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Marcos 3: a escolha dos Doze e a verdadeira família de Jesus

Leia Marcos 3 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 3 mostra a oposição a Jesus chegando a um ponto grave: depois de uma cura em dia de sábado, fariseus e herodianos começam a planejar a sua morte. No mesmo capítulo, Jesus sobe a um monte e escolhe os Doze, responde à acusação de agir pelo poder de Belzebu e declara quem é a sua verdadeira família: aqueles que fazem a vontade de Deus.

Contexto de Marcos 3

O capítulo continua as controvérsias iniciadas em Marcos 2. A cura do homem da mão atrofiada é a última delas e fecha o bloco com uma decisão de morte. A partir daqui, Marcos alterna dois movimentos: as multidões que procuram Jesus e as autoridades que o rejeitam. No meio disso, Jesus forma um grupo de discípulos mais próximos.

Os herodianos eram partidários de Herodes Antipas, que governava a Galileia em nome de Roma. Que eles se unam aos fariseus, grupos com interesses diferentes, mostra como Jesus incomodava.

Explicação de Marcos 3

Versículos 1 a 6: o homem da mão atrofiada

Na sinagoga, num sábado, há um homem com a mão seca. Alguns observam Jesus para ver se ele vai curá-lo e assim acusá-lo. Jesus chama o homem para o meio e faz uma pergunta: no sábado é permitido fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou matá-la? Ninguém responde. Marcos registra um sentimento raro nos evangelhos: Jesus olha ao redor com indignação e tristeza pela dureza do coração deles. Então manda o homem estender a mão, e ela fica sã. A ironia é forte: no mesmo sábado em que Jesus devolve a vida, os fariseus saem para tramar como tirá-la dele. O Catecismo recorda este episódio ao falar do sábado (CIC n. 2173).

Versículos 7 a 12: multidões de toda parte

Jesus se retira para junto do mar, e uma grande multidão o segue. Vêm da Galileia, da Judeia, de Jerusalém, da Idumeia, do outro lado do Jordão e da região de Tiro e Sidônia, cidades pagãs. Jesus pede um barco para não ser esmagado pelo povo. Os doentes se lançam sobre ele para tocá-lo. Os espíritos impuros, ao vê-lo, gritam que ele é o Filho de Deus, e Jesus os proíbe severamente de revelar quem ele é. A identidade de Jesus não deve ser proclamada por demônios, nem entendida antes da cruz.

Versículos 13 a 19: a instituição dos Doze

Jesus sobe ao monte e chama os que ele quer. O monte lembra o Sinai, onde Deus formou o seu povo. Jesus constitui doze, “para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar” (Mc 3,14), com poder de expulsar demônios. A ordem é importante: primeiro estar com Jesus, depois ser enviado. O número doze lembra as doze tribos de Israel; Jesus está reunindo o povo de Deus renovado.

Simão recebe o nome de Pedro, que quer dizer pedra, e aparece em primeiro lugar. Tiago e João são chamados Boanerges, que Marcos traduz por filhos do trovão, talvez pelo temperamento forte. Seguem André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o zelota (ou cananeu), e Judas Iscariotes, aquele que o entregou. Marcos não esconde que o traidor fazia parte do grupo escolhido. O Catecismo ensina que Jesus escolheu os Doze para participar da sua missão (CIC n. 551). Listas paralelas estão em Mateus 10 e Lucas 6.

Versículos 20 e 21: os parentes acham que ele está fora de si

Jesus volta para casa, e a multidão é tanta que nem conseguem comer. Os seus parentes saem para buscá-lo, porque diziam que ele estava fora de si. Marcos é honesto ao narrar que nem os próximos entendiam Jesus. O texto fala de parentes em geral; não afirma que Maria pensasse assim.

Versículos 22 a 27: a acusação de Belzebu

Escribas vindos de Jerusalém afirmam que Jesus está possuído por Belzebu e expulsa demônios pelo poder do chefe dos demônios. Belzebu era um nome dado a Satanás. Jesus responde com parábolas: um reino dividido contra si mesmo não se sustenta, nem uma casa dividida. Se Satanás lutasse contra si próprio, já teria chegado ao fim. E acrescenta: ninguém pode entrar na casa de um homem forte e roubar os seus bens sem antes amarrá-lo. O homem forte é Satanás; Jesus é o mais forte, anunciado por João Batista (Mc 1,7), que vem libertar os que estavam presos.

Versículos 28 a 30: o pecado contra o Espírito Santo

Jesus afirma que todos os pecados e blasfêmias serão perdoados aos homens, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão. Marcos explica o motivo: diziam que Jesus tinha um espírito impuro. Ou seja, chamavam de obra do demônio o que era obra de Deus. A Igreja ensina que a misericórdia divina não tem limites, mas quem recusa deliberadamente o arrependimento e o perdão oferecido pelo Espírito se fecha à salvação. O problema não está em Deus, mas no coração que não quer ser perdoado.

