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Marcos 2: o paralítico, Levi e o sábado explicados

Leia Marcos 2 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 2 reúne quatro cenas em que Jesus entra em choque com os escribas e fariseus: a cura do paralítico, com o perdão dos seus pecados; o chamado de Levi e a refeição com pecadores; a pergunta sobre o jejum; e os discípulos colhendo espigas no sábado. Em todas, Jesus revela uma autoridade que vem de Deus e mostra que veio para os doentes e pecadores.

Contexto de Marcos 2

Depois do dia de curas em Cafarnaum e da pregação pela Galileia (Marcos 1), a fama de Jesus cresce. Com ela, cresce também a oposição dos mestres da Lei. Os capítulos 2,1 a 3,6 formam um bloco de cinco controvérsias que termina com o plano de matar Jesus. Marcos mostra, desde cedo, que a novidade do Evangelho provoca resistência.

Escribas eram especialistas na Lei de Moisés. Fariseus formavam um grupo religioso muito respeitado, dedicado a viver a Lei com rigor no dia a dia. Os conflitos não são brigas pessoais: tratam de quem é Jesus e de como entender a vontade de Deus.

Explicação de Marcos 2

Versículos 1 a 5: o paralítico descido pelo telhado

Jesus está numa casa em Cafarnaum, provavelmente a de Pedro, e a multidão é tanta que ninguém consegue chegar à porta. Quatro homens carregam um paralítico. Sem conseguir entrar, sobem ao telhado, abrem uma abertura e descem a maca. As casas simples da Galileia tinham teto plano, feito de vigas, ramos e barro, com acesso por escada externa. Jesus vê a fé deles, dos amigos e do doente, e diz ao paralítico que os seus pecados estão perdoados.

Versículos 6 a 12: só Deus perdoa pecados

Alguns escribas pensam consigo que isso é blasfêmia, porque só Deus pode perdoar pecados. O raciocínio deles está correto; o que não percebem é quem está diante deles. Jesus conhece os pensamentos e pergunta o que é mais fácil: dizer que os pecados estão perdoados ou mandar o homem andar. Para mostrar que “o Filho do Homem tem poder na terra de perdoar pecados” (Mc 2,10), ordena ao paralítico que se levante, pegue a maca e vá para casa. O homem se levanta diante de todos, e a multidão glorifica a Deus.

Filho do Homem é o título que Jesus mais usa para si. Lembra a figura de Daniel 7,13, que recebe de Deus poder e reino. O Catecismo comenta esta passagem ao ensinar que só Deus perdoa os pecados e que Jesus, por ser Filho de Deus, exerce esse poder e o confia aos homens (CIC n. 1441). O mesmo episódio está em Mateus 9 e Lucas 5.

Versículos 13 a 17: o chamado de Levi e a refeição com pecadores

Junto ao mar, Jesus vê Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria de impostos, e o chama. Levi se levanta e o segue. Os cobradores de impostos trabalhavam para o poder dominante e muitas vezes cobravam além do devido; por isso eram vistos como pecadores públicos. O Evangelho de Mateus conta o mesmo chamado com o nome Mateus (Mt 9,9), e a tradição identifica os dois.

Depois, Jesus come na casa de Levi com muitos cobradores e pecadores. Comer juntos, naquela cultura, era sinal de comunhão. Os escribas do partido dos fariseus estranham. Jesus responde com uma imagem simples: quem precisa de médico são os doentes, não os que têm saúde. E diz que não veio chamar justos, mas pecadores. A Igreja sempre viu aqui o coração da missão de Cristo: ir ao encontro de quem está ferido pelo pecado.

Versículos 18 a 22: o noivo, o remendo e o vinho novo

Os discípulos de João e os fariseus jejuavam, e alguns perguntam por que os discípulos de Jesus não jejuam. Jesus compara sua presença a uma festa de casamento: enquanto o noivo está com os convidados, não faz sentido jejuar. No Antigo Testamento, Deus aparece como esposo de Israel (Os 2; Is 54,5). Jesus se coloca nesse lugar. Ele acrescenta que o noivo será tirado, e então os discípulos jejuarão. É a primeira alusão discreta à Paixão no Evangelho de Marcos, e fundamenta o jejum cristão.

