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Salmo 64: proteção contra a língua que fere

Leia Salmo 64 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 64 é a súplica de alguém atacado às escondidas. Seus inimigos conspiram, preparam armadilhas e usam a língua como espada e as palavras como flechas. O salmista pede a Deus proteção e anuncia que o próprio Senhor vai atirar a sua flecha e desfazer os planos dos maus. No fim, todos reconhecem a obra de Deus, e o justo se alegra.

Contexto do Salmo 64

Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 63. O título hebraico o apresenta como salmo de Davi, para o mestre de canto. A atribuição é tradicional e o título não indica nenhuma situação histórica.

É uma súplica individual, do tipo que os estudiosos chamam de lamentação, com uma parte final de confiança e ensinamento. O tema dos inimigos que atacam com palavras é frequente nos salmos e reflete uma realidade da vida em pequenas comunidades, onde a calúnia podia destruir a reputação e até levar alguém a ser condenado injustamente. Na Bíblia da CNBB o título é o versículo 1, e o texto vai do versículo 2 ao 11.

Explicação do Salmo 64

Versículos 2 e 3: o pedido de proteção

O salmista começa pedindo que Deus ouça a sua voz no lamento e guarde a sua vida do terror do inimigo. Ele pede para ser protegido da conspiração dos maus e do tumulto dos que praticam a iniquidade. O medo não vem de um ataque aberto, mas de tramas feitas às ocultas, em grupo.

Versículos 4 a 7: as armas da palavra

Aqui o salmo descreve os inimigos com imagens de guerra. Eles afiam a língua como uma espada e apontam como flechas as palavras amargas. Atiram de esconderijo contra o inocente, de repente, sem medo de ninguém. A comparação é forte e muito atual: a palavra pode ferir tanto quanto uma arma.

Os inimigos se encorajam mutuamente nos seus planos maus, combinam como esconder as armadilhas e dizem: quem nos verá? Eles imaginam crimes e se gabam de ter planejado tudo com perfeição. O versículo 7 termina com uma observação sobre o ser humano: o íntimo do homem e o seu coração são um abismo. Ninguém vê o que se passa lá dentro, exceto Deus. É justamente aí que os inimigos se enganam: acham que ninguém os vê, mas Deus vê.

A Carta de Tiago retoma esse tema ao dizer que a língua é um fogo pequeno capaz de incendiar uma grande floresta, um mal que ninguém consegue domar sozinho (Tg 3,5-8). Jesus também ensina que o mal sai do coração do homem (Mc 7,21-23).

Versículos 8 e 9: Deus vira o jogo

Então acontece a reviravolta. Deus atira contra eles a sua flecha, e de repente ficam feridos. As mesmas imagens usadas para descrever os inimigos se voltam contra eles: eles atiravam de repente; agora são atingidos de repente. A própria língua os faz tropeçar, e quem os vê balança a cabeça.

É uma ideia frequente na sabedoria bíblica: o mal acaba se voltando contra quem o planeja, como quem cava uma cova e cai nela (Sl 7,16; Pr 26,27). O salmista não pega em armas nem se vinga. Ele deixa a Deus a defesa e a justiça.

Versículos 10 e 11: todos reconhecem a obra de Deus

O efeito da intervenção divina ultrapassa o salmista. Todos os homens temem, anunciam a obra de Deus e compreendem o que ele fez. A justiça de Deus se torna ensinamento público. Por fim, o justo se alegra no Senhor e nele se refugia, e todos os retos de coração se gloriam. O salmo, que começou com medo, termina com alegria e confiança.

O que o Salmo 64 ensina para a fé católica?

O Salmo 64 ensina primeiro que a palavra tem peso moral. A Igreja considera a calúnia e a difamação faltas contra a verdade e contra a justiça, porque destroem a boa fama do próximo. O salmo dá voz a quem sofre esse tipo de ataque e lembra que Deus não ignora o que é tramado às escondidas.

Ensina também a atitude cristã diante dos inimigos: entregar a causa a Deus em vez de responder com as mesmas armas. São Paulo pede que os cristãos não se vinguem, mas deixem lugar à justiça de Deus e vençam o mal com o bem (Rm 12,19-21). O Catecismo lembra que entre os traços comuns dos salmos está a luta do fiel contra os inimigos e as tentações, vivida na confiança e na entrega à vontade de Deus (CIC n. 2589).

Na leitura cristã, o salmo também pode ser rezado pensando em Cristo, alvo de tramas e falsos testemunhos durante a Paixão (Mt 26,59-61). Por isso a Igreja o reza na Liturgia das Horas, unindo-se aos que hoje sofrem perseguição e calúnia.

Reflexão para hoje

Hoje as flechas da língua viajam mais rápido do que nunca. Um comentário maldoso em grupo de mensagens, uma fofoca no trabalho, uma acusação nas redes sociais podem ferir alguém em segundos, muitas vezes de esconderijo, atrás de uma tela. O Salmo 64 descreve com precisão esse mundo.

Quem é vítima pode encontrar no salmo um modo de rezar a dor sem ser engolido pelo ódio. Conte a Deus o que está acontecendo, peça proteção e deixe com ele a justiça. Isso não impede de buscar a verdade e os meios justos de defesa, mas tira do coração o veneno da vingança.

E o salmo também é um espelho. Quantas vezes eu afio a língua? Antes de repassar uma notícia, falar mal de alguém ausente ou responder com ironia, vale perguntar: estou usando a palavra como espada ou como remédio? A confissão é um bom lugar para entregar a Deus também os pecados da língua.

Para rezar com o Salmo 64

  • Fui ferido recentemente por palavras? Consigo entregar essa dor a Deus?
  • Em que ocasiões eu uso a língua como espada contra alguém?
  • Acredito de verdade que Deus vê o que se passa no íntimo do coração?

Sugestão de oração:

Senhor, guarda-me das palavras que ferem e das tramas feitas às escondidas. Tu conheces o abismo do coração humano. Defende a minha causa e livra-me do desejo de vingança. Purifica também a minha língua, para que eu fale sempre a verdade com amor. Em ti me refugio e me alegro. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2589.

Perguntas sobre Salmo 64

Sobre o que fala o Salmo 64?

É a súplica de quem é atacado às escondidas, com calúnias e tramas. O salmista pede proteção e anuncia que Deus vai desfazer os planos dos maus, de modo que todos reconheçam a sua obra.

Por que o Salmo 64 compara a língua a uma espada?

Porque a palavra pode ferir tanto quanto uma arma. O salmo descreve calúnias e mentiras como flechas lançadas de esconderijo, tema que a Carta de Tiago retoma ao falar do poder da língua (Tg 3,5-8).

O Salmo 64 deseja o mal aos inimigos?

O salmo anuncia que o mal se volta contra quem o pratica, mas deixa a ação a Deus. O salmista não se vinga; confia que o Senhor fará justiça, e a reação final é a alegria e o refúgio dos justos.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.