O Salmo 89 canta o amor e a fidelidade de Deus e a aliança eterna que ele fez com Davi e sua descendência. Depois de um hino ao Criador e de recordar as promessas, o salmo muda de tom: o rei foi derrotado e a coroa caiu no pó. O orante pergunta a Deus onde estão as antigas promessas. É um salmo de fé posta à prova.
Contexto do Salmo 89
Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 88. O título o chama de poema (maskil) de Etã, o ezraíta, segundo a tradição. Etã aparece como sábio e cantor, assim como Hemã, a quem se atribui o Salmo 88. A Bíblia da CNBB conta o título como versículo 1. O salmo encerra o terceiro livro do Saltério com uma doxologia.
O gênero é composto: hino, oráculo real e lamento. A base é a promessa feita por Deus a Davi pelo profeta Natã, de que sua dinastia duraria para sempre (2Sm 7,8 a 16). A parte final descreve uma grande derrota do rei. Muitos estudiosos pensam na queda de Jerusalém e no fim da monarquia em 587 antes de Cristo, mas o salmo não diz qual crise tem em vista.
Explicação do Salmo 89
São 53 versículos. Seguimos blocos temáticos, com a numeração aproximada da Bíblia da CNBB.
Versículos 2 a 5: o tema do salmo
O salmo abre com uma promessa: cantarei para sempre o amor do Senhor (Sl 89,2) e anunciarei de geração em geração a tua fidelidade. Amor (hesed) e fidelidade são as duas palavras que voltam ao longo de todo o texto. Em seguida, Deus mesmo recorda: fiz uma aliança com o meu eleito, jurei a Davi, meu servo, que firmaria sua descendência para sempre e construiria seu trono por todas as gerações.
Versículos 6 a 19: o Deus incomparável
Antes de falar do rei, o salmo louva o Rei dos reis. Os céus celebram as maravilhas de Deus, e a assembleia dos santos, sua fidelidade. Quem nas nuvens se compara ao Senhor? Ele domina o orgulho do mar, acalma as ondas, esmagou Raab, imagem do caos e das forças hostis. Os céus e a terra são dele; ele fundou o mundo. O Tabor e o Hermon, montes do norte, exultam no seu nome.
A justiça e o direito são a base do seu trono; o amor e a fidelidade caminham à sua frente. Feliz o povo que sabe aclamar e caminha à luz da face de Deus. O nosso escudo, isto é, o rei, pertence ao Senhor, e o nosso rei ao Santo de Israel. O hino prepara a confiança: se Deus é assim, sua promessa ao rei é firme.
Versículos 20 a 30: a promessa a Davi
Vem um longo oráculo. Deus falou em visão aos seus fiéis: encontrei Davi, meu servo, e o ungi com meu óleo santo. Minha mão estará sempre com ele, meu braço o fortalecerá. O inimigo não o enganará, e seus adversários serão abatidos. Minha fidelidade e meu amor estarão com ele.
O rei chamará Deus de meu Pai, meu Deus e rocha da minha salvação; e Deus o fará seu primogênito, o mais alto entre os reis da terra. A aliança permanecerá firme, e sua descendência durará como os dias do céu. O rei é chamado filho de Deus, como no Salmo 2 e em 2Sm 7,14, num sentido de adoção e de missão.
Versículos 31 a 38: fidelidade mesmo na infidelidade
Deus prevê a infidelidade: se os filhos de Davi abandonarem minha lei e não guardarem meus mandamentos, castigarei suas faltas com a vara. Mas não retirarei deles o meu amor nem trairei minha fidelidade. Não violarei a aliança nem mudarei a palavra dos meus lábios.
E o juramento solene: jurei uma vez pela minha santidade, não mentirei a Davi. Sua descendência permanecerá para sempre e seu trono será como o sol diante de mim, firme como a lua, testemunha fiel no céu. A promessa é incondicional: o castigo não cancela a aliança.
Versículos 39 a 46: a crise
Então o salmo muda bruscamente: mas tu rejeitaste e repudiaste, ficaste irritado com o teu ungido. Desprezaste a aliança com o teu servo e lançaste por terra a sua coroa. Derrubaste suas muralhas, suas fortalezas viraram ruínas. Todos os que passam o saqueiam, e ele se tornou zombaria para os vizinhos. Deus exaltou o braço dos adversários, fez cessar o esplendor do rei, derrubou seu trono e encurtou os dias da sua juventude.
