Lucas 7 reúne quatro cenas sobre fé e misericórdia. Jesus cura o servo de um centurião romano, ressuscita o filho único de uma viúva em Naim, responde à pergunta de João Batista e perdoa uma mulher pecadora na casa de um fariseu. Em todas, Jesus se aproxima dos que estavam à margem e revela que Deus visitou o seu povo.
Contexto de Lucas 7
O capítulo vem logo depois do discurso da planície (Lucas 6). Jesus pregou o amor e a misericórdia; agora os pratica. Lucas mostra também quem acolhe Jesus e quem o rejeita: um oficial estrangeiro, uma viúva, publicanos e uma pecadora reconhecem a ação de Deus, enquanto alguns fariseus e mestres da Lei resistem. A pergunta de João prepara a questão central do Evangelho: quem é Jesus?
Explicação de Lucas 7
Versículos 1 a 10: a fé do centurião
Em Cafarnaum, um centurião, oficial que comandava cerca de cem soldados, tem um servo muito querido à beira da morte. Ele não é judeu, mas os anciãos da cidade intercedem por ele: ama o povo e construiu a sinagoga. Quando Jesus se aproxima, o centurião manda dizer que não é digno de recebê-lo em casa. Basta uma palavra.
Ele entende de autoridade: dá ordens e é obedecido. Crê que a palavra de Jesus tem esse poder sobre a doença. Jesus se admira e diz que nem em Israel encontrou tamanha fé. Os enviados voltam e encontram o servo curado. A humildade do centurião ecoa em cada Missa, antes da comunhão, quando dizemos que não somos dignos de que o Senhor entre em nossa morada.
Versículos 11 a 17: o filho da viúva de Naim
Na entrada da cidade de Naim, Jesus encontra um enterro. O morto é filho único de uma viúva. Para uma mulher daquela época, perder o marido e o único filho significava ficar sem amparo e sem sustento. Ninguém pede nada. Jesus se compadece, diz à mãe que não chore, toca o caixão e manda o jovem se levantar. Ele se senta, começa a falar, e Jesus o entrega à sua mãe.
A frase lembra quase literalmente o que fez Elias com o filho da viúva de Sarepta (1Rs 17,23). O povo reconhece que um grande profeta surgiu entre eles e que Deus visitou o seu povo (Lc 7,16).
Versículos 18 a 23: a pergunta de João
João Batista, preso, envia dois discípulos para perguntar: és tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro? Talvez esperasse um Messias de juízo e de fogo (Lc 3,16-17). Jesus não responde com títulos. Cura doentes e manda contar o que viram: cegos veem, coxos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e os pobres recebem a boa notícia. São os sinais anunciados por Isaías (Is 35,5-6; 61,1). E acrescenta: feliz quem não se escandaliza por minha causa.
Versículos 24 a 30: o elogio de João
Jesus pergunta às multidões o que foram ver no deserto. Não um caniço agitado pelo vento, nem um homem de roupas finas, mas um profeta, e mais que profeta. João é o mensageiro anunciado por Malaquias (Ml 3,1). Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior que ele; mas o menor no Reino de Deus é maior. Não se trata de desprezar João, e sim de mostrar a novidade do Reino que Jesus inaugura. Lucas observa que o povo e os publicanos, batizados por João, reconheceram a justiça de Deus, enquanto fariseus e legistas recusaram o projeto de Deus para eles.
Versículos 31 a 35: as crianças na praça
Jesus compara sua geração a crianças que brincam na praça e se queixam: tocamos flauta e não dançastes, cantamos lamentações e não chorastes. João jejuava, e disseram que tinha demônio. Jesus come e bebe com todos, e o chamam de comilão, beberrão e amigo de pecadores. Quem não quer converter-se sempre encontra uma desculpa. Mas a Sabedoria é reconhecida pelos seus filhos.
