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Hebreus

Hebreus 1: Deus nos falou pelo Filho, explicação

Leia Hebreus 1 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O sacerdote Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão, figura de Cristo Sumo Sacerdote
Dieric Bouts, O Encontro de Abraão e Melquisedec, 1464–1467. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Hebreus 1 abre a carta com uma afirmação solene: Deus, que falou muitas vezes pelos profetas, agora nos falou de modo definitivo pelo seu Filho. Em seguida, o autor mostra, com uma série de citações do Antigo Testamento, que Jesus é superior aos anjos. É uma porta de entrada para toda a carta, que vai apresentar Cristo como o Filho eterno e o grande Sumo Sacerdote.

Contexto de Hebreus 1

A Carta aos Hebreus é um texto especial no Novo Testamento. Ela mesma se chama “palavra de exortação” (Hb 13,22), e por isso muitos a leem como uma grande homilia escrita. Não começa com saudação, como as cartas de São Paulo, e só no final ganha tom de carta.

A autoria é discutida desde a Antiguidade. Parte da tradição antiga, sobretudo no Oriente, a ligou a São Paulo, e a Igreja a recebeu entre as cartas paulinas no cânon. Mas o estilo e o vocabulário são diferentes, e já Orígenes, no século III, achava que os pensamentos eram do Apóstolo, mas a redação de outra pessoa; segundo Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica VI,25), ele concluía que só Deus sabe quem de fato a escreveu. Foram propostos nomes como Apolo e Barnabé, sem consenso. Também há debate sobre a data: muitos pensam em antes do ano 70, porque o culto do Templo parece ainda em funcionamento, mas não há certeza. O que é seguro é que se trata de Escritura inspirada.

Os destinatários parecem ser cristãos que conheciam muito bem o Antigo Testamento e o culto de Israel, talvez em boa parte vindos do judaísmo. Estavam cansados, perseguidos, tentados a desanimar. O autor quer firmá-los na fé, mostrando a grandeza de Jesus.

Explicação de Hebreus 1

Versículos 1 a 3: Deus falou pelo Filho

O autor começa contrastando dois tempos. Antes, Deus falou muitas vezes e de muitos modos aos pais, por meio dos profetas: por palavras, visões, gestos, acontecimentos. Agora, nestes últimos tempos, falou pelo Filho. A revelação de Deus não é desprezada no passado; ela chega ao seu ponto mais alto em Jesus.

Em poucas linhas, o autor diz quem é esse Filho. Ele foi constituído herdeiro de todas as coisas. Por meio dele Deus fez o universo. Ele é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, como a marca deixada por um selo. Ele sustenta tudo com a força da sua palavra. Depois de realizar a purificação dos pecados, sentou-se à direita da Majestade nas alturas.

Esse resumo já contém toda a fé cristã: a divindade do Filho, a criação, a Encarnação implícita, a obra da Redenção e a glorificação. A expressão “sentar-se à direita” vem do Salmo 110 e indica participação na autoridade e na glória de Deus. A “purificação dos pecados” anuncia o grande tema da carta: o sacrifício de Cristo como sacerdote.

Versículo 4: superior aos anjos

O Filho tornou-se tanto superior aos anjos quanto o nome que recebeu é mais excelente que o deles. Por que falar de anjos? Na tradição judaica, os anjos eram vistos como mediadores da Lei dada no Sinai (o próprio autor alude a isso em Hb 2,2). Mostrar que Jesus está acima dos anjos é mostrar que a revelação trazida por ele é maior que tudo o que veio antes.

Versículos 5 a 14: sete citações do Antigo Testamento

O autor faz agora uma espécie de colar de textos bíblicos, quase todos dos Salmos. A ideia é simples: as Escrituras dizem do Filho coisas que nunca disseram de anjo algum.

Primeiro, duas palavras de filiação. O Salmo 2,7 diz: tu és meu Filho, eu hoje te gerei. E a promessa feita a Davi sobre o seu descendente, em 2 Samuel 7,14, diz: eu serei para ele um pai, e ele será para mim um filho. Esses textos, ligados ao rei messiânico, encontram em Jesus o seu sentido pleno.

Depois, quando Deus introduz o Primogênito no mundo, manda que todos os anjos o adorem. A citação segue a antiga tradução grega do Antigo Testamento (Dt 32,43; ver também Sl 97,7). Se os anjos o adoram, ele não é um deles.

O Salmo 104,4 descreve os anjos como ventos e chamas de fogo, isto é, servidores rápidos de Deus. Ao contrário, o Salmo 45,7-8 é aplicado ao Filho: o teu trono, ó Deus, permanece para sempre, e Deus te ungiu com óleo de alegria. Aqui o Filho é chamado de Deus e recebe um reinado eterno e justo.