Seguem duas imagens do cotidiano. Ninguém costura pano novo, que ainda vai encolher, numa roupa velha, porque o rasgo fica pior. Ninguém põe vinho novo, ainda fermentando, em odres velhos, que já não esticam e se rompem. Os odres eram recipientes de couro. A novidade de Jesus pede um coração novo para ser recebida.

Versículos 23 a 28: as espigas colhidas no sábado

Num sábado, os discípulos atravessam uma plantação e arrancam espigas. A Lei permitia colher com a mão na plantação do vizinho (Dt 23,26), mas os fariseus consideravam isso um trabalho proibido no dia de descanso. Jesus recorda Davi, que, com fome, comeu os pães oferecidos a Deus, reservados aos sacerdotes (1Sm 21,2-7). A necessidade humana pode prevalecer sobre uma norma ritual.

Em seguida, Jesus diz: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). E conclui que o Filho do Homem é senhor também do sábado. O sábado, ligado à criação e à libertação do Egito (Ex 20,8-11; Dt 5,12-15), era um presente de Deus. Jesus não o despreza; devolve-lhe o sentido de dia de vida e de bem. O Catecismo comenta este ensinamento ao tratar do terceiro mandamento (CIC n. 2173).

O que Marcos 2 ensina para a fé católica?

  • O perdão dos pecados vem de Deus. Jesus tem esse poder e o confia à Igreja. Por isso, no sacramento da Confissão, o sacerdote absolve em nome de Cristo.
  • A fé da comunidade ajuda quem sofre. Jesus vê a fé dos amigos que carregam o paralítico. A Igreja reza e intercede pelos que não conseguem chegar sozinhos.
  • Cristo é médico. A Tradição chama Jesus de médico das almas e dos corpos. O pecador não é afastado, mas chamado.
  • O jejum tem sentido. Os cristãos jejuam no tempo em que o noivo “foi tirado”, especialmente na Sexta-feira Santa e na Quaresma, esperando a sua volta.
  • O dia do Senhor. Para os cristãos, o domingo, dia da Ressurreição, assume e completa o sentido do sábado. Veja por que vamos à Missa todo domingo e os Dez Mandamentos.

Reflexão para hoje

Os quatro amigos do paralítico não desistiram diante da porta cheia. Subiram, abriram o telhado e deram um jeito. Há pessoas na nossa família que hoje não conseguem chegar até Jesus: por doença, por tristeza, por afastamento da fé. Podemos ser os que carregam a maca, pela oração, pela visita, pela paciência.

Jesus perdoou antes de curar. Isso mostra o que ele considera mais profundo em nós. Às vezes pedimos a Deus apenas a solução de um problema, e ele quer também curar o coração. A Confissão é esse lugar onde ouvimos, pessoalmente, que os nossos pecados estão perdoados.

A cena na casa de Levi também nos questiona. Com quem nos sentamos à mesa? Jesus não teve medo de ser malvisto por estar com quem os outros evitavam. E o sábado nos lembra que o descanso e o culto a Deus não são obrigação vazia: são tempo de vida, de família e de gratidão.

Para rezar com Marcos 2

  • Quem eu poderia “carregar” até Jesus com a minha oração e a minha presença?
  • Há algum pecado que ainda não levei ao perdão de Deus na Confissão?
  • Como tenho vivido o domingo: como peso ou como dom?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, médico das almas e dos corpos, tu vês a minha fé e conheces os meus pensamentos. Perdoa os meus pecados e levanta-me das minhas paralisias. Faz de mim um amigo que leva outros até ti, e dá-me um coração novo para receber o teu vinho novo. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1441 e 2173. Capítulo anterior: Marcos 1. Capítulo seguinte: Marcos 3.

Perguntas sobre Marcos 2

Por que os escribas acharam que Jesus blasfemou em Marcos 2?

Porque só Deus pode perdoar pecados. Ao dizer ao paralítico que seus pecados estavam perdoados, Jesus agia com uma autoridade divina, e a cura que veio em seguida confirmou esse poder.

O que significa “o sábado foi feito para o homem”?

Significa que o descanso do sábado é um dom de Deus para o bem da pessoa, e não um peso. Jesus não anula o sábado, mas mostra o seu verdadeiro sentido e se apresenta como Senhor do sábado.

O que quer dizer vinho novo em odres novos?

É uma imagem da novidade que Jesus traz. A sua presença não cabe em esquemas antigos e pede um coração renovado, capaz de acolher o Reino.

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