Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
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João 2: as Bodas de Caná e a purificação do Templo

Leia João 2 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São João Evangelista de manto vermelho olha para o céu com a pena na mão, com a águia e dois anjinhos, de Domenichino
Domenichino, São João Evangelista, c. 1624-1629. Domínio público, via Wikimedia Commons.

João 2 narra dois episódios: as Bodas de Caná, onde Jesus transforma água em vinho a pedido de sua Mãe, e a purificação do Templo de Jerusalém, quando ele expulsa os vendedores e anuncia que o templo do seu corpo será destruído e reerguido em três dias. Os dois fatos revelam quem é Jesus e o que ele veio inaugurar.

Contexto de João 2

O capítulo vem logo depois do chamado dos primeiros discípulos (João 1). João não usa a palavra “milagre”; prefere “sinal”, porque cada gesto de Jesus aponta para algo maior: a sua identidade e a sua glória. Caná é o primeiro desses sinais. A cena do Templo acontece em Jerusalém, perto da Páscoa judaica. Os outros Evangelhos situam a purificação do Templo no fim do ministério de Jesus (Mateus 21); João a coloca no início. Os estudiosos discutem se houve um ou dois episódios, ou se João escolheu essa ordem por motivo teológico.

Explicação de João 2

Versículos 1 a 5: a festa e a falta de vinho

No terceiro dia há um casamento em Caná da Galileia, e a Mãe de Jesus está lá. Jesus e os discípulos também foram convidados. As festas de casamento podiam durar vários dias, e faltar vinho seria uma vergonha para a família dos noivos. Maria percebe o problema antes de todos e o apresenta a Jesus com discrição: eles não têm mais vinho.

Jesus responde chamando-a de “Mulher” e diz que a sua hora ainda não chegou. “Mulher” não é desrespeito; é um título solene, que reaparece aos pés da cruz (João 19) e lembra a mulher do Gênesis. A “hora” de Jesus, em João, é a hora da cruz e da glorificação. Maria não discute. Dirige-se aos serventes e diz a frase que resume a sua missão: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

Versículos 6 a 10: a água que se torna vinho

Havia seis talhas de pedra, usadas para as purificações dos judeus, cada uma com capacidade para cerca de cem litros. Jesus manda enchê-las de água até a borda e levar ao mestre-sala. A água se tornou vinho, e vinho excelente. O mestre-sala, sem saber de onde veio, elogia o noivo por ter guardado o vinho bom até o fim.

Os detalhes têm sentido. As talhas da purificação ritual representam a antiga aliança; o vinho novo e abundante representa a alegria do tempo do Messias, que os profetas anunciavam com a imagem de vinho farto (Am 9,13; Is 25,6). Deus é o noivo do seu povo (Is 62,5), e em Jesus essa aliança chega à plenitude.

Versículos 11 a 12: o primeiro sinal

João conclui que esse foi o início dos sinais de Jesus. Ele manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele. Depois Jesus desce a Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. “Irmãos”, no uso bíblico e semítico, pode indicar parentes próximos, como primos; a Igreja ensina que Maria permaneceu sempre virgem.

Versículos 13 a 17: a purificação do Templo

Perto da Páscoa, Jesus sobe a Jerusalém. No pátio do Templo encontra vendedores de bois, ovelhas e pombas e cambistas. Esse comércio tinha uma função prática: os peregrinos compravam animais para os sacrifícios e trocavam moedas para pagar o imposto do Templo. Mas ocupava o espaço da oração. Jesus faz um chicote de cordas, expulsa os animais, derruba as mesas e diz que não façam da casa de seu Pai um mercado. Os discípulos lembram o Salmo 69,10: o zelo pela casa de Deus o consumia.

O gesto é profético. Jesus chama Deus de “meu Pai” e age com autoridade de Filho sobre a casa do Pai. Não é explosão de raiva, mas sinal de que o culto precisa ser purificado.

