Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
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Lucas 11: o Pai-Nosso e a oração explicados

Leia Lucas 11 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Lucas escreve o Evangelho com a pena sobre o livro aberto, com o touro ao fundo, pintura de Frans Hals
Frans Hals, São Lucas, c. 1625. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Lucas 11 começa com o pedido dos discípulos, “Senhor, ensina-nos a orar”, e com a versão do Pai-Nosso transmitida por Lucas. Seguem a parábola do amigo que pede pão à meia-noite e a promessa de que o Pai dá o Espírito Santo a quem pede. Depois vêm controvérsias: a acusação de que Jesus age por Belzebu, o sinal de Jonas e duras advertências a fariseus e mestres da Lei.

Contexto de Lucas 11

Jesus continua a viagem para Jerusalém. Depois de ensinar o amor ao próximo e a escuta da Palavra (Lucas 10), Ele ensina a rezar. Lucas é o evangelista da oração: mostra Jesus rezando em todos os momentos decisivos, e aqui os discípulos, vendo-o rezar, pedem para aprender. A segunda metade do capítulo mostra a resistência crescente de alguns líderes religiosos. Mateus traz o Pai-Nosso no Sermão da Montanha (Mateus 6) e a controvérsia sobre Belzebu em Mateus 12.

Explicação de Lucas 11

Versículos 1 a 4: o Pai-Nosso

Jesus está rezando num certo lugar. Quando termina, um discípulo pede: Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou aos seus discípulos. Jesus ensina uma oração curta, com cinco pedidos: que o nome do Pai seja santificado, que venha o seu Reino, que nos dê a cada dia o pão de que precisamos, que perdoe nossos pecados, pois também perdoamos a quem nos deve, e que não nos deixe cair em tentação.

A versão de Mateus é mais longa e é a que a Igreja reza na liturgia. As duas trazem o mesmo coração: chamar Deus de Pai, com a confiança de filhos. Em Lucas, o pedido do pão é “cada dia”: confiança renovada diariamente. E o perdão pedido está ligado ao perdão que damos.

Versículos 5 a 8: o amigo à meia-noite

Jesus conta uma história. Um homem recebe um amigo em viagem à meia-noite e não tem nada para lhe oferecer. A hospitalidade era sagrada. Ele bate à porta de um vizinho e pede três pães. O vizinho responde de dentro que a porta está trancada e as crianças dormem com ele, como era comum nas casas pobres de um só cômodo. Mesmo assim, por causa da insistência, ele se levanta e dá o que o amigo precisa.

A lição não é que Deus seja como o vizinho preguiçoso. O argumento é do menor para o maior: se até um vizinho incomodado atende, quanto mais o Pai, que ama.

Versículos 9 a 13: pedi e recebereis

Pedi, e vos será dado; buscai, e encontrareis; batei, e a porta vos será aberta. Os verbos indicam ação contínua: continuar pedindo, buscando, batendo. Jesus compara: qual pai daria uma cobra ao filho que pede peixe, ou um escorpião a quem pede ovo? Se pais imperfeitos sabem dar coisas boas aos filhos, “quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13). Mateus fala de “coisas boas”; Lucas aponta o maior dom de todos, o Espírito Santo.

Versículos 14 a 23: Jesus e Belzebu

Jesus expulsa um demônio que deixava um homem mudo. Alguns dizem que Ele expulsa demônios pelo poder de Belzebu, chefe dos demônios; outros pedem um sinal do céu. Jesus responde: um reino dividido contra si mesmo cai. Se Satanás estivesse dividido, seu reino não ficaria de pé. Mas se Jesus expulsa demônios pelo “dedo de Deus”, expressão que lembra os magos do Egito diante das pragas (Ex 8), então o Reino de Deus já chegou.

Ele usa a imagem do homem forte e armado que guarda seu palácio, até que vem alguém mais forte e o vence. Jesus é esse mais forte. E não há neutralidade: quem não está com Ele está contra Ele.

Versículos 24 a 26: o espírito que volta

Um espírito impuro que sai de alguém pode voltar e, encontrando a casa varrida e arrumada, mas vazia, traz outros sete piores. Não basta tirar o mal; é preciso encher a vida com Deus. Uma conversão sem continuidade deixa a pessoa mais vulnerável.

Versículos 27 a 28: feliz quem ouve a Palavra

Uma mulher na multidão exclama: feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram. Jesus responde: mais felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam. Não diminui sua mãe; aponta a verdadeira razão da grandeza dela. Maria é bem-aventurada sobretudo porque acreditou e guardou a Palavra (Lc 1,45; 2,19).

