O Salmo 36 coloca lado a lado dois quadros. De um lado, o coração de quem não teme a Deus e planeja o mal até na cama. Do outro, o amor de Deus, que chega até os céus, sustenta homens e animais e é fonte da vida. A frase mais famosa resume o salmo: na tua luz veremos a luz.
Contexto do Salmo 36
Na numeração litúrgica é o Salmo 35. O título o dedica ao mestre de canto e o atribui a Davi, chamado aqui servo do Senhor, segundo a tradição. Não há referência a episódio histórico.
É difícil classificá-lo num só gênero. Começa como reflexão sapiencial sobre o pecador, passa a um hino ao amor de Deus e termina com uma breve súplica. Essa mistura é proposital: o salmista contempla o mal, mas não se deixa dominar por ele, porque contempla mais ainda a bondade de Deus.
Explicação do Salmo 36
Versículos 2 a 5: o coração do ímpio
Depois do título (versículo 1), o salmo descreve o pecador por dentro. O texto hebraico é difícil e as traduções variam, mas o sentido é claro: a transgressão fala no coração do ímpio como um oráculo, como se fosse uma voz que ele obedece. Não há temor de Deus diante de seus olhos. Ele se ilude a respeito de si mesmo e não reconhece a própria culpa. Suas palavras são maldade e engano; deixou de agir com sabedoria e de fazer o bem.
O versículo 5 traz um detalhe muito humano: ele planeja o mal na cama, toma um caminho que não é bom e não rejeita o mal. O pecado aqui não é um tropeço ocasional, mas um modo de vida cultivado, até nas horas de silêncio.
Versículos 6 e 7: o amor de Deus sem medida
De repente o salmista levanta os olhos. Senhor, teu amor chega até os céus, tua fidelidade até as nuvens. Tua justiça é como as montanhas mais altas, teus julgamentos como o grande abismo. Com imagens da altura e da profundidade, o salmo diz que não há lugar fora do alcance de Deus. E ele cuida de tudo: salva homens e animais. A Providência não esquece nenhuma criatura.
Versículos 8 a 10: abrigo, banquete e fonte
Três imagens descrevem o que é viver perto de Deus. Primeiro, a sombra das asas: os filhos dos homens se refugiam nela, como pintinhos sob a galinha, ou como quem se aproxima das asas dos querubins no Templo. Segundo, o banquete: eles se saciam da abundância da tua casa e bebem da torrente das tuas delícias. Terceiro, a fonte e a luz: “Pois em ti está a fonte da vida, e na tua luz veremos a luz” (Sl 36,10). Deus não é apenas quem dá a vida; ele é a fonte. E só na luz dele enxergamos as coisas como são.
Versículos 11 a 13: a súplica final
O salmo termina pedindo que Deus conserve seu amor para os que o conhecem e sua justiça para os retos de coração. O orante pede proteção concreta: que o pé do soberbo não o pise e a mão do ímpio não o expulse. A última cena é a queda dos que praticam o mal: caíram e não podem se levantar. A palavra final não é do ímpio do começo do salmo, mas de Deus.
O que o Salmo 36 ensina para a fé católica?
O versículo 10 tem uma longa história na oração cristã. O Novo Testamento chama Jesus de luz verdadeira que ilumina todo homem (Jo 1,9) e de água viva (Jo 4,10-14). Os cristãos leram aqui um anúncio de que só na luz de Cristo e do Espírito Santo o homem conhece a Deus e a si mesmo. A expressão luz da luz, que rezamos no Credo ao falar do Filho, nasce de outra reflexão, mas está em sintonia com este salmo. Veja a oração do Credo niceno-constantinopolitano.
O salmo também ensina algo sobre o pecado: ele começa no coração e cresce quando a consciência se cala e o temor de Deus desaparece. O ímpio deixou de se ver com verdade. Por isso a conversão começa por deixar que a luz de Deus ilumine o interior. O Catecismo lembra que o desejo de Deus está inscrito no coração do homem, criado por Deus e para Deus (CIC n. 27): mesmo quem se afasta continua feito para essa fonte.
Por fim, a imagem do banquete na casa de Deus lembra aos cristãos a mesa da Eucaristia, onde Deus sacia o seu povo, e o banquete definitivo do Reino.
Reflexão para hoje
O retrato do ímpio que planeja o mal na cama pode servir de exame de consciência. Em que penso quando estou sozinho, antes de dormir? Ressentimentos, planos de revanche, comparações e invejas também se cultivam nessas horas. O salmo mostra que o mal cresce quando se torna uma conversa interior que ninguém interrompe.
A resposta do salmista não é ficar obcecado com o mal, nem com o próprio nem com o dos outros. Ele levanta os olhos para o amor de Deus. Na prática, isso pode significar trocar o último pensamento da noite por uma breve oração, ou lembrar, ao acordar, que o dia começa sob a sombra das asas de Deus.
Na tua luz veremos a luz também é uma frase para os momentos de confusão. Diante de uma decisão difícil, de uma notícia que desorienta, de um conflito em casa, nem sempre enxergamos com clareza. Rezar, ler a Palavra e pedir conselho a quem tem fé é deixar a luz de Deus clarear o que, sozinhos, vemos de forma distorcida.
Para rezar com o Salmo 36
- Que pensamentos cultivo em silêncio que me afastam de Deus e dos outros?
- Onde busco minhas fontes de vida e de alegria?
- Em que decisão atual preciso pedir a luz de Deus?
Sugestão de oração:
Senhor, teu amor chega até os céus e tua fidelidade até as nuvens. Guarda-me à sombra das tuas asas e afasta do meu coração os planos do mal. Tu és a fonte da vida: sacia a minha sede e ilumina o meu caminho, porque só na tua luz eu vejo a luz. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.
Perguntas sobre Salmo 36
O que significa na tua luz veremos a luz?
Qual é o tema principal do Salmo 36?
O que é a sombra das asas no Salmo 36?
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