comida ultraprocessada, compras com um clique, séries que começam sozinhas, notificações constantes, conteúdo sexualizado. Tudo isso empurra para o excesso. A temperança, nesse contexto, é uma forma de liberdade: a pessoa temperante decide o que quer, em vez de ser decidida pelos impulsos.

Há ainda um efeito em cadeia. Quem não domina pequenos desejos tem mais dificuldade para rezar, para estudar, para ouvir o cônjuge ou os filhos com atenção. A intemperança dispersa o coração. Por isso os mestres espirituais sempre ligaram a sobriedade à vigilância e à oração: um coração livre está disponível para Deus e para os outros.

Também é importante distinguir a falta de temperança de problemas de saúde. Compulsões, dependência química, transtornos alimentares e vício em jogos ou pornografia podem ter componentes que exigem tratamento médico e psicológico. Nesses casos, a fé e os sacramentos caminham junto com o tratamento, e não no lugar dele.

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Como viver a temperança no dia a dia?

  1. Escolher pequenas renúncias. Deixar a sobremesa um dia, esperar alguns minutos antes de pegar o celular, não comer entre as refeições. Pequenas mortificações treinam a vontade.
  2. Viver os tempos penitenciais. A Quaresma, as sextas-feiras e o jejum antes da comunhão são escolas de temperança oferecidas pela Igreja.
  3. Organizar o uso das telas. Defina horários, tire notificações desnecessárias, deixe o celular fora do quarto à noite.
  4. Guardar os sentidos. Evitar conscientemente imagens, conversas e ambientes que despertam desejos desordenados.
  5. Consumir com critério. Antes de comprar, perguntar: preciso disso? Posso esperar? Posso doar o valor?
  6. Cultivar alegrias boas. Esporte, amizade, música, natureza, leitura. A temperança cresce quando o coração encontra prazeres ordenados.
  7. Rezar e confessar. Pedir a graça do domínio de si e recomeçar sempre que cair.

Exemplos práticos

  • Num churrasco com amigos, aproveitar a festa sem beber a ponto de perder o controle.
  • Diante de uma promoção tentadora, esperar 24 horas antes de decidir a compra.
  • Num namoro, combinar limites claros e evitar situações de risco, como orienta o artigo sobre castidade no namoro.
  • Numa discussão, respirar e esperar antes de responder: isso também é temperança, na forma da mansidão.

Santos que ajudam a viver a temperança

  • São Francisco de Sales: conhecido como doutor da mansidão, trabalhou muito o próprio temperamento para tratar todos com doçura.
  • São Bento: sua Regra propõe medida e equilíbrio na comida, na bebida, no sono e no trabalho.
  • São Luís Gonzaga: padroeiro da juventude, exemplo de pureza e domínio de si.
  • São João Maria Vianney: o Cura d'Ars viveu com grande austeridade a serviço dos fiéis.

Exame de consciência sobre a temperança

  • Comi ou bebi além do necessário, a ponto de prejudicar a saúde ou o juízo?
  • Gastei dinheiro com coisas supérfluas por impulso?
  • Perdi tempo excessivo com celular, séries ou jogos, deixando deveres de lado?
  • Busquei prazeres sexuais fora da ordem querida por Deus?
  • Deixei a raiva me dominar em palavras ou gestos?
  • Vesti-me ou comportei-me de modo a chamar atenção para mim?
  • Pratiquei alguma renúncia, ainda que pequena, por amor a Deus?

Perguntas frequentes

Temperança significa não sentir prazer?

Não. O prazer foi criado por Deus. A temperança ensina a vivê-lo com ordem, no momento certo e na medida certa.

Qual a relação entre temperança e castidade?

A castidade é uma parte da temperança. Ela integra a sexualidade na pessoa, segundo o estado de vida de cada um: solteiro, casado ou consagrado.

A mansidão faz parte da temperança?

Sim. Para São Tomás de Aquino, a mansidão é uma virtude ligada à temperança, porque modera a ira.

A fé basta para vencer um vício?

A graça é indispensável, mas muitos vícios também pedem ajuda médica e psicológica. Buscar tratamento não é falta de fé.

Para aprofundar

Fontes

Catecismo da Igreja Católica, especialmente CIC 1809. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, tratado sobre a temperança. Regra de São Bento. Bíblia Sagrada (tradução da CNBB). As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.