O contraste com a parte anterior é proposital. O salmista coloca lado a lado o que Deus prometeu e o que está acontecendo. Não esconde a contradição; leva-a para dentro da oração.
Versículos 47 a 52: onde está o teu amor de outrora?
Vêm as perguntas: até quando, Senhor? Vais te esconder para sempre? Lembra-te de como é breve a minha vida; que homem viverá sem ver a morte? Onde está, Senhor, o teu amor de outrora, que juraste a Davi pela tua fidelidade? Lembra-te dos insultos contra os teus servos, que levo no peito, com que os inimigos ultrajam os passos do teu ungido.
O orante não acusa Deus de mentira; apela à sua fidelidade. É como dizer: tu prometeste, e eu continuo crendo na tua promessa, mesmo sem entender.
Versículo 53: bendito seja o Senhor
O último versículo é a doxologia que fecha o terceiro livro dos Salmos: bendito seja o Senhor para sempre. Amém, amém. Colocada depois de tantas perguntas, ela soa também como um ato de fé.
O que o Salmo 89 ensina para a fé católica?
A resposta cristã à pergunta onde está o teu amor de outrora é Jesus Cristo. O anjo anuncia a Maria que o Filho dela receberá o trono de Davi, seu pai, e reinará para sempre (Lc 1,32 a 33). São Paulo, na sinagoga de Antioquia, recorda que Deus encontrou Davi e que da sua descendência fez surgir Jesus como salvador (At 13,22 a 23). O Apocalipse chama Jesus de testemunha fiel, primogênito dos mortos e príncipe dos reis da terra (Ap 1,5), expressões que ecoam este salmo. A promessa não falhou: cumpriu-se de um modo maior, num Rei que venceu a morte.
A liturgia confirma essa leitura. O Salmo 89 é usado como salmo responsorial na Missa do Crisma, celebrada em geral na manhã da Quinta-feira Santa, com o versículo sobre o servo ungido com o óleo santo, e na solenidade de São José, esposo de Maria e descendente de Davi.
O salmo ensina também que a fidelidade de Deus é maior que as nossas infidelidades: se somos infiéis, ele permanece fiel (2Tm 2,13). O Catecismo diz que os salmos são o espelho das maravilhas de Deus na história do seu povo e das situações humanas vividas pelo salmista (CIC n. 2588). Aqui estão as duas coisas: a promessa e a crise.
Reflexão para hoje
Muitas pessoas vivem o drama deste salmo. Receberam promessas de Deus, rezaram com fé, viram graças, e de repente tudo parece desmoronar: um casamento em crise, um projeto de vida que fracassou, uma vocação posta à prova. A pergunta onde está o teu amor de outrora é real.
O Salmo 89 ensina a não separar o louvor da dor. Ele começa cantando e termina bendizendo, mesmo atravessando a escuridão. Isso não é ingenuidade; é a fé de quem sabe que Deus jurou pela sua santidade e não mente.
Para quem vive momentos assim, ajuda olhar para Cristo. Na cruz, também parecia que a coroa de Davi tinha caído no pó. Três dias depois, ficou claro que Deus tinha sido fiel. A nossa história pessoal também está dentro dessa fidelidade.
Para rezar com o Salmo 89
- Que promessas de Deus eu preciso lembrar nos momentos de crise?
- Consigo levar a Deus as contradições que não entendo, sem deixar de bendizê-lo?
- Como Jesus, filho de Davi, é a resposta às minhas perguntas?
Sugestão de oração:
Senhor, cantarei para sempre o teu amor. Mesmo quando não entendo os teus caminhos, creio na tua fidelidade. Lembra-te das tuas promessas e sustenta-me na hora da crise. Em Jesus, filho de Davi e meu Rei, mostraste que não mentes. Bendito sejas para sempre. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588; Missal Romano.
Leia também: Rei Davi, o pastor que se tornou rei e Ladainha de São José. Salmo anterior: Salmo 88. Próximo salmo: Salmo 90.
Perguntas sobre Salmo 89
Qual é o tema do Salmo 89?
Como o Salmo 89 se cumpre em Jesus?
Quando o Salmo 89 é rezado na Missa?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.