O Salmo 97 celebra o Senhor que reina e se manifesta em glória. Com imagens de nuvens, fogo, relâmpagos e montanhas que derretem como cera, ele descreve a presença de Deus diante da qual os ídolos ficam envergonhados. Termina com uma promessa luminosa: para o justo nasce a luz, e a alegria para os retos de coração.
Contexto do Salmo 97
Na numeração litúrgica e da Vulgata, este é o Salmo 96. O texto hebraico não tem título nem autor. Pertence ao grupo dos salmos do Reino do Senhor (93 e 95 a 99) e começa com a mesma aclamação de outros deles: o Senhor reina.
É um hino. Usa a linguagem das teofanias, as manifestações de Deus que a Bíblia descreve no Sinai, com nuvem, fogo e tremor (Ex 19,16-18). O salmo reúne muitas expressões de outros textos bíblicos, como uma colcha de citações, o que leva estudiosos a pensar numa composição feita a partir de tradições mais antigas. A data exata é incerta.
Explicação do Salmo 97
Versículo 1: exulte a terra, alegrem-se as ilhas
O salmo começa proclamando que o Senhor é Rei e convidando a terra a exultar (Sl 97,1). As ilhas numerosas, isto é, os povos distantes do litoral do Mediterrâneo, também são convidadas à alegria. O reinado de Deus é boa notícia para o mundo inteiro.
Versículos 2 a 6: nuvem, fogo e relâmpagos
Vem a descrição da manifestação de Deus. Nuvens e escuridão o cercam: Deus se revela, mas continua mistério, ninguém o domina com o olhar. Justiça e direito são a base do seu trono. Ou seja, o poder de Deus não é arbitrário, ele se apoia no que é justo.
Um fogo caminha à sua frente e queima seus adversários ao redor. Seus relâmpagos iluminam o mundo, e a terra vê e estremece. As montanhas se derretem como cera diante do Senhor de toda a terra. As montanhas, símbolo do que é mais firme e antigo, não resistem à sua presença. Os céus anunciam a sua justiça, e todos os povos contemplam a sua glória. A teofania não é para assustar, mas para revelar quem Deus é.
Versículos 7 a 9: a vergonha dos ídolos
Diante dessa glória, ficam envergonhados os que adoram imagens e se orgulham de seus ídolos. Todos os deuses se prostram diante dele. A tradução grega antiga leu aqui “adorem-no todos os seus anjos”, e muitos estudiosos pensam que a Carta aos Hebreus, ao dizer que os anjos adoram o Filho (Hb 1,6), ecoa este versículo ou um texto parecido do Deuteronômio.
Sião ouve e se alegra, as cidades de Judá exultam por causa dos julgamentos de Deus. Os mesmos atos que envergonham os idólatras alegram o povo fiel. Porque tu, Senhor, és o Altíssimo sobre toda a terra, muito acima de todos os deuses.
Versículos 10 a 12: a luz que nasce para o justo
A última parte passa da grandiosidade cósmica para a vida do fiel. Vós que amais o Senhor, odiai o mal. Amar a Deus inclui rejeitar o mal. Ele guarda a vida dos seus fiéis e os livra da mão dos ímpios.
Então vem a imagem mais bonita do salmo: a luz é semeada para o justo, e a alegria para os retos de coração. A luz é comparada a uma semente lançada que vai brotar. Mesmo quando ainda não se vê, ela já foi plantada. O salmo termina com um convite: alegrai-vos, justos, no Senhor, e louvai o seu santo nome.
O que o Salmo 97 ensina para a fé católica?
O salmo ensina que Deus se revela, mas permanece mistério. As nuvens e a escuridão que o cercam lembram que nunca esgotamos o conhecimento de Deus. A fé católica fala da transcendência de Deus, ao mesmo tempo próximo e infinitamente maior que nós.
A leitura cristã vê no Senhor que se manifesta em glória a revelação de Cristo. A luz que nasce para o justo foi lida como anúncio do nascimento do Salvador, “luz do mundo” (Jo 8,12). Por isso a Igreja canta este salmo na Missa da Aurora do Natal, com o refrão que anuncia a luz que surgiu para o mundo. A glória de Deus, que no Sinai vinha com fogo e trovão, aparece em Belém na fragilidade de uma criança.
O salmo também une adoração e moral: quem ama o Senhor odeia o mal. Não se trata de odiar pessoas, mas de rejeitar o pecado. Na Liturgia das Horas, a Igreja reza este salmo no ciclo do saltério.
Reflexão para hoje
Às vezes Deus parece envolto em nuvens. Rezamos e não entendemos o que ele está fazendo. O Salmo 97 não esconde isso: nuvens e escuridão o cercam. Mas logo em seguida diz que justiça e direito são a base do seu trono. Mesmo quando não compreendemos, podemos confiar que Deus não age de modo injusto.
A imagem da luz semeada é um grande consolo. Muitas vezes a pessoa que tenta viver com retidão não vê resultado imediato: o filho continua distante, a situação no trabalho não melhora, a doença não cede. O salmo diz que a luz já foi semeada. Ela vai brotar no tempo de Deus.
Por fim, o salmo deixa uma pergunta prática: o que hoje eu adoro no lugar de Deus? Os ídolos modernos também acabam envergonhando quem confia neles. Só Deus não decepciona.
Para rezar com o Salmo 97
- Em que situação Deus me parece hoje envolto em nuvens?
- Meu amor a Deus me leva a rejeitar o mal concretamente?
- Onde posso reconhecer a luz que Deus já semeou na minha vida?
Sugestão de oração:
Senhor, tu reinas e toda a terra se alegra. Mesmo quando te cercam nuvens e não entendo teus caminhos, creio que tua justiça sustenta o teu trono. Dá-me um coração que te ame e rejeite o mal. Faz brotar em mim a luz que semeaste, para que eu me alegre em ti e louve o teu santo nome. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Lecionário (Natal, Missa da Aurora); Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 97
O que significa “nuvens e escuridão o cercam” no Salmo 97?
Por que o Salmo 97 é cantado no Natal?
O que quer dizer “a luz é semeada para o justo”?
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