Lucas 20 mostra Jesus ensinando no Templo de Jerusalém e enfrentando perguntas difíceis das autoridades. Questionam a sua autoridade, Ele conta a parábola dos vinhateiros homicidas, responde sobre o imposto a César e sobre a ressurreição dos mortos. No fim, alerta contra a vaidade dos mestres da Lei.
Contexto de Lucas 20
Depois de entrar em Jerusalém e purificar o Templo (Lucas 19), Jesus ensina ali todos os dias. Os grupos de poder tentam apanhá-lo numa palavra: chefes dos sacerdotes, mestres da Lei, anciãos, espiões e saduceus. Cada pergunta é uma armadilha, e cada resposta revela algo de quem é Jesus. O capítulo tem paralelos em Mc 11,27 a 12,40 e Mt 21 a 22.
Explicação de Lucas 20
Versículos 1 a 8: com que autoridade?
Enquanto Jesus ensina e anuncia a Boa-Nova, as autoridades perguntam com que autoridade Ele faz essas coisas. Afinal, Ele expulsou vendedores do Templo, lugar sob a responsabilidade deles. Jesus responde com outra pergunta: o batismo de João vinha do céu ou dos homens? Eles calculam: se dissermos do céu, Ele perguntará por que não acreditamos; se dissermos dos homens, o povo nos apedreja, pois considera João um profeta. Respondem que não sabem. Jesus então também não diz. Não era falta de resposta, mas falta de sinceridade de quem perguntava.
Versículos 9 a 19: os vinhateiros homicidas
Jesus conta ao povo uma parábola. Um homem planta uma vinha, arrenda a uns lavradores e viaja. No tempo da colheita, envia servos para receber a sua parte. Os lavradores batem neles e os mandam embora de mãos vazias. Por fim o dono envia o filho amado, pensando que o respeitarão. Mas eles dizem: este é o herdeiro; vamos matá-lo, e a herança será nossa. Jogam-no para fora da vinha e o matam.
Os ouvintes entendiam a imagem: a vinha é Israel (Is 5,1 a 7), os servos são os profetas, o filho amado é Jesus. Ser jogado para fora da vinha antecipa a morte fora da cidade. Jesus cita o Salmo 118,22: a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. Quem cair sobre ela se quebrará. Os chefes percebem que a parábola é contra eles e querem prendê-lo na hora, mas temem o povo.
Versículos 20 a 26: o imposto a César
Mandam espiões que fingem ser justos. Elogiam Jesus e perguntam: é permitido ou não pagar imposto a César? A armadilha é dupla. Se disser que sim, perde o povo, que odiava o domínio romano. Se disser que não, pode ser denunciado ao governador como rebelde.
Jesus pede que lhe mostrem um denário, a moeda do imposto, e pergunta de quem é a imagem e a inscrição. Eles respondem: de César. Então Jesus diz: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lc 20,25). A moeda traz a imagem do imperador e pode voltar a ele. Mas o ser humano traz a imagem de Deus (Gn 1,27) e pertence a Deus por inteiro. Jesus reconhece a ordem civil, mas a coloca abaixo de Deus. Os adversários ficam calados, admirados com a resposta.
Versículos 27 a 33: os saduceus e a mulher dos sete maridos
Aproximam-se alguns saduceus, grupo ligado à elite sacerdotal, que não acreditava na ressurreição. Eles citam a lei do levirato: se um homem morre sem filhos, o irmão deve casar com a viúva para dar descendência ao falecido (Dt 25,5 a 10). Inventam um caso: sete irmãos casaram com a mesma mulher, um após o outro, e todos morreram sem filhos. Na ressurreição, de quem ela será esposa? A pergunta quer ridicularizar a fé na ressurreição.
Versículos 34 a 40: o Deus dos vivos
Jesus responde que o casamento pertence a este mundo. Os que forem julgados dignos da vida futura e da ressurreição já não se casam, porque não podem mais morrer. São como os anjos e são filhos de Deus, filhos da ressurreição. Não serão anjos, mas viverão uma vida nova, livre da morte.
