O Salmo 90 é uma meditação sobre o tempo. Contrapõe a eternidade de Deus, que existe antes das montanhas, à fragilidade humana, que passa como a erva do campo. Daí nasce o pedido mais conhecido do salmo: ensina-nos a contar os nossos dias, para que tenhamos um coração sábio. Termina pedindo que Deus sacie seu povo com seu amor e confirme a obra de suas mãos.
Contexto do Salmo 90
Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 89. O título o chama de oração de Moisés, homem de Deus. É o único salmo atribuído a Moisés e abre o quarto livro do Saltério (Salmos 90 a 106). Neste salmo o título faz parte do versículo 1. Os estudiosos discutem a autoria e a data; a atribuição a Moisés liga o salmo à experiência do deserto, quando uma geração inteira morreu antes de entrar na terra prometida (Nm 14,26 a 35).
O gênero mistura reflexão sapiencial e súplica coletiva. A Igreja o usa como salmo responsorial em alguns domingos do Tempo Comum e o reza também na Liturgia das Horas.
Explicação do Salmo 90
Versículos 1 e 2: Deus, nosso refúgio desde sempre
O salmo começa com uma confissão de fé: Senhor, tu foste o nosso refúgio de geração em geração. Antes que as montanhas nascessem e que a terra e o mundo fossem gerados, desde sempre e para sempre tu és Deus. As montanhas, que para nós parecem eternas, são recém-nascidas diante de Deus. Ele não tem começo nem fim.
Versículos 3 a 6: o homem que volta ao pó
Em contraste, o homem: tu fazes o homem voltar ao pó, dizendo: voltai, filhos de Adão. É um eco de Gênesis: tu és pó e ao pó voltarás (Gn 3,19). Para Deus, mil anos são como o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite, isto é, um turno de poucas horas. A Segunda Carta de Pedro retoma esta ideia para explicar a paciência de Deus (2Pd 3,8).
Os homens são levados como por uma enxurrada, são como um sono, como a erva que de manhã brota e floresce e à tarde murcha e seca. A imagem era muito concreta numa terra em que o vento quente do deserto podia secar a vegetação num só dia.
Versículos 7 a 12: a ira de Deus e a sabedoria
O salmo liga a brevidade da vida ao pecado: somos consumidos pela tua ira; puseste nossas culpas diante de ti, nossos pecados ocultos à luz da tua face. Nossos dias passam e nossos anos acabam como um suspiro. A duração da vida é de setenta anos, oitenta para os mais fortes, e a maior parte é fadiga e sofrimento; passam depressa, e nós voamos.
O orante pergunta quem conhece a força da ira de Deus. E chega ao pedido central: ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos um coração sábio. Contar os dias não é fazer contas de idade, mas tomar consciência de que a vida é limitada e preciosa, e vivê-la com sabedoria diante de Deus.
Versículos 13 a 17: sacia-nos com o teu amor
O tom muda para a súplica: volta, Senhor! Até quando? Tem compaixão dos teus servos. Sacia-nos desde a manhã com o teu amor, e exultaremos de alegria todos os nossos dias. Alegra-nos tantos dias quantos foram os de aflição, tantos anos quantos vimos a desgraça.
O pedido final é bonito: que a tua obra se manifeste aos teus servos, e o teu esplendor aos seus filhos. Que a bondade do Senhor nosso Deus esteja sobre nós; confirma a obra das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos. A vida é breve, mas o trabalho feito com Deus não é em vão.
O que o Salmo 90 ensina para a fé católica?
O salmo ensina a verdade sobre a condição humana: somos criaturas, frágeis e mortais, e o pecado marcou nossa existência. A fé católica reconhece a morte como consequência do pecado (Rm 5,12) e, ao mesmo tempo, anuncia que Cristo a venceu. O que no salmo é só pedido, sacia-nos com o teu amor, ganha em Jesus uma resposta definitiva: a vida eterna.
A Quarta-feira de Cinzas retoma a mesma verdade do versículo 3, quando a Igreja lembra que somos pó. Não para entristecer, mas para converter e dar valor ao tempo. O Catecismo diz que os salmos refletem as situações humanas vividas pelo salmista (CIC n. 2588). Poucas situações são tão universais quanto a passagem do tempo.
O pedido de um coração sábio está ligado ao dom da sabedoria. E o desejo de que Deus confirme a obra das nossas mãos fundamenta a espiritualidade do trabalho: o que fazemos em Deus participa da sua obra e não se perde.
Reflexão para hoje
Vivemos como se o tempo não acabasse, adiando reconciliações, conversas, a oração, a confissão. O Salmo 90 nos chama à realidade com serenidade: a vida passa depressa. Contar os dias é perguntar o que realmente importa e não desperdiçar o tempo com o que não vale a pena.
Ele fala especialmente aos idosos e a quem já perdeu alguém querido. Os setenta ou oitenta anos que o salmo menciona se tornam concretos quando olhamos nossos pais e avós. Rezar este salmo ajuda a acolher a velhice e o luto com fé, sabendo que Deus foi nosso refúgio de geração em geração.
E o versículo 14 é uma ótima oração para começar o dia: sacia-nos desde a manhã com o teu amor. Antes do celular, das notícias e das tarefas, pedir a Deus que encha o coração. Assim o trabalho do dia, por mais simples, pode ser oferecido para que ele confirme a obra das nossas mãos.
Para rezar com o Salmo 90
- Se eu contasse os meus dias, o que mudaria na forma como uso o meu tempo?
- Que reconciliação ou decisão eu tenho adiado como se o tempo não acabasse?
- Ofereço a Deus o trabalho das minhas mãos a cada dia?
Sugestão de oração:
Senhor, tu és o nosso refúgio de geração em geração. Ensina-me a contar os meus dias, para que eu tenha um coração sábio. Sacia-me desde a manhã com o teu amor e confirma a obra das minhas mãos. Que o pouco tempo que me dás seja vivido para ti. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588; Missal Romano.
Leia também: O que a Igreja ensina sobre a morte e Como viver o luto cristão. Salmo anterior: Salmo 89. Próximo salmo: Salmo 91.
Perguntas sobre Salmo 90
O que significa ensina-nos a contar os nossos dias?
Quem escreveu o Salmo 90?
O que significa mil anos são como um dia para Deus?
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