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Avareza: o pecado capital e como vencê-lo

A avareza não é só coisa de rico. Veja como o apego aos bens aparece no cotidiano e como a generosidade e a esmola libertam o coração.

Atualizado em 7 min de leitura
Avareza em obra de Hieronymus Bosch or follower
Tafelblad met de zeven hoofdzonden The Seven Deadly Sins, Hieronymus Bosch or follower, between 1505 and 1510. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A avareza é o amor desordenado ao dinheiro e aos bens materiais: a pessoa deseja possuir sem limite, acumula por segurança ou prestígio e fecha o coração às necessidades dos outros. É um dos sete pecados capitais (CIC 1866) e se opõe ao décimo mandamento, que proíbe a cobiça desregrada dos bens alheios. O seu remédio é a generosidade, vivida na partilha e na esmola.

Este texto aprofunda um dos vícios apresentados em os pecados capitais e as virtudes opostas. A avareza é traiçoeira porque costuma se justificar com argumentos razoáveis: prudência, planejamento, garantia do futuro.

O que é a avareza segundo o Catecismo?

Ao explicar o décimo mandamento, o Catecismo ensina que ele proíbe a avidez e o desejo de apropriação desmedida dos bens terrenos, isto é, a cupidez que nasce da paixão imoderada pelas riquezas e pelo poder que elas dão (CIC 2536). Não é pecado desejar o necessário para viver e para sustentar a família, nem adquirir bens de forma justa. O pecado está na desordem do coração.

São Tomás de Aquino define a avareza como o amor desordenado de possuir riquezas. Ela se opõe à liberalidade, a virtude de usar os bens com generosidade. No extremo oposto está a prodigalidade, o desperdício irresponsável. A virtude está no meio.

A Escritura é muito clara:

"Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Por se entregarem a ele, alguns se desviaram da fé e se afligiram com muitos tormentos." (1Tm 6,10)
"Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." (Mt 6,24)

Leia também: Ira: o pecado capital e como vencê-lo

A parábola do rico insensato

Certa vez, um homem pediu a Jesus que mandasse o irmão repartir a herança. Jesus respondeu com um alerta: "Cuidado com toda espécie de ganância, pois a vida de alguém não consiste na abundância de bens" (Lc 12,15). E contou a parábola de um rico cuja terra produziu muito. Ele pensou em derrubar os celeiros, construir maiores e dizer a si mesmo: descansa, come, bebe, aproveita. Mas Deus lhe disse: "Insensato, nesta mesma noite tua vida te será pedida. E o que acumulaste, para quem ficará?" (Lc 12,16-21).

O homem não roubou ninguém. O seu erro foi pensar só em si e esquecer que a vida está nas mãos de Deus. Jesus conclui que assim acontece com quem ajunta tesouros para si e não é rico diante de Deus.

Como reconhecer a avareza no dia a dia?

A avareza não é exclusividade de quem tem muito dinheiro. Pessoas de qualquer condição podem ter o coração preso aos bens. Alguns sinais:

  • Ansiedade constante com dinheiro, mesmo quando as necessidades estão atendidas.
  • Dificuldade de doar, inclusive pequenas quantias, ou de contribuir com o dízimo da paróquia.
  • Medir o próprio valor ou o dos outros pelo que possuem.
  • Negociar sempre levando vantagem, pagando mal ou atrasando sem necessidade.
  • Brigas familiares por herança que destroem relações.
  • Trabalhar em excesso, sacrificando família, saúde e oração, só para acumular.
  • Apego a objetos a ponto de não conseguir emprestar, partilhar ou desfazer-se do que não usa.
  • Indiferença diante do pobre, com justificativas prontas para não ajudar.

Os pecados que nascem da avareza

São Gregório Magno aponta como frutos da avareza a traição, a fraude, a mentira, o perjúrio, a inquietação, a violência e a dureza de coração contra a misericórdia. Judas, que entregou Jesus por trinta moedas, é o exemplo dramático de até onde o apego ao dinheiro pode levar (Mt 26,14-16).

Leia também: Inveja: o pecado capital e como vencê-la

O que significa ser pobre de coração?

