O Salmo 78 é um grande poema sobre a história de Israel, do Egito até a escolha de Davi. Ele recorda as maravilhas de Deus e, ao mesmo tempo, as infidelidades do povo, para que as novas gerações aprendam a confiar no Senhor e não repitam os erros dos pais. É o segundo salmo mais longo do Saltério.
Contexto do Salmo 78
Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 77. O título o chama de poema didático (em hebraico, maskil) e o atribui a Asaf, segundo a tradição. Pertence à coleção de Asaf, no terceiro livro do Saltério.
O gênero é o de salmo histórico e sapiencial: conta a história como lição. Outros salmos fazem algo parecido, como os Salmos 105 e 106. O texto não traz data. Pela forma como critica as tribos do norte (Efraim) e exalta Judá, Sião e Davi, muitos estudiosos o situam em Jerusalém, no tempo da monarquia, mas a datação é discutida.
Explicação do Salmo 78
São 72 versículos. Para facilitar, seguimos blocos temáticos, com a numeração aproximada da Bíblia da CNBB.
Versículos 1 a 8: contar às novas gerações
O salmista pede que o povo escute seu ensinamento: vai abrir a boca em parábolas e falar dos mistérios do passado, aquilo que os pais contaram. Mateus cita este versículo para explicar por que Jesus ensinava em parábolas (Mt 13,35).
O objetivo é claro: não esconder dos filhos as obras do Senhor, mas contá-las à geração seguinte, para que ponham sua confiança em Deus, não esqueçam seus feitos e guardem seus mandamentos. E para que não sejam como os pais, geração rebelde, de coração inconstante. A fé se transmite de pais para filhos, contando o que Deus fez.
Versículos 9 a 16: o esquecimento e as maravilhas do Egito
Os filhos de Efraim, armados de arco, recuaram no dia da batalha. Não guardaram a aliança e esqueceram as maravilhas que Deus lhes mostrou. Não sabemos a que derrota o versículo 9 se refere; ele funciona como exemplo de um povo que tinha tudo para vencer e falhou por falta de fidelidade.
Em seguida, o salmo lembra os prodígios: no Egito, nos campos de Tânis, Deus fez maravilhas; dividiu o mar e fez o povo passar; guiou-o de dia com a nuvem e de noite com a luz do fogo; partiu rochas no deserto e deu água abundante (Ex 13 a 17).
Versículos 17 a 31: o maná e as codornizes
Mesmo assim, o povo continuou pecando e pôs Deus à prova, exigindo comida. Chegaram a perguntar se Deus seria capaz de preparar uma mesa no deserto. A dúvida não era sobre a existência de Deus, mas sobre o seu poder e o seu cuidado.
Deus respondeu com generosidade: abriu as portas do céu e fez chover o maná, deu-lhes o trigo do céu. Cada um comeu o pão dos fortes, que a tradição grega e latina traduziu como pão dos anjos. Também mandou codornizes em quantidade. Mas, quando a comida ainda estava na boca, veio o castigo sobre os mais robustos (Nm 11,31 a 34). O pecado não era ter fome, mas a cobiça e a desconfiança.
Jesus retoma esta passagem no discurso do pão da vida. A multidão lembra que os pais comeram o maná, e Jesus responde que o verdadeiro pão do céu é ele mesmo, dado pelo Pai (Jo 6,31 a 35).
Versículos 32 a 39: a conversão de fachada e a misericórdia
Apesar de tudo, pecaram ainda. Quando Deus os castigava, procuravam-no, lembravam que ele era sua rocha e seu redentor. Mas o salmo é sincero: era só com a boca; o coração não era firme, e não foram fiéis à aliança.
Então vem um dos versículos mais bonitos do salmo: Deus, sendo compassivo, perdoava a culpa e não os destruía. Muitas vezes conteve a ira, lembrando-se de que eram carne, um sopro que passa e não volta. A misericórdia de Deus leva em conta a fragilidade humana.
Versículos 40 a 55: as pragas e a entrada na terra
Quantas vezes se revoltaram no deserto! Esqueceram a mão de Deus no dia em que os libertou do opressor. O salmo enumera sinais do Egito: rios transformados em sangue, moscas, rãs, gafanhotos, granizo, a morte dos rebanhos e, por fim, a morte dos primogênitos. A lista não segue exatamente a ordem do Êxodo; é uma recordação poética.
