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Salmo 77: a noite da dúvida e a memória de Deus

Leia Salmo 77 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 77 é a oração de alguém que atravessa uma noite de angústia e chega a perguntar se Deus esqueceu sua misericórdia. A virada acontece quando o salmista decide recordar as obras do Senhor, sobretudo a passagem pelo mar no Êxodo. É um salmo para quem sente Deus distante.

Contexto do Salmo 77

Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 76. O título o destina ao mestre de canto, menciona Iditun, nome de um dos chefes de cantores do tempo de Davi (1Cr 16,41), e o atribui a Asaf, segundo a tradição. Faz parte da coleção de Asaf, no terceiro livro do Saltério.

O gênero mistura súplica individual e hino. A primeira metade é lamento pessoal; a segunda é um canto às maravilhas de Deus na história. O salmo não indica a ocasião em que foi composto. Muitos estudiosos pensam numa crise do povo, talvez ligada ao exílio, porque o sofrimento do orante parece se confundir com o de Israel, mas isso é hipótese.

Explicação do Salmo 77

A numeração é a da Bíblia da CNBB, em que o título conta como versículo 1.

Versículos 2 a 4: um grito na noite

O salmista ergue a voz a Deus para ser ouvido. No dia da angústia procura o Senhor; de noite estende as mãos sem descanso, e sua alma recusa ser consolada. Lembrar de Deus, em vez de aliviar, faz gemer. O espírito desfalece.

A sinceridade é impressionante. A Bíblia não esconde que a oração, às vezes, não traz consolo imediato. Há noites em que rezar parece aumentar a dor, porque coloca diante de Deus aquilo que não entendemos.

Versículos 5 a 10: as perguntas difíceis

Deus mantém abertos os olhos do orante, que não consegue dormir nem falar. Ele pensa nos dias antigos, nos anos passados, e medita no coração durante a noite. Daí nascem perguntas duras: o Senhor vai rejeitar para sempre? Não voltará a ser favorável? Sua misericórdia acabou? Sua promessa falhou? Deus esqueceu de ter piedade, ou a ira fechou sua compaixão?

São seis perguntas em sequência, e todas tocam o centro da fé de Israel: a misericórdia e a fidelidade de Deus (Ex 34,6). O salmista não duvida que Deus exista; duvida, na escuridão, que Deus continue o mesmo. É a prova da fé de quem ama.

Versículos 11 a 13: a decisão de recordar

O versículo 11 é de tradução difícil. Em sentido geral, o orante reconhece que sua dor é pensar que a mão do Altíssimo mudou. Então toma uma decisão: vai recordar as obras do Senhor, lembrar suas maravilhas de outrora, meditar em todos os seus feitos.

Esta é a virada do salmo. O sofrimento não desapareceu, mas a atenção muda de direção. Em vez de girar em torno da própria dor, o salmista olha para o que Deus já fez. A memória se torna remédio para a angústia.

Versículos 14 a 16: o Deus que faz maravilhas

O tom vira louvor: o caminho de Deus é santo, e não há deus tão grande quanto o nosso Deus. Ele é o Deus que realiza prodígios e mostrou sua força entre os povos. Com seu braço resgatou o povo, os filhos de Jacó e de José. A palavra resgatar evoca a libertação do Egito.

Versículos 17 a 21: o caminho pelo mar

Em linguagem de tempestade, o salmo descreve a passagem do mar: as águas viram Deus e tremeram, os abismos se agitaram, as nuvens derramaram chuva, o trovão ressoou, os relâmpagos iluminaram o mundo e a terra estremeceu. O caminho de Deus passou pelo mar, suas veredas pelas águas profundas, e ninguém viu suas pegadas.

O final é sereno: Deus guiou seu povo como um rebanho, pela mão de Moisés e de Aarão. Depois de tanto trovão, a última imagem é a de um pastor. E a frase sobre as pegadas invisíveis é preciosa: Deus age de verdade na história, mas nem sempre deixa marcas que possamos ver. O salmo termina sem dizer que a angústia passou. Termina lembrando quem conduz.

O que o Salmo 77 ensina para a fé católica?

O salmo mostra que a dúvida e a escuridão podem fazer parte da vida de fé, e que podem ser levadas a Deus em oração. O Catecismo ensina que no Saltério a Palavra de Deus se torna oração do homem (CIC n. 2587). Deus mesmo nos dá palavras para dizer até as perguntas mais difíceis.

Ensina também o valor da memória. A fé bíblica se apoia no que Deus fez. Para Israel, o centro era o Êxodo; para os cristãos, é a Páscoa de Cristo, que a liturgia faz memória viva. Cada Missa é uma recordação eficaz das maravilhas de Deus, e por isso é também remédio para os dias escuros.

A passagem do mar foi lida pela Igreja como figura do Batismo (1Cor 10,1 a 2). O Deus que abriu caminho nas águas abriu para nós, em Cristo, a passagem da morte para a vida.

Reflexão para hoje

Quem já passou uma noite sem dormir por causa de um filho, de uma doença ou de uma dívida conhece este salmo por dentro. Há momentos em que a oração parece não chegar a lugar nenhum e surgem perguntas que dá até vergonha de fazer. O Salmo 77 mostra que essas perguntas podem ser ditas diante de Deus.

O salmo também oferece um caminho prático: recordar. Pode ser útil escrever as vezes em que Deus nos sustentou, as graças recebidas, as saídas que apareceram quando parecia não haver nenhuma. Nos dias escuros, essa lista vale mais que muitos raciocínios.

E fica a imagem das pegadas que ninguém viu. Talvez agora não percebamos a mão de Deus. Mas o povo atravessou o mar. Às vezes só depois, olhando para trás, entendemos por onde ele nos conduziu.

Para rezar com o Salmo 77

  • Que perguntas eu tenho guardado sem coragem de dizer a Deus?
  • De que maravilhas de Deus na minha vida preciso me lembrar hoje?
  • Consigo confiar que Deus age mesmo quando não vejo suas pegadas?

Sugestão de oração:

Senhor, nas minhas noites sem resposta, não deixes que eu me feche na minha dor. Faz-me recordar tudo o que já fizeste por mim. Tu abriste caminho no mar; abre também um caminho na minha vida, mesmo que eu não veja tuas pegadas. Conduz-me como pastor. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2587.

Salmo anterior: Salmo 76. Próximo salmo: Salmo 78.

Perguntas sobre Salmo 77

Sobre o que fala o Salmo 77?

É a oração de alguém angustiado que pergunta se Deus esqueceu sua misericórdia. Ele encontra esperança ao recordar as maravilhas de Deus, sobretudo a travessia do mar no Êxodo.

É pecado duvidar de Deus no sofrimento, como no Salmo 77?

O salmo mostra que as perguntas e a escuridão podem ser levadas a Deus em oração. O que ele propõe não é fingir que não há dor, mas continuar falando com Deus e recordar o que ele já fez.

O que significa que ninguém viu as pegadas de Deus?

Significa que Deus conduziu o povo pelo mar de verdade, mas de modo misterioso. Ele age na história mesmo quando não conseguimos ver claramente sua mão.

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