João 1 abre o quarto Evangelho com o Prólogo, um hino solene sobre o Verbo de Deus, que existia desde sempre e se fez homem em Jesus. Em seguida, João Batista dá testemunho de Jesus e o apresenta como o Cordeiro de Deus. O capítulo termina com o chamado dos primeiros discípulos: André, Pedro, Filipe e Natanael.
Contexto de João 1
O Evangelho de João é o quarto e último dos Evangelhos. A Tradição da Igreja o atribui ao apóstolo João, filho de Zebedeu, identificado com o “discípulo que Jesus amava”. Muitos estudiosos pensam que o texto passou por uma redação final na comunidade ligada a ele, por volta do fim do século I; sobre os detalhes dessa composição há debate. Desde a antiguidade ele foi chamado de evangelho “espiritual”, expressão que Eusébio de Cesareia atribui a Clemente de Alexandria (História Eclesiástica VI,14,7), porque aprofunda o sentido dos gestos e palavras de Jesus.
O capítulo 1 funciona como uma porta de entrada. Os versículos 1 a 18 resumem todo o Evangelho: quem é Jesus, de onde vem, o que veio trazer e como foi recebido. Os versículos 19 a 51 começam a narrativa, situada junto ao rio Jordão, onde João Batista batizava.
Explicação de João 1
Versículos 1 a 5: no princípio era o Verbo
“No princípio” lembra de propósito a primeira palavra do Gênesis (Gn 1,1). João volta ao começo de tudo para dizer que, antes da criação, já existia o Verbo. “Verbo” traduz a palavra grega Logos, que significa palavra, razão, sentido. O Verbo estava junto de Deus e era Deus: é distinto do Pai e, ao mesmo tempo, plenamente divino. Tudo foi feito por meio dele. Nele está a vida, e essa vida é luz para os homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram vencê-la. Desde a primeira página aparece o contraste entre luz e trevas, que atravessa todo o livro.
Versículos 6 a 8: um homem enviado por Deus
O hino é interrompido para apresentar João Batista. Ele não é a luz; veio para dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. A palavra “testemunho” é central em João: a fé nasce de quem viu e anuncia.
Versículos 9 a 14: a luz veio ao mundo e o Verbo se fez carne
A luz verdadeira veio ao mundo, mas o mundo não a reconheceu. Veio para os seus, o povo de Israel, e muitos não a receberam. Aos que a acolheram, porém, deu o poder de se tornarem filhos de Deus. Essa filiação não vem do sangue nem da vontade humana: é nascimento que vem de Deus.
Então chega o ponto alto: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). “Carne” indica a condição humana inteira, frágil e mortal. “Habitou” traduz um verbo que lembra a tenda, o lugar da presença de Deus no meio de Israel no deserto (Ex 40,34). Agora a presença de Deus tem rosto humano. E os discípulos contemplaram a sua glória, cheia de graça e de verdade.
Versículos 15 a 18: graça sobre graça
João Batista reconhece que aquele que vem depois dele existia antes dele. Da plenitude de Cristo todos recebemos graça sobre graça. A Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Não se trata de desprezar a Lei, mas de reconhecer o seu cumprimento. Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está junto do Pai, é quem o deu a conhecer. Quem quer saber como Deus é, olha para Jesus.
Versículos 19 a 28: o testemunho de João Batista
Sacerdotes e levitas vêm de Jerusalém perguntar quem é João. Ele nega ser o Messias, nega ser Elias e nega ser “o Profeta” esperado (Dt 18,15). Apresenta-se apenas como a voz que clama no deserto, citando Isaías 40,3. Diz que batiza com água, mas que no meio deles está alguém de quem não é digno de desatar a correia da sandália, tarefa própria de um escravo. A cena acontece em Betânia, do outro lado do Jordão, lugar diferente da Betânia de Lázaro.
