O Salmo 81 começa como um canto alegre de festa, com instrumentos e trombeta, e logo se transforma numa palavra do próprio Deus ao seu povo. O Senhor recorda a libertação do Egito, pede fidelidade e lamenta que Israel não o escute. Promete alimentar o povo com o melhor trigo e com mel da rocha.
Contexto do Salmo 81
Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 80. O título o destina ao mestre de canto, com uma indicação musical (sobre a guitit, talvez um instrumento ou uma melodia) e o atribui a Asaf, segundo a tradição. A Bíblia da CNBB conta o título como versículo 1.
O salmo é litúrgico: um hino de festa seguido de um oráculo profético, em que um sacerdote ou profeta fala em nome de Deus. O versículo 4 fala da lua nova e da lua cheia, no dia da festa. Muitos estudiosos pensam na Festa das Tendas, celebrada na lua cheia do sétimo mês, ou nas festas do início desse mês; outros pensam na Páscoa. O texto não precisa qual é, e o debate continua.
Explicação do Salmo 81
Versículos 2 a 6a: o convite à festa
O salmo abre com um convite entusiasmado: gritem de alegria a Deus, nossa força; aclamem o Deus de Jacó. Toquem o tamborim, a cítara e a harpa. Toquem a trombeta, o shofar de chifre de carneiro, na lua nova e na lua cheia, no dia da nossa festa.
O motivo é dado logo: é uma lei para Israel, um preceito do Deus de Jacó, estabelecido para José quando saiu contra a terra do Egito. A festa não é apenas alegria humana; é obediência e memória. Israel celebra porque Deus mandou recordar o que ele fez.
Versículos 6b a 8: a voz que liberta
De repente alguém diz: ouço uma linguagem que eu não conhecia. É a introdução ao oráculo. A partir daqui é Deus quem fala.
Ele recorda: livrei teus ombros do fardo, tuas mãos deixaram o cesto de carga. É uma alusão aos trabalhos forçados no Egito (Ex 1,11 a 14). Na angústia clamaste e eu te salvei; respondi-te escondido na nuvem do trovão, como no Sinai; e te pus à prova junto às águas de Meriba, onde o povo murmurou por falta de água (Ex 17,1 a 7).
Versículos 9 a 11: escuta, meu povo
Deus faz um apelo: escuta, meu povo, eu te advirto; Israel, se tu me escutasses! O verbo escutar é o centro do salmo e lembra o grande mandamento: escuta, Israel (Dt 6,4).
Vem então o resumo da aliança, quase com as palavras do Decálogo: que não haja em ti deus estrangeiro, não adores um deus estranho, porque eu sou o Senhor teu Deus, que te fiz subir da terra do Egito (Ex 20,2 a 3). E uma promessa cheia de ternura: abre bem a boca, e eu a encherei. Deus quer saciar o seu povo.
Versículos 12 a 13: o povo que não quis
Mas o lamento é triste: meu povo não escutou a minha voz, Israel não me quis. Então Deus os deixou seguir a dureza do coração, e andaram conforme seus próprios planos.
É uma forma de castigo muito séria: Deus respeita a liberdade e permite que o povo colha os frutos das próprias escolhas. São Paulo usa uma ideia parecida quando diz que Deus entregou os homens aos desejos do seu coração (Rm 1,24).
Versículos 14 a 17: se o meu povo me escutasse
O final é um suspiro de Deus: ah, se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos! Num instante eu humilharia seus inimigos. Os que odeiam o Senhor se curvariam diante dele. E o povo seria alimentado com a flor do trigo e saciado com mel tirado da rocha.
A imagem do mel da rocha lembra a água que saiu da pedra no deserto e a terra que mana leite e mel (Dt 32,13). Deus não quer só livrar, quer dar abundância. O que impede é o coração fechado.
O que o Salmo 81 ensina para a fé católica?
O salmo une liturgia e escuta. A festa só é verdadeira quando o povo escuta a voz de Deus. A Igreja vive isso em cada Missa: antes de receber o pão, escutamos a Palavra. A Constituição Sacrosanctum Concilium lembra que Cristo está presente na sua palavra quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja (SC 7).
A promessa de alimentar o povo com a flor do trigo foi lida pela tradição cristã como figura da Eucaristia, em que Deus sacia seu povo com o pão do céu. O Catecismo diz que os salmos recordam as maravilhas de Deus no passado e se estendem para o futuro, na espera do Messias (CIC n. 2586). Este salmo faz exatamente isso: lembra o Êxodo e abre o desejo de uma saciedade maior.
Também ensina o primeiro mandamento: não ter outros deuses. Os ídolos de hoje são diferentes dos de Canaã, mas continuam disputando o coração.
Reflexão para hoje
A frase ah, se o meu povo me escutasse revela algo do coração de Deus. Ele não aparece como um juiz frio, mas como alguém que tem desejo de ser ouvido e sofre quando é ignorado. Na nossa oração, muitas vezes falamos muito e escutamos pouco.
O salmo também ajuda a viver o domingo. Ir à Missa pode virar só um costume, como a festa de Israel podia virar só barulho de trombetas. O salmo pede mais: participar escutando, deixando a Palavra mexer com as escolhas da semana.
E há uma promessa para quem se sente vazio: abre bem a boca e eu a encherei. Às vezes tentamos encher a vida com outras coisas, trabalho, compras, telas. Deus diz que quer saciar. É preciso abrir espaço para ele.
Para rezar com o Salmo 81
- Na minha oração, eu reservo tempo para escutar a Deus?
- Que deus estranho disputa hoje o primeiro lugar no meu coração?
- Como posso participar da Missa de domingo com mais atenção à Palavra?
Sugestão de oração:
Senhor, que me libertaste dos meus fardos, abre os meus ouvidos para escutar a tua voz. Não permitas que eu siga a dureza do meu coração. Afasta de mim os ídolos e enche a minha vida com a flor do trigo e o mel da tua palavra. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2586; Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 7.
Leia também: A Liturgia da Palavra na Missa. Salmo anterior: Salmo 80. Próximo salmo: Salmo 82.
Perguntas sobre Salmo 81
Qual é a mensagem principal do Salmo 81?
De que festa fala o Salmo 81?
O que significa o mel da rocha no Salmo 81?
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