Versículos 36 a 50: a mulher que muito amou
Um fariseu chamado Simão convida Jesus para jantar. Os convidados comiam reclinados, com os pés para trás. Uma mulher conhecida na cidade como pecadora entra com um frasco de perfume, chora aos pés de Jesus, enxuga-os com os cabelos, beija-os e os unge. Simão pensa: se fosse profeta, saberia quem é essa mulher.
Jesus conta uma parábola. Um credor perdoa dois devedores, um de quinhentos denários e outro de cinquenta. Qual o amará mais? Simão responde: aquele a quem perdoou mais. Jesus então compara: Simão não lhe ofereceu água para os pés, nem o beijo de saudação, nem óleo para a cabeça, gestos comuns de hospitalidade. A mulher fez tudo isso com abundância. Por isso seus muitos pecados estão perdoados, porque ela mostrou muito amor.
A parábola mostra que o amor é fruto e sinal do perdão recebido. Jesus diz a ela: teus pecados estão perdoados; tua fé te salvou, vai em paz. Os convidados se perguntam quem é este que até perdoa pecados.
O texto não dá o nome da mulher. Durante séculos, sobretudo no Ocidente, ela foi identificada com Maria Madalena, citada logo depois (Lc 8,2), e às vezes também com Maria de Betânia. O Evangelho, porém, não faz essa ligação, e a questão continua em debate: muitos estudiosos hoje distinguem essas mulheres, e a Igreja não definiu nada a respeito. A maioria dos estudiosos também considera esta cena distinta da unção em Betânia (Mc 14,3-9; Jo 12,1-8).
O que Lucas 7 ensina para a fé católica?
O Catecismo da Igreja Católica ensina que só Deus perdoa os pecados (CIC n. 1441) e, ao tratar do perdão concedido por Jesus, remete a esta cena. A mulher pecadora mostra a dinâmica da conversão: arrependimento, gestos concretos de amor e a palavra de perdão que devolve a paz. É o que a Igreja vive no sacramento da Reconciliação (veja como fazer uma boa confissão).
O Catecismo vê também na compaixão de Cristo pelos doentes e nas suas numerosas curas um sinal de que Deus visitou o seu povo (CIC n. 1503), retomando a exclamação de Naim. Já a fé do centurião foi assumida pela liturgia: suas palavras inspiram a oração que rezamos antes de comungar (veja a Eucaristia, presença real de Cristo).
Reflexão para hoje
A viúva de Naim não pediu nada. Jesus viu sua dor e agiu. Há sofrimentos tão grandes que não conseguimos nem rezar. Este capítulo consola: Deus vê antes que digamos uma palavra. E nos ensina a fazer o mesmo, percebendo a dor de quem está ao lado sem esperar que nos peçam.
Simão, o fariseu, cumpriu as regras, mas não amou. A mulher quebrou as regras sociais por amor e arrependimento. Muitos de nós somos mais parecidos com Simão do que gostaríamos: julgamos os outros e esquecemos de quanto nós mesmos fomos perdoados. Quem se lembra do perdão recebido ama mais e julga menos.
A dúvida de João também é preciosa. Até os santos atravessam momentos escuros. Jesus não o repreende; mostra os sinais. Nas fases de dúvida, vale olhar para o que Deus já fez na nossa vida e na vida da Igreja.
Para rezar com Lucas 7
- Rezo com a humildade e a confiança do centurião antes de comungar?
- Pareço mais com Simão, que julga, ou com a mulher, que ama porque foi perdoada?
- Que dor ao meu redor Jesus me pede para enxergar hoje?
Sugestão de oração:
Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa, mas dize uma palavra e serei salvo. Olha para minhas dores e para as dores dos que amo. Lembra-me de quanto fui perdoado, para que eu saiba amar muito. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1441 e 1503; Missal Romano (rito da comunhão).
Perguntas sobre Lucas 7
A mulher pecadora de Lucas 7 é Maria Madalena?
De onde vem a oração Senhor, eu não sou digno?
Por que João Batista perguntou se Jesus era o Messias?
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