Lucas 19 marca a chegada de Jesus a Jerusalém. Em Jericó, Ele entra na casa de Zaqueu, chefe dos publicanos, que se converte. Depois conta a parábola das minas, entra na cidade montado num jumentinho, chora sobre Jerusalém e expulsa os vendedores do Templo.
Contexto de Lucas 19
É o fim da longa subida que começou em Lucas 9,51. Jesus atravessa Jericó, sobe pelo caminho do deserto e chega ao Monte das Oliveiras, de onde se vê Jerusalém. O Catecismo lembra que Jesus entra na sua cidade montado num jumento, como rei manso, cumprindo a profecia de Zacarias (CIC n. 559; Zc 9,9).
Daqui até o fim do Evangelho, tudo acontece em Jerusalém e arredores. O capítulo faz a ponte entre o caminho e os últimos dias de Jesus.
Explicação de Lucas 19
Versículos 1 a 4: Zaqueu sobe na árvore
Em Jericó vivia Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos e homem rico. Jericó era um centro comercial importante, e o cargo dava muito dinheiro, quase sempre com abusos. Zaqueu queria ver quem era Jesus, mas era baixo e a multidão não deixava. Então corre na frente e sobe num sicômoro, árvore de galhos baixos e fortes. Um homem rico e importante correndo e subindo em árvore: Lucas mostra um desejo maior que a vergonha.
Versículos 5 a 10: hoje a salvação entrou nesta casa
Jesus chega ao lugar, olha para cima e o chama pelo nome: Zaqueu, desce depressa, porque hoje preciso ficar na tua casa. Zaqueu desce e o recebe com alegria. Todos murmuram: foi hospedar-se na casa de um pecador. É a mesma reclamação de Lucas 15.
Zaqueu, de pé, faz uma promessa concreta: dará metade dos bens aos pobres e, se roubou alguém, devolverá quatro vezes mais. A Lei mandava devolver quatro ovelhas por uma ovelha roubada (Ex 21,37), enquanto para quem confessava espontaneamente a culpa bastava devolver o valor com um quinto a mais (Nm 5,6 a 7). Zaqueu assume a medida mais pesada. Jesus responde: hoje a salvação entrou nesta casa, porque também ele é filho de Abraão. E resume a sua missão: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10).
A ordem dos fatos é importante. Jesus não exige mudança antes de entrar. Ele chama, entra e come. A conversão nasce do encontro.
Versículos 11 a 27: a parábola das minas
Como estavam perto de Jerusalém, muitos pensavam que o Reino ia aparecer de imediato. Jesus conta então uma parábola. Um homem nobre parte para um país distante para receber um título de rei e depois voltar. Antes, entrega a dez servos uma mina a cada um, quantia equivalente a uns cem dias de trabalho, e manda que façam negócio. Mas os seus concidadãos o odeiam e mandam dizer que não o querem como rei. Muitos estudiosos veem aqui uma lembrança da história recente: Arquelau, filho de Herodes, foi a Roma pedir ao imperador o título de rei, e uma delegação de judeus foi até lá se opor a ele, como conta o historiador Flávio Josefo. Arquelau recebeu apenas o título menor de etnarca.
Ao voltar, o rei pede contas. Um servo diz que a sua mina rendeu dez, e recebe autoridade sobre dez cidades. Outro rendeu cinco, e recebe cinco cidades. Um terceiro guardou a mina num lenço, por medo, porque achava o senhor severo. O rei o julga pelas suas próprias palavras e manda dar a mina a quem tem dez. A quem tem, será dado mais; de quem não tem, até o que tem será tirado. Os inimigos que rejeitaram o rei são punidos.
O sentido: o Reino definitivo não vem já. Há um tempo de espera, em que cada discípulo deve fazer render o que recebeu. O medo e a imagem falsa de Deus paralisam. A parábola se parece com a dos talentos em Mt 25,14 a 30, mas tem traços próprios.
Versículos 28 a 40: a entrada em Jerusalém
Jesus segue à frente, subindo para Jerusalém. Perto de Betfagé e Betânia, no Monte das Oliveiras, manda dois discípulos buscar um jumentinho em que ninguém ainda montou. Se alguém perguntar, devem dizer: o Senhor precisa dele. Eles o trazem, colocam os mantos sobre o animal e Jesus monta. Pelo caminho, estendem os mantos no chão, gesto antigo de acolhida a um rei (2Rs 9,13).