Versículos 18 a 22: o templo do seu corpo

Os líderes pedem um sinal que justifique esse gesto. Jesus responde: destruí este templo, e em três dias eu o levantarei. Eles entendem que fala do edifício, que estava em obras havia quarenta e seis anos, desde a reforma iniciada por Herodes, o Grande. Mas Jesus falava do templo do seu corpo. Só depois da ressurreição os discípulos compreenderam. A partir de agora, o lugar do encontro com Deus é o próprio Jesus, morto e ressuscitado.

Versículos 23 a 25: Jesus conhece o coração

Durante a festa, muitos creram ao ver os sinais. Mas Jesus não se confiava a eles, porque conhecia o que há no ser humano. É uma advertência: há uma fé superficial, que se entusiasma com prodígios, e há a fé que permanece e se entrega.

O que João 2 ensina para a fé católica?

O Catecismo vê em Caná um sinal importante para o Matrimônio: no limiar da sua vida pública, Jesus realiza o primeiro sinal, a pedido de sua Mãe, numa festa de casamento, e a Igreja dá grande importância à presença dele nessas bodas, como confirmação da bondade do casamento (CIC n. 1613). Leia mais sobre o sacramento do Matrimônio.

A cena revela também o lugar de Maria. O Catecismo, ao tratar da oração de Maria, recorda Caná: a Mãe de Jesus pede ao Filho pelas necessidades de uma festa de casamento (CIC n. 2618). Ela intercede e conduz a Jesus; nunca toma o lugar dele. Por isso Caná é um dos mistérios luminosos do Rosário, e a liturgia proclama este trecho no 2º Domingo do Tempo Comum do Ano C. A purificação do Templo ensina que Jesus é o novo Templo, e que pelo Batismo os cristãos se tornam templos do Espírito (1Cor 3,16).

Reflexão para hoje

Em muitas casas também falta vinho: falta alegria, paciência, diálogo, dinheiro no fim do mês. Maria ensina a primeira atitude: perceber a falta e levá-la a Jesus, sem exigir o modo como ele deve agir. A segunda atitude é dos serventes: fazer o que ele disser, mesmo quando parece pouco, como encher talhas de água.

Deus costuma trabalhar com o que oferecemos. A água era dos noivos; o vinho foi dom de Jesus. O pouco que você coloca nas mãos dele, seu esforço, sua oração, sua fidelidade diária, pode se transformar em algo que você não imaginava.

O Templo purificado faz pensar no próprio coração. Existem “mercados” dentro de nós, interesses e barulhos que tomam o espaço de Deus. Deixar Jesus entrar e arrumar a casa dói um pouco, mas devolve a paz.

Para rezar com João 2

  • Qual “vinho” está faltando hoje na minha casa ou no meu trabalho?
  • Confio a Maria as minhas necessidades, deixando que ela me leve a fazer o que Jesus diz?
  • O que precisa ser purificado no templo do meu coração?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, que em Caná atendeste ao pedido de tua Mãe, olha para o que falta em minha vida. Maria, intercede por mim e ensina-me a fazer tudo o que ele disser. Purifica meu coração, Senhor, para que seja casa de oração. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Maria na Bíblia.

Perguntas sobre João 2

Por que Jesus chamou Maria de “Mulher” em Caná?

Não é falta de respeito. É um título solene, que reaparece na cruz e liga Maria à mulher do Gênesis, mostrando sua missão no plano da salvação.

Qual foi o primeiro milagre de Jesus?

Segundo João 2,11, o primeiro sinal de Jesus foi transformar água em vinho nas Bodas de Caná, onde ele manifestou a sua glória e os discípulos creram nele.

Por que Jesus expulsou os vendedores do Templo?

Porque o comércio tomava o espaço da oração na casa de seu Pai. O gesto profético anuncia que ele mesmo, morto e ressuscitado, é o novo Templo.

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