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Salmo 46: Deus é nosso refúgio e fortaleza, explicação

Leia Salmo 46 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 46 é um dos grandes cantos de confiança da Bíblia. Ele imagina o pior: montanhas que desabam no mar, águas que rugem, nações em guerra. E responde com uma certeza simples: Deus está conosco e é o nosso refúgio. No final, o próprio Deus fala e pede que paremos para reconhecer que Ele é Deus.

Contexto do Salmo 46

O Salmo 46 corresponde ao Salmo 45 na numeração litúrgica (a da Vulgata e de muitas edições da Liturgia das Horas). O título hebraico o atribui aos filhos de Coré, um grupo de cantores levitas do Templo, e traz uma indicação musical, “sobre alamot”, cujo sentido exato é discutido (talvez um registro de vozes agudas).

Pelo gênero, é um cântico de Sião, isto é, um hino que celebra Jerusalém como cidade onde Deus habita, ao lado dos Salmos 48, 76 e 87. Alguns estudiosos o ligam a uma libertação concreta da cidade, como o cerco assírio no tempo do rei Ezequias, mas o título não diz isso, e o salmo foi composto de modo a servir a qualquer época de ameaça.

Ele tem três estrofes, e duas delas terminam com o mesmo refrão: o Senhor dos exércitos está conosco, o Deus de Jacó é a nossa fortaleza.

Explicação do Salmo 46

Versículos 2 a 4: mesmo que a terra trema

O salmo abre com a frase que lhe dá fama: “Deus é nosso refúgio e nossa força” (Sl 46,2). Refúgio é o lugar onde se corre quando há perigo. Força é a proteção que resiste ao ataque. Deus é ainda um socorro sempre pronto na angústia: não chega atrasado.

Por isso, diz o salmista, não temeremos, ainda que a terra se abale e os montes caiam no fundo do mar, ainda que as águas se agitem e espumem. Para o antigo Israel, o mar revolto era imagem do caos, da desordem que ameaça a criação. O salmo descreve uma espécie de fim do mundo e mesmo assim afirma a calma de quem confia. A fé não nega o terremoto; ela sabe quem está acima dele.

Versículos 5 a 8: o rio que alegra a cidade de Deus

Ao mar furioso o salmo opõe outra água: um rio cujos braços alegram a cidade de Deus, a morada santa do Altíssimo. Jerusalém não tinha um rio de verdade, só fontes e um pequeno curso de água. A imagem é teológica: a presença de Deus é como um rio tranquilo que dá vida à cidade. A mesma imagem volta em Ezequiel 47, com a água que sai do Templo, e no fim da Bíblia, no rio de água viva que brota do trono de Deus (Ap 22,1).

Deus está no meio dela, por isso a cidade não vacila. Ele a socorre ao romper da manhã, a hora em que, na Bíblia, muitas vezes acontece a salvação depois de uma noite de perigo (pense no Mar Vermelho, Ex 14,27). As nações se agitam e os reinos tremem, mas basta Deus fazer ouvir a sua voz e a terra se derrete.

Vem então o refrão: o Senhor dos exércitos está conosco. “Senhor dos exércitos” é um título que apresenta Deus como Senhor de todas as forças do céu e da terra. “Conosco” lembra o nome Emanuel, Deus conosco (Is 7,14), que o Evangelho aplica a Jesus (Mt 1,23).

Versículos 9 a 12: parai e reconhecei

A última estrofe convida a contemplar as obras do Senhor. E que obras são essas? Ele faz cessar as guerras até os confins da terra, quebra o arco, despedaça a lança, queima os escudos no fogo. O Deus do Salmo 46 não é um deus da guerra, mas aquele que desarma os violentos. É a mesma esperança dos profetas, que anunciam espadas transformadas em arados (Is 2,4).

