O Salmo 114 canta em oito versículos a saída de Israel do Egito. Com imagens vivas, mostra a natureza reagindo diante de Deus: o mar foge, o Jordão volta atrás, os montes saltam como carneiros e a rocha se transforma em fonte. É um poema curto sobre a Páscoa, que a Igreja lê também como canto do Batismo e da ressurreição.
Contexto do Salmo 114
Na tradução grega dos Setenta e na Vulgata, os Salmos 114 e 115 formam um só, que é o Salmo 113 da numeração litúrgica; o nosso Salmo 114 corresponde à sua primeira parte, às vezes chamada 113A. Não há título nem indicação de autor.
É um hino de louvor que recorda a história da salvação. Faz parte do Hallel, os Salmos 113 a 118, cantados na tradição judaica nas grandes festas, sobretudo na Páscoa. O poema junta em poucas linhas três momentos: a saída do Egito com a travessia do mar (Ex 14), a passagem do Jordão na entrada da terra prometida (Js 3) e a água tirada da rocha no deserto (Ex 17; Nm 20).
Explicação do Salmo 114
Versículos 1 e 2: um povo que se torna santuário
Quando Israel saiu do Egito, a casa de Jacó deixou um povo de língua estranha. A língua estranha marca a condição de estrangeiro: no Egito, Israel vivia no meio de quem não falava a sua língua nem conhecia o seu Deus. Então Judá se tornou o santuário de Deus, e Israel o seu domínio. O salmo não fala primeiro de um templo de pedra, mas de um povo que passa a ser o lugar onde Deus habita e reina. A libertação não é só política; é para que o povo pertença a Deus.
Versículos 3 e 4: a natureza se espanta
O mar viu e fugiu, o Jordão voltou para trás. Os montes saltaram como carneiros e as colinas como cordeiros. O salmista não descreve os fatos de modo técnico; usa a linguagem da poesia, em que as criaturas reagem como pessoas. O mar e o rio, que pareciam barreiras impossíveis, abrem passagem. Os montes que saltam lembram o tremor do Sinai quando Deus desceu para fazer a aliança (Ex 19,18). Até a criação parece dançar de espanto e de alegria.
Versículos 5 e 6: perguntas com um sorriso
Depois o poeta faz perguntas diretamente ao mar, ao Jordão e aos montes: o que tens, ó mar, para fugir? E tu, Jordão, para voltar atrás? E vós, montes, para saltar como carneiros? As perguntas têm um tom quase brincalhão. O salmista sabe a resposta, mas quer que o ouvinte a descubra. É um recurso que prende a atenção e prepara o desfecho.
Versículos 7 e 8: tremei diante do Senhor
A resposta vem em forma de ordem: treme, ó terra, diante da face do Senhor, diante da face do Deus de Jacó. Só agora, no fim, o nome de Deus aparece claramente; antes ele estava escondido nos pronomes. A causa de tudo é a presença do Senhor. E ele é descrito por um prodígio: transforma a rocha em lago e a pedra dura em fonte de água. O mesmo Deus que faz o mar se afastar faz a água brotar onde não havia. Ele abre caminhos no que parecia intransponível e dá vida no que parecia estéril.
O que o Salmo 114 ensina para a fé católica?
A Igreja lê o Êxodo à luz da Páscoa de Cristo. Jesus passou deste mundo ao Pai pela morte e ressurreição, e nos leva consigo. A travessia do Mar Vermelho é proclamada todos os anos na Vigília Pascal, como figura do Batismo: pelas águas, o cristão deixa a escravidão do pecado e entra na liberdade dos filhos de Deus. Veja o significado dos símbolos do Batismo.
São Paulo diz que os israelitas foram batizados na nuvem e no mar e que bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha era Cristo (1Cor 10,1-4). Assim, a rocha que vira fonte no versículo 8 é lida pelos cristãos como imagem de Cristo, de cujo lado aberto na cruz saíram sangue e água (Jo 19,34).
O salmo também ensina que toda a criação obedece a Deus e participa da salvação. O mesmo Senhor da história é o Senhor da natureza. Na tradição cristã, este salmo ficou tão ligado à Páscoa e à passagem para a vida eterna que Dante, no canto II do Purgatório, mostra as almas que chegam cantando-o em latim, In exitu Israel de Aegypto.
Reflexão para hoje
Muitas vezes a vida nos coloca diante de um mar. Um problema familiar sem solução visível, um diagnóstico difícil, uma dependência que parece mais forte que a vontade. O Salmo 114 lembra que o mar não é a última palavra quando Deus está presente. Não sabemos de antemão como ele vai abrir caminho, mas sabemos que ele é o Deus que faz o mar fugir.
O salmo também fala das rochas da nossa vida: corações endurecidos, relações secas, situações que parecem não dar mais nada. O Deus de Jacó transforma pedra em fonte. Isso pode acontecer num casamento que esfriou, numa amizade rompida, na nossa própria oração árida. Pedir a Deus que faça brotar água da rocha é uma oração cheia de esperança.
Por fim, o versículo 2 nos recorda quem somos. Pelo Batismo, cada cristão se tornou templo de Deus. A libertação que recebemos não é para vivermos como quisermos, mas para que Deus habite e reine em nós.
Para rezar com o Salmo 114
- Qual é o mar que hoje parece fechar o meu caminho?
- Há alguma rocha na minha vida que eu preciso entregar a Deus para que se torne fonte?
- Eu vivo o meu Batismo como uma saída do Egito, deixando para trás o que me escraviza?
Sugestão de oração:
Senhor, Deus de Jacó, diante de ti o mar se abre e a rocha se torna fonte. Abre caminho onde eu não vejo saída e faze brotar água viva no que está seco em mim. Tu me libertaste pelo Batismo: habita em mim como no teu santuário e reina na minha vida. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Dante Alighieri, A Divina Comédia, Purgatório, canto II.
Perguntas sobre Salmo 114
Por que no Salmo 114 o mar foge e os montes saltam?
Como a Igreja lê o Salmo 114?
O Salmo 114 e o Salmo 115 são um só?
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