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Mateus

Mateus 23: os ais contra a hipocrisia explicados

Leia Mateus 23 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Mateus, idoso e de barba branca, recebe o Evangelho de um anjo que aponta o livro, pintura de Guercino
Guercino, São Mateus e o Anjo, 1622. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Mateus 23 é o duro discurso de Jesus contra a hipocrisia de escribas e fariseus. Ele reconhece a autoridade de quem ensina a Lei, mas critica quem diz e não faz, busca honras e cuida da aparência em vez da justiça e da misericórdia. O capítulo termina com o lamento de Jesus sobre Jerusalém, como uma galinha que quer reunir os seus pintinhos.

Contexto de Mateus 23

Depois dos debates no Templo (Mateus 22), Jesus se dirige às multidões e aos discípulos. É o fim do seu ensinamento público em Jerusalém. Para entender o capítulo, é importante lembrar que os fariseus eram um movimento religioso sério e respeitado, que queria viver a Lei no cotidiano; Jesus tinha muito em comum com eles e por isso discute com eles com tanta intensidade. Muitos estudiosos notam também que, quando Mateus escreveu, as comunidades cristãs viviam tensões com as sinagogas, o que ajuda a entender o tom do texto. A crítica não é ao povo judeu, mas a uma forma de religiosidade que pode aparecer em qualquer comunidade, inclusive cristã.

Explicação de Mateus 23

Versículos 1 a 12: dizem e não fazem

Jesus afirma que escribas e fariseus estão sentados na cátedra de Moisés, isto é, têm a função de ensinar a Lei. Por isso, deve-se fazer o que dizem, mas não imitar o que fazem, porque dizem e não fazem. Amarram fardos pesados nos ombros dos outros e não movem um dedo para ajudar. Fazem tudo para serem vistos: alargam os filactérios, pequenas caixas com trechos da Lei presas à testa e ao braço durante a oração (Dt 6,8), e aumentam as franjas do manto, que lembravam os mandamentos (Nm 15,38-39). Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas e de serem chamados de rabi.

Jesus pede que os discípulos não se façam chamar de rabi, pai ou mestre, porque um só é o Mestre, o Cristo, e um só é o Pai, o do céu. Vós sois todos irmãos. O maior seja o servo, porque quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Jesus não está proibindo palavras, já que o próprio Novo Testamento chama de pais os que geram na fé (1Cor 4,15). O alvo é a vaidade de quem usa títulos para se colocar acima dos outros e esquece que toda autoridade vem de Deus.

Versículos 13 a 15: os primeiros ais

Começam os ais, fórmula profética de lamento e advertência, como em Isaías 5. Ai de vós, hipócritas! A palavra hipócrita vinha do teatro grego e designava o ator que usava máscara. O primeiro ai: fecham o Reino aos outros, não entram e não deixam entrar. O segundo: percorrem mar e terra para fazer um prosélito, um convertido, e depois o tornam pior do que eles. Algumas Bíblias trazem aqui o versículo 14, sobre os que devoram as casas das viúvas; ele falta em manuscritos antigos de Mateus e costuma vir em nota, pois vem do paralelo de Marcos (Mc 12,40).

Versículos 16 a 22: os juramentos

Jesus chama-os de guias cegos. Eles ensinavam que jurar pelo santuário não obrigava, mas jurar pelo ouro do santuário obrigava; jurar pelo altar não valia, mas pela oferta sobre o altar, sim. Jesus inverte: o que santifica o ouro é o santuário, e o que santifica a oferta é o altar. Quem jura pelo céu jura pelo trono de Deus. As distinções serviam para escapar da palavra dada. No Sermão da Montanha, Jesus já tinha pedido que o sim fosse sim e o não, não (Mateus 5).

Versículos 23 e 24: o mais importante da Lei

Eles pagam o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, temperos pequenos de horta, e deixam de lado o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Jesus não despreza o detalhe: era preciso fazer isto, sem omitir aquilo. Mas critica a inversão de prioridades com uma imagem engraçada: coam o mosquito e engolem o camelo. Os dois animais eram impuros pela Lei, e o contraste de tamanho mostra o absurdo.

Versículos 25 a 28: por fora e por dentro

Limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Que limpem primeiro o interior. Depois, a imagem mais forte: são como sepulcros caiados. Antes de grandes festas, os túmulos eram pintados de branco para que os peregrinos os vissem e não se tornassem impuros ao tocá-los. Por fora bonitos, por dentro cheios de ossos. Assim é a religião só de aparência.

