Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
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Lucas

Lucas 6: bem-aventuranças e amor aos inimigos

Leia Lucas 6 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Lucas escreve o Evangelho com a pena sobre o livro aberto, com o touro ao fundo, pintura de Frans Hals
Frans Hals, São Lucas, c. 1625. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Lucas 6 traz duas discussões sobre o sábado, a escolha dos doze apóstolos depois de uma noite de oração e o grande discurso de Jesus na planície. Nele estão as bem-aventuranças e os ais, o mandamento de amar os inimigos, o convite a ser misericordioso como o Pai e a parábola da casa construída sobre a rocha. É um dos resumos mais densos da vida cristã.

Contexto de Lucas 6

Os conflitos com os fariseus, iniciados em Lucas 5, crescem. Ao mesmo tempo, Jesus organiza a comunidade dos discípulos. O discurso da planície (Lc 6,20-49) tem muitos pontos em comum com o Sermão da Montanha de Mateus (Mateus 5 a 7), mas é mais curto e tem traços próprios. Lucas fala de um lugar plano, ao nível do povo, onde se reúnem pessoas da Judeia, de Jerusalém e até do litoral pagão de Tiro e Sidônia.

Explicação de Lucas 6

Versículos 1 a 5: as espigas no sábado

Num sábado, os discípulos arrancam espigas, debulham com as mãos e comem. A Lei permitia colher com a mão no campo do vizinho (Dt 23,26), mas alguns fariseus consideravam esse gesto um trabalho proibido no dia de descanso. Jesus lembra que Davi, com fome, comeu os pães da oferenda reservados aos sacerdotes (1Sm 21,2-7). E conclui: o Filho do Homem é senhor do sábado.

Versículos 6 a 11: a mão atrofiada

Em outro sábado, na sinagoga, está um homem com a mão direita atrofiada. Os mestres observam para acusar Jesus. Ele pergunta se no sábado é permitido fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou perdê-la. Manda o homem estender a mão, e ela fica sã. O sábado, dia do Senhor, é dia de vida. Os adversários, porém, se enchem de raiva.

Versículos 12 a 16: a escolha dos Doze

Jesus sobe à montanha e passa a noite inteira em oração. De manhã, escolhe doze entre os discípulos e os chama de apóstolos, isto é, enviados. O número doze lembra as doze tribos de Israel: Jesus reúne o novo povo de Deus. A lista inclui Simão Pedro, André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago filho de Alfeu, Simão chamado Zelota, Judas filho de Tiago e Judas Iscariotes, que se tornou traidor. Pessoas muito diferentes, unidas pelo chamado.

Versículos 17 a 19: a multidão na planície

Jesus desce com eles e para num lugar plano. Uma grande multidão vem para ouvi-lo e ser curada. Todos procuram tocá-lo, porque dele sai uma força que cura a todos.

Versículos 20 a 26: as bem-aventuranças e os ais

Olhando para os discípulos, Jesus proclama: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20). Depois, felizes os que agora têm fome, os que agora choram e os que são odiados e excluídos por causa do Filho do Homem. A eles é prometida saciedade, riso e grande recompensa no céu.

Lucas traz quatro bem-aventuranças, na segunda pessoa, e quatro “ais” correspondentes: ai dos ricos, dos que agora estão saciados, dos que agora riem e daqueles de quem todos falam bem. Os ais não são maldições, mas lamentos e advertências, ao estilo dos profetas. Quem põe sua segurança só nos bens deste mundo corre o risco de não esperar mais nada de Deus.

Mateus fala de “pobres em espírito” e Lucas simplesmente de “pobres”. As duas formas se completam: Deus olha com predileção para os que sofrem a pobreza real, e pede a todos o coração pobre de quem depende dele.

Versículos 27 a 36: amar os inimigos

Jesus pede: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam. Oferecer a outra face e não reclamar o que foi tomado são imagens fortes de quem rompe a espiral da vingança. Não significam aceitar a injustiça como se fosse boa, mas não responder ao mal com o mal.