Depois Jesus mostra a ressurreição na própria Lei, que os saduceus aceitavam. Na sarça ardente, Deus se apresenta a Moisés como o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó (Ex 3,6). Os patriarcas tinham morrido havia séculos. Se Deus ainda é o Deus deles, é porque estão vivos para Ele. Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois para Ele todos vivem. Alguns mestres da Lei, que criam na ressurreição, aprovam: Mestre, falaste bem. E ninguém mais ousa perguntar.
Versículos 41 a 44: o Messias é Filho de Davi?
Agora é Jesus quem pergunta. Como dizem que o Messias é filho de Davi, se o próprio Davi, no livro dos Salmos, o chama de Senhor? Jesus cita o Salmo 110,1: o Senhor disse ao meu Senhor, senta-te à minha direita. Um pai não chama o filho de senhor. Logo, o Messias é descendente de Davi, mas também muito maior que ele. Jesus aponta para o mistério da sua identidade divina, que os cristãos reconhecem na sua ressurreição e ascensão.
Versículos 45 a 47: cuidado com a vaidade
Diante de todo o povo, Jesus alerta os discípulos contra os mestres da Lei que gostam de andar com roupas compridas, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas e, para disfarçar, fazem longas orações. Esses receberão condenação mais severa. A crítica não é contra a Lei nem contra a oração, mas contra a religião usada para se exibir e explorar os fracos. Logo em seguida, em Lucas 21, aparece uma viúva pobre que é o exemplo oposto.
O que Lucas 20 ensina para a fé católica?
- Jesus é o Filho amado. A parábola da vinha mostra Jesus acima de todos os profetas: não é mais um servo, é o Filho e herdeiro.
- Cristo, pedra angular. O Salmo 118,22 é aplicado a Jesus também em At 4,11 e 1Pd 2,7. A Igreja é construída sobre Ele.
- Fé e vida pública. O cristão é bom cidadão: paga impostos, respeita as leis justas e participa da vida social. Mas nenhuma autoridade humana pode exigir o que pertence só a Deus, como a consciência e a adoração.
- A ressurreição dos mortos. Professamos no Credo a ressurreição da carne. A resposta de Jesus aos saduceus é uma das bases bíblicas dessa fé. Veja também o que a Igreja ensina sobre a morte.
- Coerência religiosa. A advertência contra a vaidade vale para todos os que servem na Igreja, clérigos e leigos.
Reflexão para hoje
A pergunta sobre o imposto toca a nossa vida: o que devo a César e o que devo a Deus? Ao César de hoje damos impostos, trabalho, respeito às leis. A Deus damos a vida inteira, porque trazemos a imagem dele. A pergunta prática é: em que eu deixo que o trabalho, a política ou o dinheiro ocupem o lugar que é de Deus?
A resposta aos saduceus consola quem perdeu alguém querido. Os nossos mortos estão vivos para Deus. A ressurreição não é continuação desta vida com os mesmos limites, é vida nova. Isso muda o modo de viver o luto e de rezar pelos falecidos.
E a advertência final é um espelho. Todos gostamos de ser reconhecidos. O perigo é usar até as coisas de Deus para isso. A verdadeira religião se vê no cuidado com as viúvas, não nas roupas compridas.
Para rezar com Lucas 20
- Pergunto a Deus com sinceridade ou só para ter razão?
- Que parte da minha vida ainda não entreguei a Deus?
- Como a fé na ressurreição muda o modo como vivo a perda de quem amo?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, Filho amado do Pai e pedra angular da minha vida, eu te pertenço por inteiro. Ensina-me a dar a César o que é de César e a Ti o meu coração. Fortalece a minha fé na ressurreição e guarda os que já partiram. Livra-me da vaidade e faz de mim servo dos pequenos. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB).
Perguntas sobre Lucas 20
O que significa dai a César o que é de César?
Quem eram os saduceus?
Haverá casamento no céu segundo Lucas 20?
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