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Gula: o pecado capital e como vencê-lo

A gula vai além de comer demais. Conheça suas formas, saiba quando o problema pede ajuda médica e como o jejum e a sobriedade libertam.

Atualizado em 7 min de leitura
Gula em obra de Hieronymus Bosch
Tisch mit Szenen zu den sieben Todsünden und den letzten vier Dingen, Szene: sieben Todsünden, Detail: Unmäßigkeit, Hieronymus Bosch, 1475-1480. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A gula é o desejo desordenado de comer e beber: a pessoa busca o prazer da comida ou da bebida além da necessidade e da razão, a ponto de prejudicar a saúde, os deveres ou a vida espiritual. É um dos sete pecados capitais (CIC 1866). A virtude que se opõe a ela é a temperança, vivida na abstinência e na sobriedade.

Este artigo aprofunda um dos vícios apresentados em os pecados capitais e as virtudes opostas. É um tema que toca o corpo e a saúde, por isso merece um cuidado especial: nem todo problema com a comida é pecado, e alguns pedem acompanhamento médico.

O que a Igreja ensina sobre a gula?

Comer e beber são bons. Deus criou os alimentos, e Jesus participou de refeições, banquetes e festas. Em Caná, transformou água em vinho para alegrar um casamento (Jo 2,1-11). O problema não está na comida, mas na desordem.

O Catecismo, ao tratar do respeito à saúde, ensina que a virtude da temperança leva a evitar toda espécie de excessos, o abuso da comida, do álcool, do fumo e dos medicamentos. E afirma que quem, em estado de embriaguez, põe em risco a segurança dos outros e a própria, nas estradas, no mar ou no ar, torna-se gravemente culpado (CIC 2290).

A Escritura alerta:

"Cuidado para que vossos corações não fiquem pesados pela gula, pela embriaguez e pelas preocupações da vida." (Lc 21,34)
"Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus." (1Cor 10,31)

São Paulo também fala, com tristeza, daqueles cujo "deus é o ventre" (Fl 3,19): pessoas que colocam a satisfação do apetite no centro da vida.

Leia também: Ira: o pecado capital e como vencê-lo

Quais são as formas da gula?

São Gregório Magno descreveu cinco maneiras de pecar pela gula, retomadas por São Tomás de Aquino. Elas mostram que a gula não é só quantidade:

FormaO que significaExemplo atual
Antes da horaNão saber esperar o momento da refeiçãoBeliscar o dia inteiro, sem fome real.
Com requinte excessivoBuscar sempre o mais caro e sofisticadoGastar muito com comida por status.
Em excessoComer ou beber além do necessárioComer até passar mal, beber até perder o controle.
Com avidezComer com sofreguidão, sem medidaComer rápido, sem atenção, sem partilhar.
Com exigênciaPreocupação exagerada com o preparoReclamar de tudo, não aceitar o que é servido.

Os efeitos da gula

São Gregório aponta também os vícios que nascem da gula: a alegria tola, as brincadeiras inconvenientes, a impureza, a tagarelice e o embotamento da mente. Quem já viu uma festa terminar mal por causa da bebida reconhece essa lista.

Gula ou transtorno alimentar?

Este ponto é muito importante. Anorexia, bulimia, compulsão alimentar e outros transtornos alimentares são condições de saúde, com causas físicas, emocionais e psicológicas. Não devem ser tratados simplesmente como pecado de gula ou como falta de força de vontade. Eles exigem acompanhamento médico, nutricional e psicológico.

O mesmo vale para a dependência de álcool e outras substâncias. A pessoa dependente precisa de tratamento, e muitas vezes também se beneficia de grupos de apoio. A fé, a oração e os sacramentos são uma ajuda real e caminham junto com esse cuidado, nunca no lugar dele.

Também é preciso cuidado com o extremo oposto: dietas e jejuns exagerados, feitos por vaidade ou por obsessão com o corpo, não são virtude. A temperança busca o equilíbrio, não o descuido da saúde.

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Como reconhecer a gula no dia a dia?

