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Hebreus

Hebreus 2: Jesus, nosso irmão e Sumo Sacerdote

Leia Hebreus 2 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O sacerdote Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão, figura de Cristo Sumo Sacerdote
Dieric Bouts, O Encontro de Abraão e Melquisedec, 1464–1467. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Hebreus 2 começa com um alerta: se o Filho é tão grande, não podemos descuidar da salvação que ele trouxe. Depois mostra que esse Filho se fez pequeno, um pouco abaixo dos anjos, para partilhar a nossa carne, morrer por todos e vencer o medo da morte. No final aparece pela primeira vez o título central da carta: Jesus, Sumo Sacerdote misericordioso e fiel.

Contexto de Hebreus 2

O capítulo 1 exaltou o Filho acima dos anjos. Agora o autor tira as consequências para a vida dos leitores e, em seguida, explica um aparente paradoxo: como pode o Filho glorioso ter sofrido e morrido? A resposta é a Encarnação. Este capítulo faz a ponte entre a glória do Filho e o seu sacerdócio, que será o grande tema dos capítulos 4 a 10.

Explicação de Hebreus 2

Versículos 1 a 4: não deixar a salvação escapar

Por isso, diz o autor, é preciso prestar mais atenção ao que ouvimos, para não sermos levados à deriva. A imagem é de um barco que, sem âncora, vai se afastando do porto sem que ninguém perceba. A fé raramente se perde de um dia para o outro; ela vai se esvaziando por descuido.

O raciocínio é do menor para o maior. A palavra transmitida por meio de anjos, isto é, a Lei do Sinai, era firme, e toda desobediência recebia a justa retribuição. Então, como escaparemos se descuidarmos de uma salvação tão grande? Essa salvação foi anunciada pelo próprio Senhor, confirmada pelos que o ouviram e testemunhada por Deus com sinais, prodígios, milagres variados e dons do Espírito Santo distribuídos conforme a sua vontade.

O versículo 3 mostra que o autor e os leitores receberam o Evangelho da geração dos apóstolos, os que ouviram o Senhor. É a cadeia da Tradição: a fé chega até nós pelo testemunho de quem conviveu com Jesus.

Versículos 5 a 9: o Salmo 8 e o Filho humilhado

O mundo futuro, de que fala a carta, não foi submetido aos anjos. O autor cita então o Salmo 8,5-7: que é o homem para que dele te lembres? Tu o fizeste por pouco tempo menor que os anjos, o coroaste de glória e honra e puseste tudo debaixo dos seus pés.

O salmo fala do ser humano em geral, da dignidade que Deus lhe deu na criação. Mas o autor observa com realismo: ainda não vemos tudo submetido ao homem. O mundo continua marcado pelo pecado, pela dor e pela morte. O que vemos, sim, é Jesus. Ele foi feito por pouco tempo menor que os anjos e agora está coroado de glória e honra por ter sofrido a morte. Pela graça de Deus, ele provou a morte em favor de todos.

Jesus realiza em si o que o salmo prometia para a humanidade. Ele é o homem verdadeiro, e nele a nossa natureza já foi elevada à glória. O caminho dele passou pela humilhação e pela cruz.

Versículos 10 a 13: irmão dos que santifica

Convinha a Deus, para quem e por quem tudo existe, levar muitos filhos à glória e tornar perfeito, pelos sofrimentos, o guia da salvação deles. A palavra grega traduzida por guia indica aquele que vai à frente e abre o caminho para os outros. “Tornar perfeito” não quer dizer que Jesus tivesse defeito moral. Na linguagem da carta, significa levar à plenitude, completar a missão, e também tem o sentido de consagrar como sacerdote.

O que santifica, Jesus, e os que são santificados, nós, vêm todos de um só, e por isso ele não se envergonha de chamá-los irmãos. O autor coloca na boca de Cristo três textos: o Salmo 22,23, anunciarei o teu nome a meus irmãos; e duas frases de Isaías 8,17-18, porei nele a minha confiança, e eis-me aqui com os filhos que Deus me deu. O Salmo 22 é o salmo que Jesus rezou na cruz; aqui é lembrada a sua parte final, de ação de graças.

