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Salmo 37: entrega teu caminho ao Senhor

Leia Salmo 37 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 37 é um conselho de sabedoria para quem se revolta ao ver os maus prosperarem. O mestre repete: não te irrites, confia no Senhor, faz o bem e espera. A prosperidade do ímpio é passageira, enquanto os mansos possuirão a terra. Jesus retomou essa promessa nas bem-aventuranças.

Contexto do Salmo 37

Na numeração litúrgica é o Salmo 36. O título diz apenas de Davi, atribuição tradicional, e na Bíblia da CNBB está no mesmo versículo 1 que inicia o texto. É um salmo alfabético: a cada dois versículos, aproximadamente, começa uma nova letra do alfabeto hebraico. Por isso o pensamento não avança em linha reta; ele volta aos mesmos temas, como um professor que repete a lição de vários modos.

O gênero é sapiencial, parecido com o livro dos Provérbios. Não é uma oração dirigida a Deus, mas um ensinamento dirigido ao fiel, talvez a um jovem. O problema tratado é antigo: por que os injustos parecem se dar bem? O livro de Jó e o Salmo 73 enfrentam a mesma questão.

Explicação do Salmo 37

Versículos 1 a 11: não te irrites, confia

O salmo começa com uma ordem: não te irrites por causa dos maus nem invejes os que praticam a injustiça. Eles secam depressa como o capim e murcham como a erva verde. Em vez da raiva, o mestre propõe uma sequência de atitudes: confia no Senhor e faz o bem; habita a terra e vive com fidelidade; põe tua alegria no Senhor e ele te dará o que teu coração pede.

O versículo 5 é o mais conhecido: “Entrega ao Senhor o teu caminho, confia nele, e ele agirá” (Sl 37,5). Entregar o caminho é como tirar um peso das costas e colocá-lo sobre outro. Segue um convite ao silêncio e à paciência: repousa no Senhor e espera nele, não te inflames com quem prospera por meio de intrigas. A ira, diz o versículo 8, só leva ao mal.

O bloco termina com a grande promessa: “Os mansos possuirão a terra e se deleitarão na abundância da paz” (Sl 37,11). No Antigo Testamento, a terra era a herança prometida por Deus ao seu povo. Os mansos não são os fracos ou covardes, mas os que não respondem à violência com violência e confiam a Deus a sua causa.

Versículos 12 a 22: o fim dos maus e a porção do justo

O ímpio trama contra o justo e range os dentes, mas o Senhor ri dele, porque vê chegar o seu dia. Os maus desembainham a espada e armam o arco para derrubar o pobre, mas a espada se voltará contra eles. O versículo 16 traz uma comparação sábia: vale mais o pouco do justo do que a abundância de muitos ímpios. O Senhor conhece os dias dos íntegros e a herança deles durará para sempre; nos tempos de fome eles serão saciados.

Há também uma lição sobre dinheiro: o ímpio pede emprestado e não devolve, enquanto o justo tem compaixão e dá. A justiça, na Bíblia, inclui a generosidade concreta.

Versículos 23 a 31: os passos firmes do justo

O Senhor firma os passos do homem e se agrada do seu caminho. Se ele cair, não ficará prostrado, porque o Senhor o segura pela mão. Vem então o testemunho do mestre já idoso: fui jovem e agora estou velho, e nunca vi o justo abandonado nem seus filhos mendigando pão. Este versículo precisa ser lido com cuidado. Não é uma estatística nem uma promessa de que o justo nunca será pobre; a própria Bíblia conhece justos que sofrem, como Jó. É a convicção de quem viu, ao longo da vida, que Deus não abandona os seus e que a generosidade cria redes de cuidado. O justo, continua o salmo, empresta sempre, e sua descendência é uma bênção.

Aparecem os traços interiores do justo: sua boca fala com sabedoria, sua língua diz o que é reto, a lei de Deus está no seu coração e seus passos não vacilam.

Versículos 32 a 40: espera e verás

O ímpio espreita o justo para matá-lo, mas o Senhor não o abandona nas suas mãos nem permite que seja condenado no julgamento. Daí o conselho: espera no Senhor e guarda o seu caminho. O mestre dá outro testemunho: viu o ímpio poderoso, que se espalhava como uma árvore frondosa; passou de novo e ele já não existia, procurou e não o encontrou.

