O Salmo 45 é um canto de casamento real. O poeta celebra a beleza e a justiça do rei, descreve a rainha ao seu lado vestida de ouro e aconselha a noiva a deixar a casa paterna para se unir ao esposo. A carta aos Hebreus aplica o salmo a Cristo, e a Igreja o canta na festa da Assunção de Nossa Senhora.
Contexto do Salmo 45
Na numeração litúrgica é o Salmo 44. O título é longo: dedica o salmo ao mestre de canto, indica uma melodia chamada os lírios, atribui o texto aos filhos de Coré e o define como poema e canto de amor. É o único salmo que celebra um casamento.
Pertence ao grupo dos salmos reais, que falam do rei de Israel, descendente de Davi. Não se sabe para qual rei foi composto; a menção a Tiro levou alguns a pensar no casamento de um rei com uma princesa estrangeira, mas não há certeza. Com o tempo, sobretudo quando já não havia rei em Israel, o salmo passou a ser lido como anúncio do Messias, o rei esperado.
Explicação do Salmo 45
Versículo 2: o poeta se apresenta
Depois do título (versículo 1), o autor fala de si: o coração transborda de um belo poema, ele dedica sua obra ao rei, e sua língua é como a pena de um escriba veloz. É um prólogo raro no Saltério, em que o poeta mostra a alegria de compor.
Versículos 3 a 10: o elogio do rei
O rei é o mais belo entre os filhos dos homens, e a graça se derrama dos seus lábios; por isso Deus o abençoou para sempre. O poeta o imagina como guerreiro: espada à cintura, majestade e esplendor, avançando pela causa da verdade, da mansidão e da justiça. Suas flechas são agudas e os povos se submetem a ele.
No versículo 7 aparece uma frase surpreendente: “O teu trono, ó Deus, é eterno, para sempre” (Sl 45,7). No contexto original, segundo muitos estudiosos, o rei era chamado assim de modo hiperbólico, como representante de Deus. Mas o texto já abria espaço para uma leitura maior, como se verá. O rei ama a justiça e odeia a maldade, e por isso Deus o ungiu com óleo de alegria, acima dos seus companheiros. Suas vestes exalam mirra, aloés e cássia; nos palácios de marfim a música o alegra. Entre as damas de honra estão filhas de reis, e à sua direita está a rainha, adornada com ouro de Ofir, região famosa pelo ouro mais fino.
Versículos 11 a 16: o conselho e o cortejo da noiva
O poeta se dirige à noiva: escuta, filha, olha e inclina o teu ouvido; esquece o teu povo e a casa do teu pai. O rei deseja a tua beleza; ele é o teu senhor, inclina-te diante dele. É o passo de todo casamento: deixar a família de origem para formar uma nova (Gn 2,24). Os grandes, como a gente de Tiro, virão com presentes buscar o favor da rainha.
Segue a descrição do cortejo. A filha do rei entra toda esplêndida, com vestes bordadas de ouro. É levada ao rei com roupas coloridas, acompanhada por virgens, suas companheiras. Entre alegria e festa, elas entram no palácio do rei.
Versículos 17 e 18: os filhos e a memória
O poeta volta ao rei e anuncia uma descendência: em lugar dos teus pais virão os teus filhos, e tu os farás príncipes sobre toda a terra. E conclui: farei lembrar o teu nome de geração em geração, e os povos te louvarão para sempre.
O que o Salmo 45 ensina para a fé católica?
A carta aos Hebreus cita os versículos 7 e 8 para mostrar que o Filho é superior aos anjos: dele se diz que o seu trono, ó Deus, é eterno, e que foi ungido com óleo de alegria (Hb 1,8-9). O que no salmo era elogio ao rei se cumpre plenamente em Cristo, Filho de Deus e Messias, isto é, o Ungido. Leia Hebreus 1.
A tradição cristã leu as núpcias do rei como imagem da união de Cristo com a Igreja. São Paulo diz que Cristo amou a Igreja e se entregou por ela para apresentá-la gloriosa, sem mancha (Ef 5,25-27), e o Apocalipse fala das núpcias do Cordeiro (Ap 19,7). A noiva que deixa a casa paterna é também figura de cada pessoa que deixa o pecado para pertencer a Cristo.
Na solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a Igreja canta este salmo com o refrão sobre a rainha à direita do rei. Maria, imagem perfeita da Igreja, está junto de seu Filho na glória. O salmo ilumina também o sentido do sacramento do Matrimônio, sinal do amor de Cristo pela Igreja.
Reflexão para hoje
O Salmo 45 é cheio de beleza: perfumes, música, ouro, festa. A Bíblia não tem medo da alegria nem da beleza do amor humano. Ver um casamento como reflexo do amor de Deus ajuda os casais a cuidarem da relação com mais delicadeza: o elogio sincero, a festa partilhada, o carinho cultivado ao longo dos anos.
O conselho à noiva, esquece o teu povo e a casa do teu pai, também tem sentido prático. Casar é formar uma nova família, com prioridades próprias, sem deixar de honrar os pais. Muitos conflitos de casal nascem da dificuldade de dar esse passo.
E há uma palavra para todos, casados ou não. Escuta, filha, olha, inclina o teu ouvido: é o convite de Deus a cada alma para deixar o que a prende e se entregar a ele. Para muitos santos, essa entrega foi vivida na vida consagrada; para outros, no casamento ou no trabalho de cada dia. Em todos os casos, começa por escutar.
Para rezar com o Salmo 45
- Como estou cuidando da beleza e da alegria nas minhas relações mais próximas?
- O que Deus me pede para deixar para trás, como a noiva do salmo?
- Como posso imitar Maria, que escutou e se entregou inteiramente ao Senhor?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, rei de justiça e de mansidão, tu amaste a tua Igreja e te entregaste por ela. Ensina-me a escutar a tua voz e a deixar o que me afasta de ti. Abençoa os casais e as famílias, e por intercessão de Maria, rainha à tua direita, conduze-nos um dia à festa do teu Reino. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB).
Perguntas sobre Salmo 45
Por que o Salmo 45 é lido na festa da Assunção?
O Salmo 45 fala de Jesus?
O que significa esquece o teu povo e a casa do teu pai?
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