Depois Deus fez sair seu povo como ovelhas, guiou-o como rebanho no deserto, com segurança, enquanto o mar cobria os inimigos. Levou-o até sua terra santa, ao monte que sua direita conquistou, e repartiu a herança entre as tribos.
Versículos 56 a 64: a infidelidade na terra e a perda de Silo
Já na terra, o povo voltou a tentar a Deus: como um arco que falha, desviou-se. Ofenderam o Senhor com os lugares altos e os ídolos. Então Deus abandonou o santuário de Silo e entregou sua força e sua glória ao inimigo. É uma alusão à captura da arca da aliança pelos filisteus (1Sm 4). Os jovens caíram, os sacerdotes morreram pela espada e suas viúvas nem puderam chorar.
Versículos 65 a 72: a escolha de Sião e de Davi
Numa imagem ousada, o Senhor desperta como quem sai do sono e derrota os adversários. Rejeitou a tenda de José e não escolheu a tribo de Efraim; escolheu a tribo de Judá e o monte Sião, que ama, e ali construiu seu santuário.
O salmo termina com Davi: Deus escolheu seu servo e o tirou dos currais de ovelhas, para apascentar Jacó, seu povo. Davi os apascentou com coração íntegro e os guiou com mão hábil. A longa história de infidelidade desemboca num pastor escolhido por Deus.
O que o Salmo 78 ensina para a fé católica?
O salmo ensina que a fé é memória transmitida. O Catecismo lembra que os salmos são o espelho das maravilhas de Deus na história do seu povo (CIC n. 2588). Contar essas maravilhas aos filhos é parte essencial da vida cristã, em casa e na catequese.
São Paulo lê os fatos do deserto como advertência para os cristãos: eles comeram o mesmo alimento espiritual e beberam da rocha, que era Cristo, e mesmo assim muitos caíram; isso foi escrito para nossa instrução (1Cor 10,1 a 11). O maná é figura da Eucaristia, o verdadeiro pão do céu (Jo 6).
A figura de Davi pastor aponta para Jesus, o Bom Pastor (Jo 10,11), filho de Davi, que guia o povo com coração inteiro. E o fio que atravessa todo o salmo é a misericórdia: Deus perdoa porque conhece nossa fraqueza.
Reflexão para hoje
O Salmo 78 é, no fundo, um convite a não ter memória curta. É fácil lembrar de Deus na crise e esquecê-lo quando as coisas melhoram. Também é fácil prometer muito com a boca e manter o coração longe. O salmo descreve o povo de Israel, mas descreve também a nós.
Ele fala muito às famílias. Nossos filhos e netos vão conhecer a fé, em boa parte, pelo que contarmos e vivermos. Contar como Deus agiu na história da família, rezar juntos, levar as crianças à Missa, explicar por que fazemos o que fazemos: tudo isso é cumprir o primeiro bloco do salmo.
E há consolo para quem se sente repetindo os mesmos pecados. O salmo não esconde as quedas do povo, mas mostra um Deus que muitas vezes contém a ira e perdoa, lembrando que somos um sopro. O sacramento da Confissão é o lugar onde essa misericórdia nos alcança de novo.
Para rezar com o Salmo 78
- Que maravilhas de Deus eu tenho contado às pessoas que amo?
- Em que momentos minha fé é só de boca, sem chegar ao coração?
- Recebo a Eucaristia como o verdadeiro pão do céu, ou como algo comum?
Sugestão de oração:
Senhor, que não esqueces o teu povo, dá-me memória agradecida. Que eu conte aos que vêm depois de mim as tuas maravilhas. Perdoa minha inconstância e firma meu coração na tua aliança. Alimenta-me com o pão do céu e guia-me, Bom Pastor, com mão segura. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588.
Leia também: A Eucaristia, presença real de Cristo e Rei Davi, o pastor que se tornou rei. Salmo anterior: Salmo 77. Próximo salmo: Salmo 79.
Perguntas sobre Salmo 78
Sobre o que fala o Salmo 78?
O que é o pão dos anjos no Salmo 78?
Por que o Salmo 78 é citado no Evangelho de Mateus?
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