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Salmo 22: meu Deus, por que me abandonaste? Explicação

Leia Salmo 22 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 22 começa com o grito “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, que Jesus rezou na cruz. É a súplica de um justo que sofre ao extremo, zombado e cercado de inimigos, mas que não deixa de chamar Deus de “meu Deus”. Na segunda parte, a oração se transforma em louvor e anuncia que todos os povos se voltarão para o Senhor.

Contexto do Salmo 22

Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 21. O título hebraico, que na Bíblia da CNBB é o versículo 1, o atribui a Davi, segundo a tradição, e traz uma indicação musical, “sobre a corça da aurora”, provavelmente o nome de uma melodia conhecida.

É uma súplica individual que termina em ação de graças. A passagem do lamento ao louvor é típica de muitos salmos, mas aqui é especialmente forte: o salmista desce ao fundo do sofrimento e sobe até a visão de um louvor que alcança toda a terra e as gerações futuras. Não sabemos a situação histórica concreta que o originou; o texto não a menciona.

Explicação do Salmo 22

Versículos 2 e 3: o grito do abandono

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 22,2). O salmista clama de dia e de noite e não recebe resposta. Ele sente Deus distante. Mas repare: ele não diz “Deus não existe”, nem “eu desisto”. Diz “meu Deus”, duas vezes. Mesmo no escuro, continua falando com Deus. O lamento é uma forma de fé.

Versículos 4 a 6: tu és o Santo

O orante lembra quem Deus é: o Santo, que habita entre os louvores de Israel. Lembra também a história: os pais confiaram, e Deus os libertou; clamaram, e não ficaram envergonhados. Essa memória dá força para continuar pedindo.

Versículos 7 a 9: verme e não homem

A dor se torna humilhação. O salmista se sente um verme, desprezado pelo povo. Os que o veem zombam, abanam a cabeça e dizem com ironia: ele confiou no Senhor, que o Senhor o liberte. Os Evangelhos lembram exatamente esses gestos e palavras diante de Jesus crucificado (Mt 27,39-43).

Versículos 10 a 12: desde o ventre de minha mãe

Mais uma vez, a memória sustenta. Foi Deus quem o tirou do ventre materno e o fez descansar no colo da mãe. Desde o nascimento foi entregue a Deus. Por isso pede: não fiques longe, porque a angústia está perto e não há quem ajude.

Versículos 13 a 19: cercado, ferido, despojado

Aqui o sofrimento é descrito com imagens fortes. Touros de Basã, famosos pela força, o cercam. Leões abrem a boca. O corpo se desfaz como água derramada, os ossos se desconjuntam, o coração derrete como cera. A garganta seca como um caco de barro, a língua se cola ao céu da boca. Deus o colocou no pó da morte.

Cães o rodeiam, um bando de malfeitores o cerca. No versículo 17, o texto hebraico tradicional pode ser lido como “como um leão, as minhas mãos e os meus pés”, enquanto a antiga tradução grega e outras testemunhas trazem “traspassaram as minhas mãos e os meus pés”. Os estudiosos discutem a melhor leitura. A tradição cristã, seguindo a versão grega, viu aqui um anúncio da crucifixão.

Ele pode contar todos os seus ossos, enquanto os inimigos o olham. Repartem entre si as suas vestes e sorteiam a sua túnica. O Evangelho de João cita expressamente esse versículo ao narrar o que os soldados fizeram junto à cruz (Jo 19,23-24).

Versículos 20 a 22: tu, Senhor, não fiques longe

A súplica chega ao ponto mais intenso: tu, Senhor, minha força, vem depressa. Livra-me da espada, da boca do leão, dos chifres dos búfalos. No final do versículo 22, muitas traduções trazem “tu me respondeste”. É a virada do salmo: a oração foi ouvida.

Versículos 23 a 27: anunciarei o teu nome aos meus irmãos

O tom muda completamente. O salmista promete anunciar o nome de Deus aos irmãos e louvá-lo no meio da assembleia. A Carta aos Hebreus coloca essas palavras na boca de Jesus ressuscitado, que não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hb 2,11-12).

Ele convida todos os que temem o Senhor a louvá-lo, porque Deus não desprezou a miséria do pobre nem escondeu dele a sua face. Promete cumprir os seus votos, e os pobres comerão e ficarão saciados. Era costume, depois de um voto cumprido, oferecer um sacrifício de comunhão e partilhar a refeição com os necessitados.

