João 19 narra a condenação, a crucifixão, a morte e o sepultamento de Jesus. Pilatos o apresenta ferido e coroado de espinhos, depois o entrega para ser crucificado. Aos pés da cruz, Jesus confia sua Mãe ao discípulo amado e o discípulo à sua Mãe. Ele morre dizendo “Está consumado”, e do seu lado aberto saem sangue e água.
Contexto de João 19
O capítulo continua o julgamento diante de Pilatos iniciado em João 18. Segundo a cronologia de João, Jesus é condenado no dia da Preparação da Páscoa, perto da hora em que os cordeiros pascais eram imolados no Templo. Os outros Evangelhos situam a Última Ceia como ceia pascal; os estudiosos discutem como harmonizar as duas cronologias. Para João, o sentido é claro: Jesus é o verdadeiro Cordeiro pascal, como o Batista anunciou (João 1). A crucifixão era o castigo romano mais cruel e humilhante, reservado a escravos e rebeldes.
Explicação de João 19
Versículos 1 a 3: flagelado e coroado de espinhos
Pilatos manda flagelar Jesus. Os soldados trançam uma coroa de espinhos, colocam-na na cabeça dele, vestem-no com um manto de púrpura e zombam: salve, rei dos judeus. E lhe dão bofetadas. A zombaria diz, sem querer, a verdade: ele é rei, mas um rei que reina pelo amor sofrido.
Versículos 4 a 7: eis o homem
Pilatos apresenta Jesus ao povo, com a coroa e o manto, e diz: eis o homem. Talvez quisesse provocar compaixão. Os chefes e guardas gritam: crucifica-o. Pilatos repete que não encontra culpa nele. Eles respondem que, segundo a sua lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus. Na frase de Pilatos, a Igreja contempla o homem verdadeiro, desfigurado pelo pecado do mundo, em quem toda a humanidade sofredora se reconhece.
Versículos 8 a 12: de onde és tu?
Pilatos fica com mais medo e pergunta a Jesus de onde ele é. Jesus se cala. Pilatos lembra que tem poder para soltá-lo ou crucificá-lo. Jesus responde que ele não teria nenhum poder se não lhe fosse dado do alto. Pilatos procura soltá-lo, mas os acusadores o pressionam: se soltares este homem, não és amigo de César. A ameaça política vence a consciência.
Versículos 13 a 16a: eis o vosso rei
Pilatos senta-se no tribunal, num lugar chamado Pavimento, em hebraico Gábata. Era o dia da Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Ele diz: eis o vosso rei. Gritam que seja crucificado. Pilatos pergunta se vai crucificar o rei deles, e os chefes dos sacerdotes respondem que não têm outro rei senão César. Então Pilatos o entrega para ser crucificado.
Versículos 16b a 22: a crucifixão e o letreiro
Jesus sai carregando ele mesmo a cruz até o lugar chamado Calvário, em hebraico Gólgota, que significa lugar da caveira. Ali o crucificam, com outros dois, um de cada lado. Pilatos manda colocar na cruz um letreiro: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus, de onde vem a sigla INRI. Estava escrito em hebraico, latim e grego, as línguas da religião, do poder e da cultura. Os chefes pedem que mude o texto, e Pilatos recusa: o que escrevi, escrevi. Sem querer, ele proclama a realeza de Jesus para o mundo inteiro.
Versículos 23 a 24: a túnica sem costura
Os soldados dividem as vestes de Jesus em quatro partes. A túnica era sem costura, tecida de alto a baixo numa só peça. Decidem não rasgá-la e a sorteiam. O evangelista vê nisso o cumprimento do Salmo 22,19. Muitos autores cristãos viram na túnica inteira um símbolo da unidade da Igreja, que não deve ser rasgada.
Versículos 25 a 27: eis a tua mãe
Junto à cruz estão a Mãe de Jesus, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena. Vendo a Mãe e, perto dela, o discípulo que amava, Jesus diz à Mãe: Mulher, eis o teu filho. E ao discípulo: “Eis a tua mãe” (Jo 19,27). Desde aquela hora, o discípulo a recebeu em sua casa. “Mulher” é o mesmo título usado em Caná (João 2); agora chegou a hora. Maria, que estava presente no primeiro sinal, está presente na hora da glória.