Versículos 31 a 35: a mãe e os irmãos de Jesus

A mãe e os irmãos de Jesus chegam e mandam chamá-lo, ficando do lado de fora. Jesus olha para os que estão sentados ao seu redor e diz que quem faz a vontade de Deus é seu irmão, sua irmã e sua mãe. Não é uma rejeição de Maria. Santo Agostinho, na obra A santa virgindade (n. 3), observa que Maria foi mais feliz por acolher a fé de Cristo do que por ter concebido a sua carne; ela é a primeira a fazer a vontade de Deus (Lc 1,38).

Quanto aos irmãos de Jesus, o Catecismo ensina que a Igreja professa a virgindade real e perpétua de Maria (CIC n. 499). Explica que a Igreja sempre entendeu as passagens sobre irmãos e irmãs de Jesus como referentes não a outros filhos de Maria, mas a parentes próximos: Tiago e José, por exemplo, são filhos de outra Maria, discípula de Cristo (CIC n. 500; veja Mc 15,40). Jesus é o filho único de Maria, cuja maternidade espiritual se estende a todos os que ele veio salvar (CIC n. 501). Em hebraico e aramaico não havia uma palavra própria para primo, e irmão servia para vários graus de parentesco (veja Gn 13,8, onde Abraão chama seu sobrinho Ló de irmão).

O que Marcos 3 ensina para a fé católica?

  • A Igreja nasce do chamado de Cristo. Os Doze são o fundamento do novo povo de Deus. Os bispos, sucessores dos apóstolos, continuam essa missão. Veja o sacramento da Ordem.
  • O primado de Pedro. Pedro recebe um nome novo e aparece sempre em primeiro lugar nas listas.
  • Cristo vence o demônio. O homem forte foi amarrado. O cristão não vive com medo, mas confiante na vitória de Jesus. Leia sobre anjos e demônios na doutrina católica.
  • A virgindade perpétua de Maria. Os irmãos de Jesus são parentes, e Maria é modelo de quem faz a vontade do Pai. Veja Maria na Bíblia.

Reflexão para hoje

Jesus chamou os Doze primeiro para ficarem com ele. Antes de fazer qualquer coisa pela Igreja, pela família ou pelo trabalho, o discípulo precisa estar com o Mestre. Quando o ativismo toma o lugar da oração, o serviço vira cansaço. A ordem de Marcos 3,14 é um bom critério para a nossa semana.

A cena do homem da mão seca também fala ao nosso coração. Os fariseus estavam tão presos às suas regras que não viam a pessoa sofrendo à sua frente. Isso pode acontecer conosco em casa ou na comunidade, quando a forma importa mais que o irmão. Jesus pergunta: é permitido fazer o bem?

Por fim, Jesus nos oferece uma família maior que os laços de sangue. Quem se sente sozinho, incompreendido até pelos parentes, como o próprio Jesus foi naquele momento, encontra na Igreja irmãos e irmãs que buscam a vontade de Deus. E encontra em Maria a mãe que viveu essa vontade por inteiro.

Para rezar com Marcos 3

  • Tenho reservado tempo para simplesmente estar com Jesus antes de agir?
  • Há alguma “mão atrofiada” na minha vida que preciso estender a ele?
  • Como posso fazer hoje a vontade de Deus, como Maria fez?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, tu chamas os que queres e os fazes ficar contigo. Chama-me também e ensina-me a estar ao teu lado antes de sair em missão. Livra-me de toda dureza de coração e dá-me a graça de fazer a vontade do Pai, como tua Mãe, a Virgem Maria. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 499 a 501, 551 e 2173; Santo Agostinho, A santa virgindade. Capítulo anterior: Marcos 2. Capítulo seguinte: Marcos 4.

Perguntas sobre Marcos 3

Quem são os irmãos de Jesus citados em Marcos 3?

Na língua e na cultura da época, irmãos podia indicar parentes próximos, como primos. A Igreja ensina que Maria permaneceu sempre virgem e que Jesus é seu filho único (Catecismo, n. 499 a 501).

O que é o pecado contra o Espírito Santo?

É recusar de modo deliberado e obstinado a ação de Deus, chamando de mal aquilo que vem do Espírito. Não é imperdoável porque Deus se canse de perdoar, mas porque quem o comete fecha a porta ao próprio perdão.

Por que Jesus escolheu doze apóstolos?

O número lembra as doze tribos de Israel. Ao escolher os Doze, Jesus mostra que está reunindo o novo povo de Deus, e os envia a pregar com a sua autoridade.

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