Marcos 2 reúne quatro cenas em que Jesus entra em choque com os escribas e fariseus: a cura do paralítico, com o perdão dos seus pecados; o chamado de Levi e a refeição com pecadores; a pergunta sobre o jejum; e os discípulos colhendo espigas no sábado. Em todas, Jesus revela uma autoridade que vem de Deus e mostra que veio para os doentes e pecadores.
Contexto de Marcos 2
Depois do dia de curas em Cafarnaum e da pregação pela Galileia (Marcos 1), a fama de Jesus cresce. Com ela, cresce também a oposição dos mestres da Lei. Os capítulos 2,1 a 3,6 formam um bloco de cinco controvérsias que termina com o plano de matar Jesus. Marcos mostra, desde cedo, que a novidade do Evangelho provoca resistência.
Escribas eram especialistas na Lei de Moisés. Fariseus formavam um grupo religioso muito respeitado, dedicado a viver a Lei com rigor no dia a dia. Os conflitos não são brigas pessoais: tratam de quem é Jesus e de como entender a vontade de Deus.
Explicação de Marcos 2
Versículos 1 a 5: o paralítico descido pelo telhado
Jesus está numa casa em Cafarnaum, provavelmente a de Pedro, e a multidão é tanta que ninguém consegue chegar à porta. Quatro homens carregam um paralítico. Sem conseguir entrar, sobem ao telhado, abrem uma abertura e descem a maca. As casas simples da Galileia tinham teto plano, feito de vigas, ramos e barro, com acesso por escada externa. Jesus vê a fé deles, dos amigos e do doente, e diz ao paralítico que os seus pecados estão perdoados.
Versículos 6 a 12: só Deus perdoa pecados
Alguns escribas pensam consigo que isso é blasfêmia, porque só Deus pode perdoar pecados. O raciocínio deles está correto; o que não percebem é quem está diante deles. Jesus conhece os pensamentos e pergunta o que é mais fácil: dizer que os pecados estão perdoados ou mandar o homem andar. Para mostrar que “o Filho do Homem tem poder na terra de perdoar pecados” (Mc 2,10), ordena ao paralítico que se levante, pegue a maca e vá para casa. O homem se levanta diante de todos, e a multidão glorifica a Deus.
Filho do Homem é o título que Jesus mais usa para si. Lembra a figura de Daniel 7,13, que recebe de Deus poder e reino. O Catecismo comenta esta passagem ao ensinar que só Deus perdoa os pecados e que Jesus, por ser Filho de Deus, exerce esse poder e o confia aos homens (CIC n. 1441). O mesmo episódio está em Mateus 9 e Lucas 5.
Versículos 13 a 17: o chamado de Levi e a refeição com pecadores
Junto ao mar, Jesus vê Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria de impostos, e o chama. Levi se levanta e o segue. Os cobradores de impostos trabalhavam para o poder dominante e muitas vezes cobravam além do devido; por isso eram vistos como pecadores públicos. O Evangelho de Mateus conta o mesmo chamado com o nome Mateus (Mt 9,9), e a tradição identifica os dois.
Depois, Jesus come na casa de Levi com muitos cobradores e pecadores. Comer juntos, naquela cultura, era sinal de comunhão. Os escribas do partido dos fariseus estranham. Jesus responde com uma imagem simples: quem precisa de médico são os doentes, não os que têm saúde. E diz que não veio chamar justos, mas pecadores. A Igreja sempre viu aqui o coração da missão de Cristo: ir ao encontro de quem está ferido pelo pecado.
Versículos 18 a 22: o noivo, o remendo e o vinho novo
Os discípulos de João e os fariseus jejuavam, e alguns perguntam por que os discípulos de Jesus não jejuam. Jesus compara sua presença a uma festa de casamento: enquanto o noivo está com os convidados, não faz sentido jejuar. No Antigo Testamento, Deus aparece como esposo de Israel (Os 2; Is 54,5). Jesus se coloca nesse lugar. Ele acrescenta que o noivo será tirado, e então os discípulos jejuarão. É a primeira alusão discreta à Paixão no Evangelho de Marcos, e fundamenta o jejum cristão.