  • Comer por ansiedade, tédio ou tristeza, como forma de fugir dos problemas.
  • Beber em excesso com frequência, ou não conseguir parar depois de começar.
  • Gastar com comida e bebida o que falta para necessidades da família ou para a caridade.
  • Irritar-se quando a refeição atrasa ou não está do jeito desejado.
  • Desperdiçar comida enquanto outros passam fome.
  • Dirigir depois de beber.
  • Não conseguir fazer o jejum e a abstinência pedidos pela Igreja, mesmo tendo saúde.

Como vencer a gula?

  1. Rezar antes e depois das refeições. A oração recorda que o alimento é dom de Deus e ajuda a comer com gratidão e medida.
  2. Viver o jejum e a abstinência da Igreja. O Código de Direito Canônico prevê jejum e abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, e abstinência de carne, ou de outro alimento determinado pela Conferência dos Bispos, nas sextas-feiras (cân. 1251). A Conferência dos Bispos pode permitir que a abstinência das sextas-feiras seja substituída por outras formas de penitência, como obras de caridade e exercícios de piedade (cân. 1253). O jejum obriga dos 18 anos completos até os 60 anos começados, e a abstinência a partir dos 14 anos (cân. 1252). Doentes e pessoas com necessidades especiais de saúde estão dispensados.
  3. Fazer pequenas renúncias. Dispensar um doce, um refrigerante, um segundo prato, oferecendo a Deus.
  4. Comer com atenção. Sentar à mesa, sem telas, em família quando possível.
  5. Estabelecer limites para o álcool. Decidir antes da festa quanto vai beber, e nunca dirigir depois de beber.
  6. Partilhar. Doar alimentos, apoiar obras que alimentam os pobres. A gula fecha; a partilha abre.
  7. Cuidar da raiz emocional. Se a comida é refúgio para angústia ou solidão, procure ajuda para lidar com essas dores.
  8. Buscar acompanhamento profissional quando houver sinais de compulsão, dependência ou transtorno.

Exemplos práticos

  • Uma família que reza antes do almoço de domingo e decide doar o equivalente a uma refeição por mês.
  • Um jovem que vai a uma festa e combina com um amigo de não passar de um limite de bebida.
  • Alguém que percebe que come à noite por ansiedade e procura um profissional de saúde.
  • Uma pessoa que oferece a abstinência de sexta-feira por uma intenção concreta.

Santos que ajudam a vencer a gula

  • São Bento: a sua Regra estabelece medida na comida e na bebida, evitando tanto o excesso quanto o rigor desumano.
  • São João Maria Vianney: viveu com grande simplicidade à mesa para estar disponível aos fiéis.
  • São Francisco de Assis: modelo de sobriedade alegre e gratidão pelas criaturas.
  • Nossa Senhora: em Caná, mostrou atenção às necessidades dos outros à mesa, intercedendo junto a seu Filho.

Exame de consciência sobre a gula

  • Comi ou bebi em excesso, prejudicando a saúde ou o juízo?
  • Embriaguei-me ou dirigi depois de beber?
  • Desperdicei alimentos?
  • Fui exigente ou reclamei sem motivo da comida servida?
  • Deixei de cumprir o jejum e a abstinência sem causa justa?
  • Gastei com comida o que deveria ir para necessidades ou caridade?
  • Ignorei sinais de um problema que pede ajuda médica?

Perguntas frequentes

Comer bem é pecado de gula?

Não. Desfrutar de uma boa refeição, especialmente em festas e encontros, é legítimo. A gula está no excesso, na avidez e na desordem.

Compulsão alimentar é pecado?

A compulsão alimentar é uma condição de saúde que reduz a liberdade da pessoa e pede tratamento médico e psicológico. Converse sobre isso também com um sacerdote, sem culpa desnecessária.

Quem é obrigado ao jejum na Igreja Católica?

Segundo o Código de Direito Canônico, o jejum obriga os fiéis dos 18 anos completos até os 60 anos começados. Doentes e pessoas com necessidades de saúde estão dispensados.

Para aprofundar

Fontes

Catecismo da Igreja Católica, especialmente CIC 1866 e 2290. Código de Direito Canônico, cânones 1251 a 1253. São Gregório Magno, Moralia sobre Jó. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, questão sobre a gula. Regra de São Bento. Bíblia Sagrada (tradução da CNBB). As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.