Então Deus mesmo toma a palavra: “Parai e reconhecei que eu sou Deus” (Sl 46,11). O verbo hebraico sugere soltar as mãos, deixar de lado. É uma ordem às nações para largarem as armas, mas também um convite a todo crente para largar a agitação e a pretensão de controlar tudo. Deus será exaltado entre os povos e sobre a terra. O salmo fecha repetindo o refrão.

O que o Salmo 46 ensina para a fé católica?

Primeiro, que a confiança em Deus não depende de circunstâncias tranquilas. O Catecismo, ao falar dos salmos, observa que eles mostram a confiança na fidelidade de Deus no meio das ameaças e dos inimigos (CIC n. 2589). O Salmo 46 é exemplo claro disso.

Segundo, a presença de Deus no meio do seu povo. Para Israel, essa presença estava ligada a Jerusalém e ao Templo. Para os cristãos, ela se cumpre em Jesus, o Deus conosco, e continua na Igreja, a cidade de Deus que não será vencida. Por isso a liturgia usa este salmo como responsorial na festa da Dedicação da Basílica de Latrão, a catedral do Papa, celebrando a Igreja como morada de Deus. A tradição cristã também viu no rio que alegra a cidade uma figura do Espírito Santo e da graça que corre pelos sacramentos.

Terceiro, a paz como obra de Deus. O salmo anuncia um Senhor que quebra armas. A Igreja reza por essa paz e a reconhece como fruto da justiça e do amor, não da força.

A Igreja reza o Salmo 46 na Liturgia das Horas. Para entender como os salmos se distribuem ao longo das semanas, veja o saltério da Liturgia das Horas.

Reflexão para hoje

Há dias em que a vida parece um terremoto: um diagnóstico, uma demissão, uma briga em casa, uma notícia que muda tudo. O Salmo 46 não promete que a terra vai parar de tremer. Ele promete outra coisa: que Deus continua sendo refúgio quando tudo treme.

O versículo mais conhecido do salmo é também um conselho prático. Parar. Muitas vezes, diante do problema, nos agitamos, falamos sem pensar, tentamos resolver tudo de uma vez. Parar diante de Deus, nem que seja por alguns minutos em silêncio, não é fugir da realidade. É lembrar quem governa a realidade. Quem reza com calma volta para o problema com outro coração.

E o salmo fala de desarmar. Também nas nossas casas há arcos e lanças: palavras afiadas, rancores guardados, silêncios que ferem. Deus quer quebrar essas armas. A confiança nele abre espaço para a paz com os outros. Se a ansiedade aperta, pode ajudar esta oração para ansiedade e paz interior.

Para rezar com o Salmo 46

  • Qual é hoje o “terremoto” da minha vida, e como eu reajo a ele?
  • Consigo reservar um momento do dia para parar e reconhecer que Deus é Deus?
  • Que “armas” eu preciso entregar a Deus para que Ele as quebre?

Sugestão de oração:

Senhor, tu és meu refúgio e minha força. Quando a terra treme debaixo dos meus pés, segura-me. Acalma a agitação do meu coração, desarma em mim toda violência e faz correr na minha vida o rio da tua paz. Que eu saiba parar e reconhecer que tu és Deus. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Liturgia das Horas.

Perguntas sobre Salmo 46

O que significa o Salmo 46?

É um canto de confiança: mesmo que a terra trema e os povos se agitem, Deus está no meio do seu povo e é refúgio seguro. O salmo termina convidando a parar e reconhecer que só Ele é Deus.

O que quer dizer “parai e reconhecei que eu sou Deus”?

É Deus quem fala no versículo 11. Ele manda as nações cessarem a guerra e pede a todos que larguem a agitação e a confiança nas próprias forças, para reconhecer quem governa a história.

Quando o Salmo 46 é rezado na Igreja?

A Igreja o reza na Liturgia das Horas e o usa como salmo responsorial na festa da Dedicação da Basílica de Latrão, por causa da imagem do rio que alegra a cidade de Deus.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.