O Salmo 102,26-28 também é lido como palavra dirigida ao Filho: no princípio ele fundou a terra, e os céus são obra das suas mãos. Tudo envelhece como uma roupa, mas ele permanece o mesmo, e os seus anos não têm fim. O autor atribui ao Filho o que o salmo diz do Senhor criador.

Por fim, a citação mais importante para a carta: o Salmo 110,1, “Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como estrado dos teus pés” (Hb 1,13). Nenhum anjo recebeu esse convite. Os anjos, conclui o versículo 14, são espíritos encarregados de um serviço, enviados em favor dos que vão herdar a salvação. Eles servem; o Filho reina.

O que Hebreus 1 ensina para a fé católica?

O primeiro ensinamento é que Jesus é a Palavra definitiva de Deus. O Catecismo comenta exatamente Hebreus 1,1-2 e afirma que Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai; nele Deus disse tudo, e não haverá outra palavra além dessa (CIC n. 65). Por isso a Igreja ensina que não se deve esperar nenhuma nova revelação pública antes da vinda gloriosa de Cristo.

O segundo é a divindade do Filho. Hebreus 1 é um dos textos do Novo Testamento que mais claramente falam de Jesus como Deus: ele cria, sustenta, é adorado pelos anjos e é chamado de Deus no Salmo 45. Essa fé foi proclamada pelos concílios e é professada no Credo, quando dizemos que o Filho é “Deus de Deus, luz da luz”, expressão que lembra o “resplendor da glória” deste capítulo.

O terceiro é o lugar dos anjos. A Igreja crê nos anjos como criaturas espirituais a serviço de Deus e dos homens, e o versículo 14 é uma das bases dessa fé. Você pode ler mais em anjos e demônios na doutrina católica e rezar a oração ao anjo da guarda. Os anjos não competem com Cristo: eles o adoram e nos ajudam a chegar a ele.

Na liturgia, a Igreja proclama Hebreus 1,1-6 como segunda leitura na Missa do dia de Natal. Ali o Menino de Belém é apresentado como o Filho eterno por quem o mundo foi feito. Veja também a página sobre o Natal.

Reflexão para hoje

Vivemos rodeados de vozes. Notícias, opiniões, conselhos, redes sociais. Muitas vezes procuramos uma palavra nova que resolva tudo. Hebreus 1 lembra que Deus já disse a sua Palavra mais importante: Jesus. Quem quer saber como Deus é, olha para Jesus no Evangelho.

Isso traz paz. Não precisamos correr atrás de mensagens extraordinárias para ter certeza do amor de Deus. Ele já está revelado na vida, na morte e na ressurreição do Filho. Ler os Evangelhos com calma, um pouco cada dia, é escutar essa Palavra.

O capítulo também fala de um Cristo que sustenta todas as coisas. Quando a vida parece desmoronar, na doença, no desemprego, numa crise familiar, vale lembrar que o mundo não está solto. Há alguém que o segura, e ele está sentado à direita do Pai, mas não longe de nós.

Para rezar com Hebreus 1

  • Que vozes têm ocupado mais espaço na minha vida do que a Palavra de Deus?
  • Eu leio os Evangelhos procurando conhecer o rosto de Jesus?
  • Em que situação preciso confiar que Cristo sustenta tudo?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, Palavra eterna do Pai, resplendor da sua glória, eu te adoro com os anjos. Ensina-me a escutar a tua voz no meio de tantas vozes. Sustenta a minha vida como sustentas o universo, e conduz-me à herança que preparaste para nós. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 65; Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica VI,25.

Próximo capítulo: Hebreus 2.

Perguntas sobre Hebreus 1

O que significa Hebreus 1,1-2?

Significa que Deus se revelou aos poucos pelos profetas e, no fim, de modo pleno e definitivo pelo seu Filho Jesus. Cristo é a Palavra completa do Pai.

Por que Hebreus 1 compara Jesus com os anjos?

Porque a tradição judaica via os anjos como mediadores da Lei do Sinai. Mostrar que Jesus é superior aos anjos é mostrar que a revelação trazida por ele é maior que tudo o que veio antes.

Quem escreveu a Carta aos Hebreus?

Não se sabe com certeza. Parte da tradição antiga a ligou a São Paulo, mas o estilo é diferente, e já na Antiguidade se dizia que só Deus sabe quem a escreveu. A Igreja a recebe como Escritura inspirada.

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