Por fim, convida a observar o homem íntegro, porque há um futuro para o homem de paz. A salvação dos justos vem do Senhor, seu refúgio no tempo da angústia. Ele os ajuda e os liberta, porque nele se abrigaram.

O que o Salmo 37 ensina para a fé católica?

Jesus retomou quase literalmente o versículo 11 nas bem-aventuranças: felizes os mansos, porque possuirão a terra (Mt 5,5). Em Jesus, manso e humilde de coração (Mt 11,29), a promessa ganha um sentido mais amplo: a terra prometida é o Reino de Deus, herança que começa agora e se completa na vida eterna. Leia Mateus 5.

O salmo ensina também a confiança na Providência. O Catecismo diz que Jesus pede um abandono filial à Providência do Pai celeste, que cuida das menores necessidades dos seus filhos (CIC n. 305). E reconhece que a existência do mal é uma pergunta séria, à qual só o conjunto da fé cristã responde (CIC n. 309). O Salmo 37 não resolve o mistério, mas aponta o caminho: confiar, fazer o bem e esperar.

A Igreja lê o fim dos ímpios e a herança dos justos também à luz da vida eterna. O que no Antigo Testamento se esperava sobretudo nesta vida, o Novo Testamento revela que se cumpre plenamente depois da morte, no juízo de Deus. Por isso o cristão pode rezar este salmo mesmo quando não vê a justiça acontecer agora.

Reflexão para hoje

Quem nunca se irritou ao ver alguém desonesto ganhar uma promoção, um político corrupto escapar da Justiça ou um vizinho se gabar de levar vantagem em tudo? O Salmo 37 conhece esse sentimento e o leva a sério. Mas avisa: a raiva alimentada vira veneno. Quem vive comparando a própria vida com a dos que trapaceiam acaba perdendo a paz, e às vezes acaba imitando o que critica.

A alternativa é um programa simples: confiar, fazer o bem, esperar. Isso não significa aceitar a injustiça de braços cruzados. É possível denunciar o que está errado, defender os direitos e trabalhar por mudanças, sem deixar que o rancor tome conta do coração.

O versículo 5 pode ser rezado diante de qualquer decisão: uma mudança de emprego, a escolha de uma faculdade, um tratamento médico, uma conversa difícil com os filhos. Entregar o caminho ao Senhor é fazer a nossa parte com seriedade e deixar o resultado com Deus. Quem faz isso descobre aquilo que o mestre idoso do salmo descobriu: ao longo da vida, Deus segura pela mão quem tropeça.

Para quem luta contra a ansiedade, pode ajudar também a oração para ansiedade e paz interior.

Para rezar com o Salmo 37

  • Diante de quem ou de que situação eu me irrito e perco a paz?
  • Que caminho preciso entregar hoje ao Senhor?
  • Em que posso praticar a mansidão e a generosidade do justo descrito no salmo?

Sugestão de oração:

Senhor, quando a injustiça me revolta, acalma o meu coração. Ensina-me a confiar em ti, a fazer o bem e a esperar com paciência. Entrego-te o meu caminho, os meus projetos e as minhas preocupações. Firma os meus passos e, se eu cair, segura-me pela mão. Dá-me um coração manso como o de Jesus. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.

Perguntas sobre Salmo 37

Onde está escrito entrega o teu caminho ao Senhor?

No Salmo 37, versículo 5 (Salmo 36 na numeração litúrgica). O versículo convida a confiar em Deus e deixar com ele o resultado do que fazemos.

Os mansos possuirão a terra está no Salmo 37?

Sim, no versículo 11. Jesus retomou essa frase nas bem-aventuranças, em Mateus 5,5, ampliando a promessa da terra para o Reino de Deus.

O que o Salmo 37 diz sobre a prosperidade dos maus?

Ensina que ela é passageira, como o capim que seca, e aconselha a não se irritar nem invejar. O justo deve confiar em Deus, fazer o bem e esperar a sua justiça.

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