Versículos 14 a 18: vencer a morte e o medo

Como os filhos têm em comum a carne e o sangue, também ele participou da mesma condição. Assim, pela morte, reduziu à impotência aquele que tinha o poder da morte, o diabo, e libertou os que, por medo da morte, estavam a vida inteira sujeitos à escravidão.

Essa frase toca algo muito humano. O medo da morte está por trás de muitas angústias, apegos e até pecados. Cristo não aboliu a morte física, mas mudou o seu sentido: ela deixou de ser a palavra final.

O autor acrescenta que Jesus não veio socorrer anjos, mas a descendência de Abraão. Por isso devia tornar-se em tudo semelhante aos irmãos, para ser um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel nas coisas que dizem respeito a Deus, a fim de expiar os pecados do povo. E conclui: porque ele mesmo sofreu ao ser provado, é capaz de socorrer os que são provados (Hb 2,18).

O que Hebreus 2 ensina para a fé católica?

Hebreus 2 é um dos grandes textos sobre a Encarnação. O Filho eterno assumiu de verdade a nossa natureza humana, com carne e sangue, e não apenas uma aparência. Isso é essencial para a fé católica: só o que foi assumido por Cristo foi salvo. Ele é verdadeiro Deus, como mostrou o capítulo 1, e verdadeiro homem, como mostra o capítulo 2.

O capítulo também mostra que a morte de Jesus foi oferecida “em favor de todos”. Ninguém está excluído do alcance da Redenção. E a vitória de Cristo sobre o diabo e sobre o medo da morte é a base da esperança cristã diante do fim da vida, como você pode ler na página sobre o que a Igreja ensina sobre a morte.

O Catecismo, ao falar da oração de Jesus, cita este capítulo e Hebreus 4,15 para dizer que Cristo assume as nossas fraquezas e se compadece delas para nos livrar (CIC n. 2602). O sacerdócio de Cristo nasce da sua solidariedade com os irmãos.

Na liturgia, Hebreus 2,14-18 é lido na festa da Apresentação do Senhor, em 2 de fevereiro, quando o Menino Jesus é levado ao Templo, feito em tudo semelhante a nós.

Reflexão para hoje

O alerta dos primeiros versículos é atual. Ninguém acorda um dia decidido a abandonar a fé. O que acontece é uma deriva lenta: a oração que vai ficando para depois, a Missa que se torna ocasional, a Bíblia esquecida na estante. Prestar atenção é escolher, todos os dias, pequenos gestos de fidelidade.

A segunda parte do capítulo consola. Jesus não se envergonha de nos chamar irmãos. Não temos um Deus distante que olha de longe o sofrimento humano. Ele passou pela dor, pela tentação e pela morte. Quando alguém enfrenta uma doença grave, perde um ente querido ou sente medo do futuro, pode rezar sabendo que Jesus entende por dentro.

E o medo da morte, que paralisa tantos, encontra resposta. Não é que o cristão não sinta medo. Mas ele sabe que a morte foi atravessada por Cristo e que do outro lado há um irmão que o espera.

Para rezar com Hebreus 2

  • Em que pontos percebo que estou à deriva na minha vida de fé?
  • Como me sinto ao saber que Jesus me chama de irmão?
  • Que medo eu preciso entregar a Cristo, vencedor da morte?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, que te fizeste nosso irmão e provaste a morte por todos, livra-me do medo que escraviza. Tu que foste provado, socorre-me nas minhas provações. Não permitas que eu me afaste de ti por descuido, e guarda-me firme na salvação que me deste. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2602.

Capítulos vizinhos: Hebreus 1 e Hebreus 3. Veja também o Salmo 8.

Perguntas sobre Hebreus 2

O que quer dizer que Jesus foi feito um pouco menor que os anjos?

Quer dizer que o Filho eterno assumiu a condição humana, frágil e mortal. Ele se humilhou na Encarnação e na cruz, e por isso foi coroado de glória.

Por que Hebreus 2 diz que Jesus foi tornado perfeito pelos sofrimentos?

Não significa que ele tivesse falhas. Na linguagem da carta, ser tornado perfeito é levar a missão à plenitude e ser consagrado como sacerdote, o que aconteceu pela sua paixão.

Como Jesus nos liberta do medo da morte?

Ao morrer e ressuscitar, Jesus venceu aquele que tinha o poder da morte. A morte continua existindo, mas deixou de ser a palavra final para quem está unido a Cristo.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.