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Salmo 35: dize à minha alma: eu sou a tua salvação

Leia Salmo 35 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 35 é o grito de um inocente perseguido. Ele foi pago com o mal depois de fazer o bem, enfrenta falsas testemunhas e zombarias, e pede que Deus se levante para defendê-lo. É um salmo duro, com pedidos fortes contra os inimigos, mas que termina no louvor à justiça de Deus.

Contexto do Salmo 35

Na numeração litúrgica é o Salmo 34. O título, apenas de Davi, é uma atribuição tradicional e não indica nenhum episódio específico. Na Bíblia da CNBB o título está no mesmo versículo 1 que abre a oração.

É uma súplica individual, do tipo que os estudiosos chamam de lamentação do justo perseguido. Tem três partes, e cada uma termina com uma promessa de louvor (versículos 9 e 10, 18 e 28). O orante usa a linguagem do tribunal e da guerra: pede que Deus seja seu advogado e seu guerreiro. Por conter pedidos de castigo, ele está entre os salmos chamados imprecatórios, que pedem uma leitura atenta ao contexto.

Explicação do Salmo 35

Versículos 1 a 3: Deus, defensor e guerreiro

O salmo abre com dois verbos: acusa e combate. O orante pede que Deus processe quem o processa e lute contra quem luta com ele. Imagina o Senhor vestindo escudo e couraça, empunhando a lança. No meio das imagens militares aparece um pedido íntimo: “Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação” (Sl 35,3). Mais do que a vitória, ele quer ouvir de Deus uma palavra pessoal.

Versículos 4 a 10: o pedido de justiça e a primeira promessa

O salmista pede que os perseguidores sejam envergonhados e recuem, que sejam como palha levada pelo vento, com o anjo do Senhor a persegui-los num caminho escuro e escorregadio. A razão é dita claramente: sem motivo armaram uma rede e cavaram uma cova para ele. Ele pede que caiam na própria armadilha, ideia frequente na Bíblia: o mal se volta contra quem o faz. Em seguida promete alegria: todos os seus ossos dirão que ninguém é como o Senhor, que livra o fraco do mais forte e o pobre de quem o explora.

Versículos 11 a 18: a ingratidão dos que foram ajudados

Esta é a parte mais dolorosa. Testemunhas violentas o acusam do que ele nem sabe. Pagam o bem com o mal. E ele lembra: quando eles estavam doentes, ele vestiu roupa de penitência, jejuou e rezou por eles, como se chorasse um amigo, um irmão ou a própria mãe. Agora, quando é ele quem tropeça, os mesmos se alegram, se juntam contra ele e rangem os dentes. A segunda parte termina de novo em promessa: na grande assembleia ele dará graças a Deus.

Versículos 19 a 28: não te cales, Senhor

O orante pede que não se alegrem os que o odeiam sem motivo. Eles não falam de paz, inventam mentiras contra os pacíficos da terra e zombam dizendo que viram com os próprios olhos a sua queda. Ele responde: tu também viste, Senhor, não fiques calado. Pede que Deus desperte e se levante para julgar sua causa. Pede que os inimigos sejam cobertos de vergonha e que os que desejam o seu bem se alegrem. A última promessa encerra o salmo: sua língua anunciará a justiça de Deus e o louvará o dia todo.

O que o Salmo 35 ensina para a fé católica?

Jesus aplicou a si mesmo a experiência deste salmo. No discurso da Última Ceia, disse que se cumpriu a palavra escrita na Lei: odiaram-me sem motivo (Jo 15,25). A frase aparece no Salmo 35,19 e também no Salmo 69,5. Jesus é o justo perseguido por excelência, acusado por falsas testemunhas (Mc 14,56) e pago com ingratidão depois de curar e fazer o bem. O Catecismo lembra que os salmos foram rezados por Cristo e nele realizados (CIC n. 2586). Veja João 15.

E os pedidos de castigo? Eles fazem parte da oração do Antigo Testamento e mostram a dor real do perseguido. O salmista não faz justiça com as próprias mãos: entrega a causa a Deus, o único juiz justo. A Igreja não manda rezar desejando o mal a alguém. Ela lê estes versículos à luz de Cristo, que na cruz rezou pelos que o crucificavam (Lc 23,34) e mandou amar os inimigos (Mt 5,44). Na oração cristã, o inimigo a ser vencido é o mal, o pecado e a mentira, e o desejo de justiça se transforma em pedido de conversão.

O salmo também ensina que a justiça importa para Deus. Ele defende o fraco contra o forte e o pobre contra o explorador (versículo 10). A fé não é indiferente às injustiças.

Reflexão para hoje

Poucas dores são tão amargas quanto a ingratidão. O salmista rezou e jejuou pelos amigos doentes e, depois, foi alvo de zombaria. Quem já ajudou um parente, um colega ou um vizinho e depois foi traído conhece essa ferida. O Salmo 35 permite dizer isso a Deus sem filtros, com raiva inclusive.

O passo importante é este: ele não se vinga. Leva tudo para a oração e entrega o julgamento a Deus. Rezar a própria raiva é muito diferente de agir com raiva. A oração honesta abre espaço para que, com o tempo, Deus cure a ferida e torne possível o perdão, que é um caminho, não um sentimento automático.

Quem sofre calúnia ou perseguição no trabalho, nas redes ou na família pode repetir o pedido do versículo 3: dize à minha alma: eu sou a tua salvação. Às vezes a injustiça demora a ser reparada. Mas ouvir de Deus que ele está do nosso lado já muda a forma de atravessar a tempestade.

Para rezar com o Salmo 35

  • Que ingratidão ou injustiça ainda me machuca e precisa ser entregue a Deus?
  • Consigo levar minha raiva para a oração em vez de transformá-la em vingança?
  • Por quem que me feriu posso começar a rezar, mesmo com dificuldade?

Sugestão de oração:

Senhor, tu conheces as injustiças que sofri e as feridas que carrego. Sê tu o meu defensor e dize à minha alma que és a minha salvação. Livra-me do desejo de vingança, ensina-me a entregar a ti o julgamento e dá-me, no teu tempo, a graça de perdoar como Jesus perdoou. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.

Perguntas sobre Salmo 35

O Salmo 35 é um salmo de vingança?

Ele contém pedidos fortes de castigo, mas o orante não se vinga: entrega sua causa a Deus. A Igreja o lê à luz de Cristo, que rezou pelos inimigos, pedindo a derrota do mal e a conversão de quem o pratica.

Onde a Bíblia diz odiaram-me sem motivo?

No Salmo 35,19 e no Salmo 69,5. Jesus aplica essa palavra a si mesmo em João 15,25, ao falar do ódio que o mundo teve contra ele.

Posso rezar o Salmo 35 quando sou injustiçado?

Sim. Ele ajuda a levar a dor e a raiva para a oração, confiando a Deus a justiça. O cristão o reza pedindo proteção e, ao mesmo tempo, a graça de não odiar.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.