O Salmo 83 é uma súplica do povo ameaçado por uma aliança de nações que quer apagar Israel da memória. O orante pede que Deus não fique calado, lembra suas vitórias antigas no tempo dos Juízes e pede que os inimigos sejam derrotados. O final revela a meta: que reconheçam que só o Senhor é o Altíssimo sobre toda a terra.
Contexto do Salmo 83
Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 82. O título o chama de cântico e salmo de Asaf, segundo a tradição. É o último da coleção de Asaf, no terceiro livro do Saltério. A Bíblia da CNBB conta o título como versículo 1.
O gênero é a súplica coletiva diante de uma ameaça militar, com fortes pedidos contra os inimigos. A lista de povos não corresponde a nenhuma guerra conhecida em que todos tenham se unido. Por isso muitos estudiosos pensam que o salmo reúne, de forma simbólica, os inimigos históricos de Israel ao redor do país. A datação é discutida.
Explicação do Salmo 83
Versículos 2 a 5: o silêncio de Deus e o plano dos inimigos
O salmo começa com um pedido urgente: ó Deus, não fiques em silêncio, não te cales, não fiques inerte. Os inimigos fazem tumulto e os que odeiam a Deus levantam a cabeça. Tramam planos astutos contra o povo e conspiram contra os protegidos de Deus.
O objetivo deles é dito com clareza: vamos destruí-los como nação, e que o nome de Israel não seja mais lembrado. É uma ameaça de extermínio. O salmista entende que atacar o povo é atacar o próprio Deus: eles se unem contra ti.
Versículos 6 a 9: a lista de nações
Segue a lista dos aliados: as tendas de Edom e os ismaelitas, Moab e os agarenos, Gebal, Amon e Amalec, a Filisteia com os habitantes de Tiro. Até a Assíria se juntou a eles e deu apoio aos filhos de Ló, isto é, Moab e Amon (Gn 19,36 a 38).
São povos que cercam Israel por todos os lados: sul, leste, oeste e norte. A imagem é de um pequeno povo cercado, sem saída humana.
Versículos 10 a 13: lembrar os Juízes
O orante pede que Deus trate esses inimigos como tratou Madiã, Sísara e Jabim junto ao rio Quison, que foram destruídos em Endor e se tornaram adubo para a terra. É a vitória de Débora e Barac (Jz 4 a 5) e de Gedeão contra Madiã (Jz 7).
Também cita os chefes Oreb e Zeb, Zebá e Salmana (Jz 7,25; 8,21), que diziam: vamos tomar para nós as pastagens de Deus. Recordar essas vitórias é uma forma de oração: o Deus que salvou antes pode salvar de novo.
Versículos 14 a 19: o pedido e o seu sentido
As imagens ficam intensas: que sejam como poeira levada pelo redemoinho, como palha diante do vento; que o fogo que queima a floresta e a chama que incendeia os montes os persigam com a tempestade e os assustem com o furacão.
Mas no versículo 17 aparece algo decisivo: cobre de vergonha o seu rosto, para que busquem o teu nome, Senhor. O pedido não é só pela destruição; é que os inimigos, humilhados, procurem a Deus. O final confirma: que fiquem envergonhados e confusos, e saibam que só tu, cujo nome é Senhor, és o Altíssimo sobre toda a terra. A meta do salmo é o reconhecimento universal de Deus.
O que o Salmo 83 ensina para a fé católica?
Este é um dos salmos chamados imprecatórios, com pedidos duros contra os inimigos. A Igreja não os esconde nem os apaga da Bíblia. Eles mostram a oração de um povo ameaçado de extermínio, que não pega em armas por conta própria, mas entrega a causa a Deus. O Catecismo, ao falar dos salmos, lembra que neles o orante, que ama o Senhor, se vê às voltas com muitos inimigos e tentações, e mesmo assim confia em Deus e se entrega à sua vontade (CIC n. 2589).
A leitura cristã dá um passo além. Jesus nos manda amar os inimigos e rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44). Por isso o cristão reza este salmo contra os verdadeiros inimigos do povo de Deus: o pecado, o mal e tudo o que quer apagar o nome de Deus do mundo. E guarda a intenção do versículo 17: que todos, até os adversários, busquem o nome do Senhor. São Paulo ensina que não devemos nos vingar, mas deixar o juízo a Deus e vencer o mal com o bem (Rm 12,19 a 21).
O salmo também ensina que Deus não abandona o seu povo. A Igreja, ao longo da história, viveu muitas vezes cercada, e confiou na promessa de Cristo de que as forças do mal não prevalecerão contra ela (Mt 16,18).
Reflexão para hoje
Há momentos em que nos sentimos cercados: problemas de todos os lados, pessoas que parecem unidas contra nós, uma doença que se soma a uma crise financeira e a um conflito familiar. O Salmo 83 dá palavras para isso: ó Deus, não fiques calado.
Ele também ensina a lembrar. O povo recorda Gedeão e Débora. Nós podemos recordar as vezes em que Deus nos tirou de situações piores. Essa memória sustenta a esperança.
E o salmo nos educa a querer a conversão do outro, não sua ruína. É honesto sentir raiva de quem nos faz mal; o salmo não esconde isso. Mas o cristão leva essa raiva a Deus e pede que, um dia, até quem nos feriu encontre o nome do Senhor.
Para rezar com o Salmo 83
- Em que situação me sinto cercado e preciso pedir que Deus não fique em silêncio?
- Que vitórias de Deus na minha história posso recordar hoje?
- Consigo rezar pela conversão de quem me fez mal?
Sugestão de oração:
Senhor, Altíssimo sobre toda a terra, não fiques em silêncio quando eu me sinto cercado. Lembra as tuas vitórias e salva o teu povo. Tira do meu coração o desejo de vingança e dá-me a graça de rezar até pelos que me fazem mal, para que todos busquem o teu nome. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2589.
Perguntas sobre Salmo 83
Sobre o que fala o Salmo 83?
Como rezar o Salmo 83 se Jesus mandou amar os inimigos?
Quem são Oreb, Zeb, Zebá e Salmana no Salmo 83?
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