Na descida do Monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos louva a Deus em alta voz por todos os milagres que viram: bendito o Rei que vem em nome do Senhor, paz no céu e glória nas alturas. É o Salmo 118,26 e um eco do canto dos anjos em Belém (Lc 2,14). Alguns fariseus pedem a Jesus que repreenda os discípulos. Ele responde que, se eles se calarem, as pedras gritarão. Este trecho é lido na procissão de ramos do Domingo de Ramos no Ano C.
Versículos 41 a 44: Jesus chora sobre Jerusalém
Ao ver a cidade, Jesus chora. Se tu também compreendesses neste dia o que te traz a paz! Ele anuncia que virão dias em que os inimigos cercarão a cidade, a destruirão e não deixarão pedra sobre pedra, porque ela não reconheceu o tempo em que foi visitada. A cidade foi de fato destruída pelos romanos no ano 70. O choro de Jesus mostra que Deus não se alegra com a ruína de ninguém. A recusa traz dor também ao coração de Cristo.
Versículos 45 a 48: a purificação do Templo
Jesus entra no Templo e começa a expulsar os vendedores, dizendo: está escrito, a minha casa será casa de oração, e vós fizestes dela um covil de ladrões. Ele une duas profecias, Is 56,7 e Jr 7,11. O Templo era o coração da fé de Israel, e o comércio tinha tomado o lugar do encontro com Deus. Depois Jesus passa a ensinar ali todos os dias. Os chefes dos sacerdotes e os mestres da Lei procuram matá-lo, mas não sabem como, porque o povo inteiro está pendurado nas suas palavras.
O que Lucas 19 ensina para a fé católica?
- Cristo procura os perdidos. O versículo 10 resume todo o Evangelho de Lucas. A Igreja existe para continuar essa missão.
- Conversão com reparação. Zaqueu não fica só nas palavras: devolve o que tirou. A Igreja ensina que a verdadeira penitência inclui reparar o mal causado, quando possível.
- A mesa com os pecadores. O Catecismo ensina que Jesus não só perdoou os pecados, mas reintegrou os pecadores perdoados na comunidade do povo de Deus, e que as refeições com eles eram sinal disso (CIC n. 1443).
- Cristo, Rei manso. A entrada em Jerusalém mostra um rei que não vem com exército, mas num jumentinho. Por isso a Igreja a celebra no início da Semana Santa.
- O respeito pela casa de Deus. A igreja é casa de oração. O silêncio e o recolhimento ajudam o encontro com o Senhor.
Reflexão para hoje
Zaqueu tinha dinheiro e posição, mas algo faltava. Ele não teve medo de parecer ridículo para ver Jesus. Às vezes, o que nos impede de buscar a Deus é a vergonha: o que vão pensar? Jesus olha para cima e chama pelo nome. Ele quer entrar na nossa casa hoje, não quando estivermos prontos.
A parábola das minas fala do medo que paralisa. O terceiro servo não perdeu nada, apenas não fez nada. Quantos dons ficam guardados no lenço: uma vocação, um talento, uma palavra de fé que não dizemos. Deus confia em nós e espera que arrisquemos.
E Jesus chora sobre a cidade. Ele também chora sobre as nossas cidades, famílias e corações quando não reconhecemos o tempo da visita de Deus. Cada dia é uma visita.
Para rezar com Lucas 19
- O que me impede de ir ao encontro de Jesus, como Zaqueu?
- Há algo que eu preciso reparar ou devolver?
- Que dom eu tenho guardado por medo?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, Tu me chamas pelo nome e queres entrar na minha casa. Eu te recebo com alegria. Dá-me a coragem de Zaqueu para mudar de vida e reparar o mal que fiz. Que eu faça render os dons que me confiaste e reconheça o dia da tua visita. Bendito és Tu, que vens em nome do Senhor. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 559 e 1443; Missal Romano (Domingo de Ramos).
Perguntas sobre Lucas 19
Quem foi Zaqueu na Bíblia?
Por que Jesus entrou em Jerusalém montado num jumento?
Por que Jesus chorou sobre Jerusalém?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.