Versículos 28 a 32: todos os povos e as gerações futuras

O horizonte se abre para o mundo inteiro. Os confins da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor; todas as famílias das nações se prostrarão diante dele, porque o reino é do Senhor. Até os que dormem no pó se inclinarão. A descendência servirá a Deus e anunciará a sua justiça a um povo que ainda vai nascer: foi ele quem fez isso.

De uma dor individual nasce um louvor universal. É algo único no Saltério: o sofrimento de um só se torna salvação e louvor para muitos.

O que o Salmo 22 ensina para a fé católica?

Jesus rezou este salmo na cruz. Marcos registra o seu grito na língua que ele falava, Eloí, Eloí, lamá sabactâni (Mc 15,34), e Mateus traz uma forma semelhante (Mt 27,46). Ao rezar o primeiro versículo, Jesus assume todo o salmo, que termina em confiança e louvor. Ele não perdeu a fé no Pai; ele carregou em si o abandono que a humanidade pecadora experimenta, para que nenhum de nós fique sozinho no sofrimento.

O Catecismo ensina que o grito do Verbo encarnado reúne todas as aflições da humanidade e todas as súplicas da história da salvação, e que o Pai as acolhe e responde na Ressurreição (CIC n. 2606).

Por isso a Igreja canta o Salmo 22 no Domingo de Ramos, como salmo responsorial depois da primeira leitura (Is 50), na Missa em que se proclama a Paixão, com o refrão do primeiro versículo. Saiba mais sobre a Semana Santa dia a dia.

O salmo também mostra que o lamento é oração legítima. Dizer a Deus “por que?” não é falta de fé, desde que se diga a ele, como “meu Deus”.

Reflexão para hoje

Há momentos em que Deus parece calado. Uma doença sem explicação, a morte de um filho, uma traição, uma depressão que não passa. Muita gente acha que nessas horas não pode rezar, ou que precisa fingir que está tudo bem. O Salmo 22 mostra o contrário: podemos levar a Deus até o sentimento de abandono.

Jesus fez isso. Ele não teve vergonha de gritar. Por isso, quando rezamos este salmo na dor, rezamos com ele, e ele reza conosco. Não estamos sozinhos no fundo do poço; o Filho de Deus já esteve lá.

E o salmo não termina no grito. Termina com uma mesa em que os pobres comem e com gerações que ainda vão nascer louvando a Deus. A nossa dor, unida à de Cristo, também pode gerar vida para outros. Muitas pessoas que passaram por grandes sofrimentos se tornaram consolo para quem passa pelo mesmo. Se você vive um luto, pode ajudar ler sobre como viver o luto cristão.

Para rezar com o Salmo 22

  • Existe alguma dor que eu tenho escondido de Deus, por achar que não posso reclamar com ele?
  • Como a memória do que Deus já fez na minha vida me ajuda nos momentos de escuridão?
  • De que modo o meu sofrimento pode se tornar consolo para outras pessoas?

Sugestão de oração:

Meu Deus, meu Deus, às vezes eu também me sinto abandonado. Mas tu és o meu Deus, desde o ventre de minha mãe. Não fiques longe de mim. Une a minha dor à de Jesus na cruz, e faz que um dia eu possa anunciar o teu nome aos meus irmãos e louvar-te no meio da assembleia. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Missal Romano (Domingo de Ramos).

Perguntas sobre Salmo 22

Por que Jesus disse “Meu Deus, por que me abandonaste?” na cruz?

Jesus rezava o início do Salmo 22, que termina em confiança e louvor. Ele assumiu a dor e o sentimento de abandono da humanidade, sem perder a fé no Pai, que respondeu com a Ressurreição.

O Salmo 22 fala da crucifixão de Jesus?

Os Evangelhos ligam vários versículos à Paixão, como a zombaria e as vestes repartidas (Jo 19,24). A Igreja lê o salmo como profecia do sofrimento e da vitória de Cristo.

Quando o Salmo 22 é rezado na Missa?

É o salmo responsorial do Domingo de Ramos, cantado depois da primeira leitura, na Missa em que se proclama a Paixão do Senhor.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.