O Catecismo ensina que Jesus pede aos seus discípulos que o prefiram a tudo e a todos, e que o desapego das riquezas é necessário para entrar no Reino dos Céus (CIC 2544). Todos os fiéis devem orientar bem os seus afetos, para que o uso das coisas do mundo e o apego às riquezas não os impeçam de buscar a caridade perfeita (CIC 2545).

A primeira das bem-aventuranças diz: "Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus" (Mt 5,3). O Catecismo explica que o Senhor se lamenta dos ricos porque encontram na abundância dos bens a sua consolação (CIC 2547). Pobreza de coração não é necessariamente miséria material: é liberdade interior diante dos bens, confiança na providência e disponibilidade para partilhar.

Como vencer a avareza?

  1. Dar em primeiro lugar. Separe a sua contribuição para a Igreja e para os pobres antes de outros gastos, e não com o que sobrar.
  2. Dar com alegria. "Deus ama quem dá com alegria" (2Cor 9,7). Comece com pouco, mas com regularidade.
  3. Praticar as obras de misericórdia. Dar de comer a quem tem fome, vestir os nus, visitar os doentes. A esmola é um ato de caridade fraterna e também de justiça.
  4. Desapegar-se do que não usa. Roupas, livros e objetos parados podem servir a alguém hoje.
  5. Revisar o orçamento com critério cristão. Planejar é bom; acumular sem fim, por medo ou prestígio, não é.
  6. Confiar na providência. Jesus convida a olhar os lírios do campo e as aves do céu (Mt 6,25-34). Isso não dispensa o trabalho, mas tira a angústia.
  7. Ser justo nos negócios. Pagar salário digno, preço justo, impostos devidos.
  8. Agradecer. A gratidão desloca o olhar do que falta para o que foi recebido.

Exemplos práticos

  • Uma família que, ao receber o décimo terceiro, reserva uma parte para ajudar um vizinho em dificuldade.
  • Irmãos que, numa partilha de herança, preferem ceder um pouco a romper a convivência.
  • Um empresário que revisa salários e condições de trabalho à luz da justiça.
  • Alguém que define um limite para compras e destina a diferença a uma obra de caridade.

Santos que ajudam a vencer a avareza

  • São Francisco de Assis: filho de comerciante rico, renunciou a tudo para seguir Cristo pobre.
  • São Mateus: deixou a banca de impostos ao ouvir o chamado de Jesus (Mt 9,9).
  • Zaqueu: depois de receber Jesus em casa, decidiu dar metade dos bens aos pobres e restituir quatro vezes o que havia defraudado (Lc 19,8).
  • São Vicente de Paulo e Santa Teresa de Calcutá: mostraram que a caridade concreta com os pobres é lugar de encontro com Cristo.

Exame de consciência sobre a avareza

  • Coloquei o dinheiro acima de Deus, da família ou da saúde?
  • Deixei de ajudar quem precisava, podendo fazê-lo?
  • Contribuí com a minha paróquia de acordo com as minhas possibilidades?
  • Enganei, cobrei a mais ou paguei de menos em algum negócio?
  • Briguei com familiares por bens ou herança?
  • Vivi ansioso com o futuro, sem confiar na providência?
  • Invejei ou desejei os bens dos outros?

Perguntas frequentes

Ter dinheiro é pecado para a Igreja Católica?

Não. Os bens podem ser adquiridos e usados de forma justa. O pecado está no apego desordenado e no fechamento às necessidades dos outros.

Poupar e investir é avareza?

Planejar o futuro e garantir o sustento da família é prudência. Torna-se avareza quando a acumulação vira fim em si mesma ou impede a generosidade.

Qual a virtude oposta à avareza?

A generosidade, chamada por São Tomás de liberalidade, que leva a usar os bens com desprendimento e a partilhá-los com alegria.

Para aprofundar

Fontes

Catecismo da Igreja Católica, especialmente CIC 1866, 2536 e 2544 a 2547. São Gregório Magno, Moralia sobre Jó. São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, questão sobre a avareza. Bíblia Sagrada (tradução da CNBB). As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.