Versículos 29 a 34: eis o Cordeiro de Deus
No dia seguinte, ao ver Jesus, João exclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). A imagem lembra o cordeiro pascal, cujo sangue marcou a libertação do Egito (Ex 12), e o servo de Isaías, levado como cordeiro ao matadouro (Is 53,7). João testemunha ter visto o Espírito descer como pomba e permanecer sobre Jesus. Por isso o reconhece como aquele que batiza no Espírito Santo e como o Filho de Deus. Este Evangelho não narra o batismo de Jesus em detalhe, como fazem os outros (veja Marcos 1), mas o pressupõe.
Versículos 35 a 42: os primeiros discípulos
Dois discípulos do Batista ouvem suas palavras e seguem Jesus. Ele pergunta: “Que procurais?”. Eles respondem com outra pergunta: onde moras? Jesus diz: vinde e vede. Ficam com ele aquele dia; o texto guarda até a hora, cerca das quatro da tarde, como quem se lembra de um encontro decisivo. Um deles é André, que logo leva o irmão, Simão, a Jesus. Jesus olha para Simão e lhe dá um novo nome: Cefas, que quer dizer Pedro, pedra. Na Bíblia, receber um nome novo significa receber uma missão.
Versículos 43 a 51: Filipe e Natanael
Jesus chama Filipe, que vai buscar Natanael. Este duvida: pode vir algo de bom de Nazaré? Filipe repete o convite: vem e vê. Jesus diz que Natanael é um israelita sem falsidade e que o viu debaixo da figueira. Natanael reconhece nele o Filho de Deus e o Rei de Israel. Jesus promete coisas maiores: os discípulos verão o céu aberto e os anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem. É uma alusão à escada que Jacó viu em sonho (Gn 28,12). Jesus é a ligação definitiva entre o céu e a terra. A tradição costuma identificar Natanael com o apóstolo Bartolomeu, embora o texto não diga isso.
O que João 1 ensina para a fé católica?
João 1 é uma das bases bíblicas da fé na divindade de Cristo e na Encarnação. O Catecismo explica que, retomando a expressão de São João sobre o Verbo que se fez carne, a Igreja chama Encarnação ao fato de o Filho de Deus ter assumido uma natureza humana para nela realizar a nossa salvação (CIC n. 461). O Credo professa isso quando diz que Jesus é “Deus de Deus, luz da luz”.
O Prólogo é proclamado na Missa do dia de Natal: a Igreja celebra não só o nascimento de uma criança, mas o Verbo eterno que entrou na história. As palavras do Batista também estão na Missa: antes da comunhão, o sacerdote apresenta a hóstia dizendo “Eis o Cordeiro de Deus”. O capítulo ainda mostra a fé como relação pessoal: ser filho de Deus é dom recebido de quem acolhe Jesus, e o seguimento começa com um convite simples, vinde e vede.
Reflexão para hoje
A primeira pergunta de Jesus neste Evangelho é dirigida a cada leitor: que procuras? Muita gente vive correndo atrás de segurança, reconhecimento ou paz e nem sempre sabe dar nome ao que busca. Jesus não começa com uma lista de exigências. Ele convida para estar com ele. A fé cresce assim, no tempo passado ao lado do Senhor, na oração, na Missa, na leitura do Evangelho.
O Verbo se fez carne. Isso quer dizer que Deus não está distante da sua vida concreta: da cozinha, do trânsito, do hospital, da conta para pagar. Ele quis conhecer a fragilidade humana por dentro. Nenhuma situação sua é estranha a ele.
André e Filipe mostram também o jeito mais simples de evangelizar: contar o que encontrou e levar alguém até Jesus. Não é preciso ter todas as respostas. Basta dizer, como Filipe disse a quem duvidava: vem e vê.
Para rezar com João 1
- O que eu procuro de verdade quando procuro Jesus?
- Em que situação da minha vida eu preciso lembrar que Deus se fez próximo?
- Quem eu poderia, com simplicidade, convidar a conhecer Jesus?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, Verbo eterno do Pai, que vieste morar entre nós, ilumina as minhas trevas. Quero acolher-te e viver como filho de Deus. Ensina-me a ficar contigo e a levar outros até ti. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica; Concílio Vaticano II, Constituição Dei Verbum.
Perguntas sobre João 1
Quem é o Verbo em João 1?
O que significa “Cordeiro de Deus”?
Quando João 1 é lido na Missa?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.