O Salmo 82 mostra Deus como juiz no meio de uma assembleia, julgando aqueles que deveriam fazer justiça e não fazem. Ele exige que defendam o fraco, o órfão e o pobre, e anuncia que, apesar de serem chamados deuses, morrerão como qualquer homem. É um dos textos mais fortes da Bíblia sobre justiça social.
Contexto do Salmo 82
Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 81. O título diz apenas salmo de Asaf, segundo a tradição, e faz parte do versículo 1. Pertence à coleção de Asaf, no terceiro livro do Saltério.
O gênero é próximo dos oráculos proféticos: uma cena de tribunal em que Deus acusa e sentencia. A grande questão é saber quem são os deuses julgados. Há duas leituras principais. Uma vê aqui os seres celestes ou os deuses das nações, imaginados como governantes dos povos sob o domínio do Deus de Israel. Outra, muito presente na tradição judaica e retomada por Jesus, vê os juízes e governantes humanos, que exercem em nome de Deus a tarefa de julgar (Dt 1,17; 2Cr 19,6). Os estudiosos continuam discutindo; as duas leituras levam à mesma lição sobre a justiça.
Explicação do Salmo 82
Versículo 1: Deus no meio da assembleia
Deus se levanta na assembleia divina e julga no meio dos deuses. A palavra hebraica elohim pode significar Deus, deuses ou seres poderosos, e às vezes juízes. A cena é solene: o único Deus verdadeiro preside o tribunal e os que deveriam julgar passam a ser julgados.
Versículos 2 a 4: a acusação
Deus pergunta: até quando julgareis injustamente e favorecereis os ímpios? A acusação é dupla: sentenças injustas e favorecimento dos poderosos e culpados.
Em seguida vem o que deveriam fazer: proteger o fraco e o órfão, fazer justiça ao humilde e ao necessitado, libertar o fraco e o pobre e livrá-los da mão dos ímpios. Na Bíblia, o órfão, a viúva, o pobre e o estrangeiro são os que não têm quem os defenda (Dt 10,18; Is 1,17). A medida de um juiz, ou de um governo, é como trata essas pessoas.
Versículo 5: os fundamentos abalados
Os juízes não sabem e não entendem; andam nas trevas. Por isso vacilam todos os fundamentos da terra. A injustiça não é um detalhe: ela abala a ordem do mundo. Quando a justiça falha, a própria criação parece sair do lugar.
Versículos 6 e 7: vós sois deuses, mas morrereis
Deus diz: eu declarei que vós sois deuses, todos filhos do Altíssimo. Mas morrereis como qualquer homem, caireis como qualquer príncipe. Receber a autoridade de julgar era uma dignidade quase divina, mas não torna ninguém imortal nem acima da lei de Deus. O título não protege quem trai a missão.
Jesus cita esta frase numa discussão com os judeus que o acusavam de blasfêmia por se dizer Filho de Deus. Ele argumenta: se a Escritura chama deuses aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida, por que acusam de blasfêmia aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo (Jo 10,34 a 36)? Jesus usa o salmo de modo rabínico, do menor para o maior, mostrando que seu título de Filho tem fundamento ainda maior.
Versículo 8: levanta-te, ó Deus
O salmo termina com uma súplica: levanta-te, ó Deus, julga a terra, porque todas as nações te pertencem. Diante da falência dos juízes, o povo apela ao único Juiz justo. É o desejo de que a justiça de Deus se estenda a todos os povos.
O que o Salmo 82 ensina para a fé católica?
O salmo ensina que toda autoridade vem de Deus e será julgada por ele (Rm 13,1; Sb 6,1 a 8). Quem governa, julga ou tem poder sobre outros é servidor, não dono. A Doutrina Social da Igreja retoma esse ensino quando fala da opção preferencial pelos pobres e do bem comum como finalidade da autoridade.
Na leitura cristã, a frase vós sois deuses ganha também outro eco: pela graça, somos chamados a participar da natureza divina (2Pd 1,4) e somos de fato filhos de Deus (1Jo 3,1). Mas isso não é motivo de orgulho, e sim de responsabilidade: filhos do Altíssimo devem agir como o Pai, que defende o pobre.
O versículo final, que pede a Deus que julgue a terra, prepara a esperança no juízo de Cristo, que virá julgar os vivos e os mortos, como professamos no Credo. O Catecismo lembra que nos salmos o orante se vê diante de inimigos e tentações, mas confia em Deus e se entrega à sua vontade (CIC n. 2589). Aqui essa confiança se volta para o Deus que faz justiça.
Reflexão para hoje
Nem todos somos juízes ou governantes, mas todos temos alguma autoridade: pais sobre filhos, chefes sobre funcionários, professores sobre alunos, quem decide algo numa comunidade. O salmo pergunta a cada um: você usa o seu poder para defender o mais fraco ou para favorecer quem já é forte?
Também ajuda a rezar pelas autoridades do país e da cidade, e a votar com consciência. A justiça com os pobres não é tema de partido; é critério bíblico. E quem trabalha no sistema de justiça, na política ou na administração pública encontra aqui um exame de consciência exigente.
Para rezar com o Salmo 82
- Em que lugares eu tenho autoridade, e como a estou usando?
- Quem são hoje, perto de mim, o fraco e o órfão que precisam ser defendidos?
- Rezo pelas autoridades e pela justiça no meu país?
Sugestão de oração:
Deus justo, juiz de toda a terra, levanta-te e defende os pobres e os que não têm voz. Converte o coração de quem governa e de quem julga. E a mim, que me fizeste teu filho, dá a coragem de usar o pouco poder que tenho para servir os mais fracos. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2589.
Leia também: A virtude da justiça. Salmo anterior: Salmo 81. Próximo salmo: Salmo 83.
Perguntas sobre Salmo 82
Quem são os deuses do Salmo 82?
Por que Jesus citou o Salmo 82?
Qual é a mensagem do Salmo 82 para hoje?
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