Versículos 29 a 36: os túmulos dos profetas

Eles constroem túmulos para os profetas e dizem que não teriam participado da morte deles, se tivessem vivido no tempo dos pais. Jesus responde que assim testemunham ser filhos dos que mataram os profetas, e anuncia que também perseguirão os enviados dele. Fala do sangue dos justos, desde Abel até Zacarias, morto entre o santuário e o altar. Abel é o primeiro assassinado da Bíblia (Gn 4,8), e um sacerdote Zacarias foi morto no pátio do Templo segundo 2Cr 24,20-22, último livro da Bíblia hebraica. Mateus o chama filho de Baraquias, enquanto em Crônicas ele é filho de Joiada. Os estudiosos propõem explicações: talvez o texto tenha unido a este Zacarias o nome do pai do profeta Zacarias, filho de Baraquias (Zc 1,1), ou o nome venha de uma tradição antiga; no paralelo de Lucas não aparece o nome do pai (Lc 11,51). A dificuldade não muda a mensagem: do primeiro ao último assassinado citado na Bíblia hebraica, todos os justos perseguidos.

Versículos 37 a 39: o lamento sobre Jerusalém

O discurso termina não com raiva, mas com dor. Jerusalém, que mata os profetas! Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, e não quiseste. Jesus usa uma imagem materna e terna. Anuncia que a casa ficará abandonada, e que não o verão mais até que digam: bendito o que vem em nome do Senhor. A frase deixa uma porta aberta de esperança.

O que Mateus 23 ensina para a fé católica?

A Igreja lê este capítulo primeiro como um exame de consciência para si mesma, especialmente para quem tem autoridade. Pastores, catequistas, pais e lideranças são chamados a ensinar com a vida, a servir e a não colocar fardos que eles mesmos não carregam. A autoridade de ensinar é reconhecida, mas é sempre serviço, como Jesus disse em Mateus 20. Chamar o padre de pai, por exemplo, não contradiz o Evangelho: expressa a paternidade espiritual recebida de Deus, o único Pai.

A Igreja também rejeita qualquer leitura antijudaica do texto. O Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate, recorda o vínculo espiritual da Igreja com o povo de Abraão e deplora os ódios, as perseguições e todas as manifestações de antissemitismo. As críticas de Jesus, como as dos profetas antes dele, nascem de dentro do povo de Deus e visam a conversão. O centro positivo do capítulo é claro: justiça, misericórdia e fidelidade são o mais importante, e a pureza verdadeira começa por dentro, como já ensinara Mateus 15.

Reflexão para hoje

É fácil ler este capítulo pensando nos outros. Mas Jesus fala para as multidões e os discípulos, e hoje fala para nós. Quantas vezes cobramos dos filhos o que não fazemos, falamos de caridade e somos duros em casa, cuidamos da imagem nas redes e do coração nem tanto?

A imagem do mosquito e do camelo é um bom espelho. Podemos nos preocupar muito com detalhes da liturgia, das roupas ou dos costumes e esquecer a justiça com o empregado, a misericórdia com quem errou, a fidelidade à palavra dada. Os detalhes têm seu valor, mas não podem engolir o essencial.

E o final nos consola. Por trás das palavras duras está o coração de Jesus, que quer reunir todos debaixo das suas asas. Ele não denuncia para afastar, mas para chamar de volta.

Para rezar com Mateus 23

  • Em que área da minha vida eu digo e não faço?
  • Tenho buscado ser visto e reconhecido, ou servir?
  • O que está bonito por fora e precisa ser limpo por dentro?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, livra-me da hipocrisia. Que eu não carregue máscaras diante de ti nem diante dos irmãos. Ensina-me a pôr em primeiro lugar a justiça, a misericórdia e a fidelidade, e reúne-me debaixo das tuas asas, como a galinha reúne os seus pintinhos. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Concílio Vaticano II, Declaração Nostra Aetate.

Perguntas sobre Mateus 23

Por que Jesus chamou os fariseus de sepulcros caiados?

Os túmulos eram pintados de branco para serem vistos e evitados, mas por dentro guardavam ossos. Jesus usou a imagem para criticar uma religião bonita por fora e vazia de justiça e misericórdia por dentro.

Jesus proibiu chamar alguém de pai em Mateus 23?

Não no sentido literal. Jesus critica a vaidade de quem usa títulos para se colocar acima dos outros. O próprio Novo Testamento chama de pais os que geram na fé, e a Igreja chama o padre de pai pela paternidade espiritual.

O que significa coar o mosquito e engolir o camelo?

É uma imagem para quem se preocupa com pequenos detalhes da religião e deixa de lado o mais importante, que é a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

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