Aqui está a regra de ouro: tratar os outros como queremos ser tratados. Amar quem nos ama, até os pecadores fazem. O discípulo imita o próprio Deus, que é bom com os ingratos e os maus. Tudo se resume no convite: sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso (v. 36).

Versículos 37 a 38: não julgar e dar

Não julgueis e não sereis julgados, perdoai e sereis perdoados, dai e vos será dado. Jesus usa a imagem do comércio de grãos: uma medida boa, apertada, sacudida e transbordante será derramada no colo de quem é generoso. Deus não se deixa vencer em generosidade.

Versículos 39 a 45: o cego, o cisco e a árvore

Um cego não pode guiar outro cego. O discípulo não está acima do mestre. É fácil ver o cisco no olho do irmão e não perceber a trave no próprio. Antes de corrigir, é preciso converter-se. A árvore boa dá frutos bons, e a boca fala daquilo de que o coração está cheio. As palavras revelam o coração.

Versículos 46 a 49: a casa sobre a rocha

Não basta chamar Jesus de “Senhor”. Quem ouve e põe em prática é como quem cava fundo e constrói sobre a rocha: a enchente vem e a casa resiste. Quem ouve e não pratica constrói sem alicerce, e a ruína é grande.

O que Lucas 6 ensina para a fé católica?

O Catecismo da Igreja Católica ensina que “as bem-aventuranças estão no coração da pregação de Jesus” (CIC n. 1716). Elas revelam o rosto de Cristo e o caminho da verdadeira felicidade (veja as bem-aventuranças, o caminho da felicidade cristã).

O amor aos inimigos é uma marca da caridade cristã. O Catecismo recorda que Cristo morreu por nós quando ainda éramos inimigos e que o Senhor nos pede que, como Ele, amemos até os nossos inimigos (CIC n. 1825). A escolha dos Doze, depois de uma noite de oração, mostra a origem da Igreja apostólica. As bem-aventuranças de Lucas são o Evangelho do 6º domingo do Tempo Comum no Ano C, e o amor aos inimigos, o do 7º domingo.

Reflexão para hoje

Amar o inimigo parece impossível. Na prática, começa com passos pequenos: não alimentar a raiva, não falar mal pelas costas, rezar pelo nome de quem nos feriu. Perdoar não é fingir que nada aconteceu, nem voltar a se expor ao abuso. É entregar a Deus o direito de vingança e desejar o bem da outra pessoa.

A trave no olho é um bom exame para a vida em família. Antes de reclamar do cônjuge, do filho ou do colega, vale perguntar: e eu, o que preciso mudar? Quem faz esse caminho corrige com mais mansidão.

A casa sobre a rocha lembra que as crises vêm para todos: doença, desemprego, luto. O que sustenta não é ter ouvido muitas pregações, mas ter vivido o Evangelho nos dias tranquilos. A fé praticada no dia a dia é o alicerce para os dias difíceis.

Para rezar com Lucas 6

  • Qual bem-aventurança ou qual “ai” toca mais minha vida hoje?
  • Por quem eu preciso rezar, mesmo que me tenha ferido?
  • Minha fé tem alicerce de prática, ou fica só nas palavras?

Sugestão de oração:

Pai de misericórdia, que és bom com os ingratos e os maus, dá-me um coração parecido com o teu. Ensina-me a perdoar, a não julgar e a dar com generosidade. Que eu construa minha vida sobre a rocha da tua Palavra. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1716 e 1825.

Perguntas sobre Lucas 6

Qual a diferença entre as bem-aventuranças de Lucas e as de Mateus?

Lucas traz quatro bem-aventuranças, ditas na segunda pessoa e seguidas de quatro ais, num lugar plano. Mateus traz oito, no monte, e fala de pobres em espírito. As duas versões se completam.

O que significa oferecer a outra face?

É uma imagem forte para não responder ao mal com o mal e romper o ciclo da vingança. Não significa achar a injustiça boa, mas vencer o mal com o bem.

Onde está a regra de ouro em Lucas?

Em Lucas 6,31: tratar os outros como queremos ser tratados. Jesus a coloca no centro do ensinamento sobre o amor aos inimigos.

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