Versículos 28 a 30: está consumado
Sabendo que tudo estava cumprido, Jesus diz: tenho sede, para que se cumprisse a Escritura (Sl 69,22). Oferecem-lhe uma esponja com vinagre num ramo de hissopo, a planta usada para marcar as portas com o sangue do cordeiro na primeira Páscoa (Ex 12,22). Jesus toma o vinagre e diz: está consumado. Inclinando a cabeça, entrega o espírito. “Consumado” significa levado à perfeição: a obra do Pai está completa. E a expressão “entregou o espírito” sugere também o dom do Espírito que brota da cruz.
Versículos 31 a 37: sangue e água
Como era a Preparação e o sábado seguinte era solene, as autoridades judaicas pedem que quebrem as pernas dos crucificados para apressar a morte e retirar os corpos. Os soldados quebram as pernas dos outros dois, mas, vendo Jesus já morto, não quebram as dele. Um soldado transpassa o seu lado com uma lança, e logo sai sangue e água. O evangelista insiste que viu e dá testemunho verdadeiro, para que creiamos. Cita duas Escrituras: nenhum osso lhe será quebrado, como prescrito para o cordeiro pascal (Ex 12,46), e olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10).
Versículos 38 a 42: o sepultamento
José de Arimateia, discípulo às escondidas por medo, pede a Pilatos o corpo de Jesus. Nicodemos, aquele que tinha ido de noite (João 3), traz cerca de cem libras de mirra e aloés, quantidade digna de um rei. Envolvem o corpo em faixas de linho com os aromas, como era costume entre os judeus. Perto dali havia um jardim e um túmulo novo, onde ninguém tinha sido sepultado. Ali colocam Jesus, por causa da Preparação. Os discípulos que tinham medo agora se expõem.
O que João 19 ensina para a fé católica?
O Catecismo vê no sangue e na água que saem do lado de Cristo os sinais do Batismo e da Eucaristia, sacramentos da vida nova: foi na sua Páscoa que Cristo abriu a todos os homens as fontes do Batismo (CIC n. 1225). O Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, recorda que do lado de Cristo adormecido na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja. Desse lado aberto nasce também a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
Ao ler a Paixão, a Igreja recorda também que a responsabilidade pela morte de Jesus não pode ser atribuída indistintamente a todos os judeus daquele tempo nem aos judeus de hoje (Nostra Aetate, n. 4). Foram algumas autoridades e alguns grupos que pressionaram Pilatos, e o próprio Evangelho mostra judeus fiéis junto à cruz e no sepultamento. A fé cristã acrescenta que foram os nossos pecados que levaram Cristo à cruz.
As palavras “eis a tua mãe” estão na base da fé na maternidade espiritual de Maria. No discípulo amado, a Igreja vê todos os discípulos que recebem Maria como mãe. Este capítulo é proclamado na Sexta-feira Santa e meditado na Via-Sacra e nas sete dores de Maria.
Reflexão para hoje
Eis o homem. Quando olhamos para Jesus ferido, vemos também tantos rostos de hoje: doentes em corredores de hospital, presos esquecidos, vítimas de violência, idosos abandonados. Quem contempla a cruz aprende a reconhecer Cristo nesses rostos.
Pilatos sabia que Jesus era inocente e, mesmo assim, cedeu à pressão. Todos conhecemos essa tentação: fazer o errado para não perder o cargo, a imagem ou a amizade. A cruz pede coragem de consciência nas pequenas e grandes decisões.
Na hora mais dura, Jesus pensa na Mãe e no amigo, e os entrega um ao outro. O sofrimento não fechou o seu coração. Quem cuida de alguém enquanto também sofre, como tantas mães e esposas, vive esse mistério. E todos podemos, como o discípulo, receber Maria em nossa casa.
Para rezar com João 19
- Em que rostos sofredores eu posso reconhecer Jesus hoje?
- Já cedi à pressão, como Pilatos, contra a minha consciência?
- Recebo Maria em minha casa, como o discípulo amado?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus crucificado, que amaste até o fim e entregaste o teu espírito, eu te adoro e te agradeço. Que o sangue e a água do teu lado me purifiquem e me alimentem. Obrigado por me dares a tua Mãe. Maria, recebo-te em minha casa. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium e Declaração Nostra Aetate.
Perguntas sobre João 19
O que significa “está consumado”?
O que simbolizam o sangue e a água do lado de Jesus?
O que significa “eis a tua mãe” em João 19?
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