Seguem duas imagens do cotidiano. Ninguém costura pano novo, que ainda vai encolher, numa roupa velha, porque o rasgo fica pior. Ninguém põe vinho novo, ainda fermentando, em odres velhos, que já não esticam e se rompem. Os odres eram recipientes de couro. A novidade de Jesus pede um coração novo para ser recebida.
Versículos 23 a 28: as espigas colhidas no sábado
Num sábado, os discípulos atravessam uma plantação e arrancam espigas. A Lei permitia colher com a mão na plantação do vizinho (Dt 23,26), mas os fariseus consideravam isso um trabalho proibido no dia de descanso. Jesus recorda Davi, que, com fome, comeu os pães oferecidos a Deus, reservados aos sacerdotes (1Sm 21,2-7). A necessidade humana pode prevalecer sobre uma norma ritual.
Em seguida, Jesus diz: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). E conclui que o Filho do Homem é senhor também do sábado. O sábado, ligado à criação e à libertação do Egito (Ex 20,8-11; Dt 5,12-15), era um presente de Deus. Jesus não o despreza; devolve-lhe o sentido de dia de vida e de bem. O Catecismo comenta este ensinamento ao tratar do terceiro mandamento (CIC n. 2173).
O que Marcos 2 ensina para a fé católica?
- O perdão dos pecados vem de Deus. Jesus tem esse poder e o confia à Igreja. Por isso, no sacramento da Confissão, o sacerdote absolve em nome de Cristo.
- A fé da comunidade ajuda quem sofre. Jesus vê a fé dos amigos que carregam o paralítico. A Igreja reza e intercede pelos que não conseguem chegar sozinhos.
- Cristo é médico. A Tradição chama Jesus de médico das almas e dos corpos. O pecador não é afastado, mas chamado.
- O jejum tem sentido. Os cristãos jejuam no tempo em que o noivo “foi tirado”, especialmente na Sexta-feira Santa e na Quaresma, esperando a sua volta.
- O dia do Senhor. Para os cristãos, o domingo, dia da Ressurreição, assume e completa o sentido do sábado. Veja por que vamos à Missa todo domingo e os Dez Mandamentos.
Reflexão para hoje
Os quatro amigos do paralítico não desistiram diante da porta cheia. Subiram, abriram o telhado e deram um jeito. Há pessoas na nossa família que hoje não conseguem chegar até Jesus: por doença, por tristeza, por afastamento da fé. Podemos ser os que carregam a maca, pela oração, pela visita, pela paciência.
Jesus perdoou antes de curar. Isso mostra o que ele considera mais profundo em nós. Às vezes pedimos a Deus apenas a solução de um problema, e ele quer também curar o coração. A Confissão é esse lugar onde ouvimos, pessoalmente, que os nossos pecados estão perdoados.
A cena na casa de Levi também nos questiona. Com quem nos sentamos à mesa? Jesus não teve medo de ser malvisto por estar com quem os outros evitavam. E o sábado nos lembra que o descanso e o culto a Deus não são obrigação vazia: são tempo de vida, de família e de gratidão.
Para rezar com Marcos 2
- Quem eu poderia “carregar” até Jesus com a minha oração e a minha presença?
- Há algum pecado que ainda não levei ao perdão de Deus na Confissão?
- Como tenho vivido o domingo: como peso ou como dom?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, médico das almas e dos corpos, tu vês a minha fé e conheces os meus pensamentos. Perdoa os meus pecados e levanta-me das minhas paralisias. Faz de mim um amigo que leva outros até ti, e dá-me um coração novo para receber o teu vinho novo. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1441 e 2173. Capítulo anterior: Marcos 1. Capítulo seguinte: Marcos 3.
Perguntas sobre Marcos 2
Por que os escribas acharam que Jesus blasfemou em Marcos 2?
O que significa “o sábado foi feito para o homem”?
O que quer dizer vinho novo em odres novos?
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