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Salmo 38: Senhor, não me castigues na tua ira

Leia Salmo 38 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 38 é a súplica de um homem doente, que sente o corpo ferido, reconhece seus pecados e se vê abandonado por amigos e parentes. Mesmo assim, ele não se cala diante de Deus: confessa a culpa, espera no Senhor e pede que ele não demore a socorrê-lo. É um dos salmos penitenciais da tradição cristã.

Contexto do Salmo 38

Na numeração litúrgica é o Salmo 37. O título o atribui a Davi, segundo a tradição, e acrescenta uma expressão traduzida como para recordar ou em memória. Alguns estudiosos pensam que indicava o uso do salmo junto com uma oferta no Templo, mas o sentido é discutido.

É uma súplica individual de um doente, com forte tom de arrependimento. Por isso a tradição cristã o incluiu entre os sete salmos penitenciais (Sl 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143). Como outros textos antigos, o salmo associa a doença ao pecado. A Bíblia vai depois aprofundar essa relação, como veremos.

Explicação do Salmo 38

Versículos 2 a 9: o corpo e a culpa

Depois do título (versículo 1), o salmo abre com um pedido que lembra o começo do Salmo 6: “Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor” (Sl 38,2). O orante não pede para escapar de toda correção, mas para não ser tratado com cólera. Sente as flechas de Deus cravadas nele e a mão do Senhor pesando sobre ele.

Segue uma descrição impressionante da doença: não há nada são em sua carne, nada intacto nos ossos. As culpas passaram por cima da sua cabeça como uma enchente e pesam como um fardo grande demais. As feridas cheiram mal e supuram por causa da sua loucura. Anda curvado, abatido, o dia todo em luto; os rins ardem de febre; está esgotado e geme com o coração agitado. O salmista não separa o sofrimento do corpo e o peso da consciência: os dois se misturam.

Versículos 10 a 15: abandonado por todos

No meio da dor vem um ato de confiança: Senhor, diante de ti está todo o meu desejo, e o meu gemido não te é oculto. O coração palpita, as forças vão embora, até a luz dos olhos se apaga. E então a ferida mais funda: amigos e companheiros se afastam da sua chaga, os parentes ficam à distância. Os inimigos aproveitam para armar laços e falar de ruína, tramando enganos o dia todo.

A reação do orante é surpreendente. Ele se faz como surdo, que não ouve, e como mudo, que não abre a boca. Não se defende, não revida as acusações. Fica em silêncio diante dos homens.

Versículos 16 a 23: espero em ti, Senhor

O silêncio diante dos homens não é silêncio diante de Deus. É em ti, Senhor, que eu espero; tu responderás, meu Deus. Ele teme que os inimigos se alegrem com a sua queda, porque está a ponto de cair e a dor está sempre diante dele. Por isso faz a confissão central do salmo: reconhece a sua culpa e se aflige por causa do pecado.

Os inimigos, ao contrário, são fortes e numerosos, e pagam o bem com o mal, acusando-o justamente porque ele busca o bem. O salmo termina com três pedidos curtos e urgentes: não me abandones, Senhor; meu Deus, não fiques longe de mim; apressa-te em me socorrer, Senhor, minha salvação.

O que o Salmo 38 ensina para a fé católica?

O Catecismo cita este salmo ao falar do doente no Antigo Testamento: é diante de Deus que ele desabafa seu lamento pela doença, e a doença se torna caminho de conversão (CIC n. 1502). O mesmo número explica que Israel percebeu que a doença está, de modo misterioso, ligada ao pecado e ao mal. Isso não quer dizer que cada doença seja castigo por um pecado pessoal. Jesus deixou claro, diante do cego de nascença, que nem ele nem seus pais tinham pecado (Jo 9,3). A ligação é mais profunda: o sofrimento e a morte entraram no mundo com o pecado, e Cristo veio curar o homem inteiro.

A leitura cristã reconhece também traços da Paixão. Os conhecidos de Jesus ficaram à distância diante da cruz (Lc 23,49), e diante das acusações Jesus se calou como o orante que se faz de mudo (Mt 26,63; Is 53,7). Jesus não tinha pecado, mas carregou os nossos, e por isso a Igreja pode rezar com ele este salmo de penitência.

Para o cristão, o caminho deste salmo continua nos sacramentos. A confissão sincera da culpa encontra o perdão na Penitência, e o doente encontra conforto e força na Unção dos Enfermos.

Reflexão para hoje

Uma doença longa costuma revelar quem são os amigos verdadeiros. O salmista sentiu isso: as visitas rarearam, os parentes se afastaram, alguns até comentaram com maldade. Quem cuida de um doente ou está internado conhece essa solidão. O Salmo 38 dá voz a ela e lembra que Deus não se afasta quando os outros se afastam.

O salmo também mostra que é possível reconhecer erros sem cair no desespero. O orante confessa a culpa, mas não fica preso a ela: espera em Deus e pede socorro. Essa é a diferença entre o remorso que paralisa e o arrependimento que abre caminho.

Por fim, há uma lição para quem está saudável. Os amigos que ficaram à distância poderiam ter feito diferença. Visitar um doente, ligar, levar uma refeição, rezar com ele são formas concretas de não repetir o abandono descrito no salmo. O Evangelho coloca a visita ao doente entre as obras que Jesus considera feitas a ele mesmo (Mt 25,36).

Para rezar com o Salmo 38

  • Que peso de culpa ou de dor preciso apresentar a Deus com sinceridade?
  • Há algum doente perto de mim que está sendo esquecido?
  • Diante de acusações injustas, sei calar diante dos homens e falar com Deus?

Sugestão de oração:

Senhor, diante de ti está todo o meu desejo e o meu gemido não te é oculto. Reconheço as minhas faltas e te peço perdão. Cura o meu corpo e a minha alma, fica perto de mim quando os outros se afastarem e não demores em me socorrer. Lembra-te também de todos os doentes e de quem cuida deles. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.

Perguntas sobre Salmo 38

O Salmo 38 é um salmo penitencial?

Sim. Na tradição cristã ele é um dos sete salmos penitenciais, junto com os Salmos 6, 32, 51, 102, 130 e 143. Nele o orante reconhece o pecado e pede misericórdia.

O Salmo 38 diz que a doença é castigo de Deus?

O salmista associa a doença à sua culpa, como era comum no Antigo Testamento. Jesus ensina que nem toda doença vem de um pecado pessoal (Jo 9,3), e a Igreja vê no sofrimento um caminho de conversão e de união com Cristo.

Posso rezar o Salmo 38 por um doente?

Sim. Ele expressa a dor do enfermo, a solidão e a esperança em Deus. Pode ser rezado pelo doente e com ele, junto com outras orações e com os sacramentos da Igreja.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.