Versículos 29 a 32: o sinal de Jonas

Diante da multidão que pede sinais, Jesus diz que só será dado o sinal de Jonas. Assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, que se converteram com sua pregação (Jn 3), o Filho do Homem será sinal para esta geração. A rainha do Sul, que veio de longe ouvir a sabedoria de Salomão (1Rs 10), e os ninivitas se levantarão no julgamento. Aqui há alguém maior que Salomão e que Jonas.

Versículos 33 a 36: a lâmpada do corpo

A lâmpada é posta no alto para iluminar. O olho é a lâmpada do corpo: se o olhar é limpo, todo o corpo fica iluminado; se é mau, fica nas trevas. A imagem fala do coração e da intenção. Quem olha a vida com fé enxerga com a luz de Deus.

Versículos 37 a 54: advertências a fariseus e legistas

Um fariseu convida Jesus para comer e se admira de que Ele não fez a ablução antes da refeição, rito de pureza praticado por grupos piedosos. Jesus aproveita para denunciar uma religião só de fachada: limpar o exterior do copo e deixar o interior cheio de rapina. Pede que se dê esmola do que está dentro.

Seguem seis “ais”, três aos fariseus e três aos legistas. Pagam o dízimo até da hortelã e da arruda, mas descuidam da justiça e do amor de Deus. Gostam dos primeiros lugares e das saudações. São como sepulturas sem sinal, sobre as quais as pessoas passam sem saber e se tornam impuras. Os legistas impõem fardos pesados que eles mesmos não tocam, constroem túmulos para os profetas que seus antepassados mataram, desde Abel até Zacarias (Gn 4,8; 2Cr 24,20-22), e tiram a chave do conhecimento.

Estas palavras não condenam o povo judeu nem todos os fariseus, entre os quais havia homens justos. São advertências proféticas contra a hipocrisia, que é tentação de todo religioso, inclusive dos cristãos. O capítulo termina com a hostilidade aberta dos adversários.

O que Lucas 11 ensina para a fé católica?

O Catecismo da Igreja Católica abre sua explicação do Pai-Nosso justamente com Lucas 11,1: Jesus estava em oração, e os discípulos pediram que lhes ensinasse a orar (CIC n. 2759). A Igreja reza diariamente essa oração, chamada oração do Senhor (veja o Pai-Nosso, cada frase explicada).

O Catecismo observa ainda que Lucas nos transmite três parábolas principais sobre a oração, a primeira delas a do amigo importuno (CIC n. 2613). Elas ensinam a perseverança e a confiança filial. A promessa do versículo 13 lembra que o maior fruto da oração é o próprio Espírito Santo. Lucas 11,1-13 é o Evangelho do 17º domingo do Tempo Comum no Ano C.

Reflexão para hoje

Os discípulos pediram para aprender a rezar porque viram Jesus rezando. Filhos aprendem a rezar vendo os pais rezarem. Um Pai-Nosso rezado em família antes de dormir ou antes das refeições ensina mais do que muitas explicações (veja como começar a oração em família).

A parábola do amigo à meia-noite fala a quem está cansado de pedir. Há graças que demoram. Jesus não manda desistir: continuar batendo já é um ato de fé. E o Pai sempre responde, ainda que não do modo que imaginamos. Às vezes, a resposta é o Espírito Santo que nos dá força para atravessar a situação.

As advertências aos fariseus servem de exame para nós. É possível cumprir rituais e esquecer a justiça e o amor. A pergunta não é se vou à Missa, mas se a Missa está mudando meu jeito de tratar os outros.

Para rezar com Lucas 11

  • Quando rezo o Pai-Nosso, presto atenção ao que estou pedindo?
  • Por qual graça eu desisti de pedir, e que Jesus me convida a pedir de novo?
  • Em que minha fé está mais preocupada com a aparência do que com o coração?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, ensina-me a orar como tu oravas. Dá-me a confiança de filho para chamar Deus de Pai e a perseverança para continuar batendo à porta. Que o Pai me conceda o Espírito Santo e limpe meu coração de toda hipocrisia. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2613 e 2759.

Perguntas sobre Lucas 11

Por que o Pai-Nosso de Lucas é mais curto que o de Mateus?

Cada evangelista transmitiu a oração de Jesus de acordo com sua tradição e seus leitores. Lucas traz cinco pedidos e Mateus sete; a Igreja reza na liturgia a forma de Mateus.

O que significa a parábola do amigo à meia-noite?

Ela ensina a perseverança na oração. Se até um vizinho incomodado atende a quem insiste, muito mais o Pai, que ama, atende seus filhos.

O que é o sinal de Jonas?

Assim como Jonas foi sinal para Nínive, que se converteu com sua pregação, Jesus é o sinal dado à sua geração. A tradição cristã também liga esse sinal à ressurreição.

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