João 17 é a longa oração de Jesus ao Pai no fim da Última Ceia, chamada pela tradição de oração sacerdotal. Jesus reza pela sua glorificação, pelos discípulos que ficam no mundo e por todos os que crerão por meio da palavra deles. O pedido central é a unidade: que todos sejam um, como o Pai e o Filho são um.
Contexto de João 17
Depois de falar aos discípulos nos capítulos 13 a 16, Jesus ergue os olhos ao céu e fala com o Pai. Os discípulos escutam a oração, e nós com eles. Logo depois, no capítulo 18, Jesus sairá para o jardim onde será preso. Esta oração é, portanto, como a ponte entre a Ceia e a cruz. Os outros Evangelhos narram a oração de Jesus no Getsêmani (Marcos 14); João oferece esta oração de entrega confiante, em que a cruz aparece como glorificação.
Explicação de João 17
Versículos 1 a 5: Pai, chegou a hora
Jesus começa: Pai, chegou a hora; glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique. A hora anunciada desde Caná (João 2) chegou. O Pai deu ao Filho poder sobre todos, para que ele dê a vida eterna a todos os que lhe foram dados. E Jesus define a vida eterna: “que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste” (Jo 17,3). Na Bíblia, conhecer não é só saber; é ter intimidade, comunhão de vida. Jesus glorificou o Pai na terra, levando a termo a obra recebida, e pede agora a glória que tinha junto do Pai antes que o mundo existisse.
Versículos 6 a 8: manifestei o teu nome
Jesus apresenta ao Pai os discípulos. Eles eram do Pai, e o Pai os confiou ao Filho. Jesus manifestou-lhes o nome de Deus, isto é, quem Deus é. Eles guardaram a palavra e reconheceram que tudo vem do Pai, e creram que Jesus foi enviado por ele.
Versículos 9 a 19: guarda-os no teu nome
Jesus reza pelos discípulos. Eles ficarão no mundo, enquanto ele vai para o Pai. Pede: Pai santo, guarda-os no teu nome, para que sejam um como nós. Enquanto estava com eles, ele os guardou, e nenhum se perdeu, a não ser o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura, referência a Judas.
Jesus não pede que o Pai os tire do mundo, mas que os guarde do Maligno. Os discípulos estão no mundo, mas não são do mundo. Por fim, pede: santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. “Santificar” ou “consagrar” significa separar para Deus e para uma missão. Como o Pai enviou Jesus ao mundo, Jesus envia os discípulos. E ele mesmo se consagra por eles, isto é, oferece a própria vida como um sacrifício, para que também eles sejam consagrados na verdade.
Versículos 20 a 23: que todos sejam um
A oração se abre para o futuro: Jesus reza não só pelos discípulos daquela noite, mas por todos os que crerão por meio da palavra deles. Ou seja, reza por nós. O pedido é a unidade: que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti. O modelo da unidade da Igreja é a própria comunhão da Trindade. E essa unidade tem um objetivo missionário: para que o mundo creia que o Pai enviou Jesus. Uma comunidade dividida torna difícil o anúncio; uma comunidade unida no amor é sinal visível de Deus.
Versículos 24 a 26: que estejam onde eu estou
Jesus expressa um desejo: que os que o Pai lhe deu estejam com ele onde ele estiver, para contemplarem a sua glória. É a esperança do céu. O mundo não conheceu o Pai, mas Jesus o conheceu e os discípulos reconheceram que ele foi enviado. Jesus termina dizendo que deu a conhecer o nome do Pai e continuará a fazê-lo, para que o amor com que o Pai o amou esteja neles, e ele mesmo esteja neles.
O que João 17 ensina para a fé católica?
O Catecismo dedica alguns números a esta oração. Ensina que, ao chegar a sua Hora, Jesus ora ao Pai, e que a tradição cristã a chama, com razão, de oração sacerdotal de Jesus: ela é inseparável do seu sacrifício, da sua passagem para o Pai (CIC n. 2746 e 2747). Jesus é o sacerdote que se oferece e intercede pelos seus.
O pedido pela unidade fundamenta o compromisso da Igreja com a comunhão e com o ecumenismo. O Catecismo afirma que Cristo concedeu a unidade à sua Igreja desde o princípio, e que a Igreja deve rezar e trabalhar para mantê-la, reforçá-la e aperfeiçoá-la (CIC n. 820). O Concílio Vaticano II, no decreto Unitatis Redintegratio, retoma esse desejo de Cristo. No calendário romano geral, a oração sacerdotal é proclamada em partes no 7º Domingo da Páscoa, nos três anos do ciclo. No Brasil, onde nesse domingo se celebra a Ascensão do Senhor, ela aparece nas Missas dos dias de semana da 7ª semana da Páscoa.
Reflexão para hoje
Pouco antes de ser preso, Jesus rezou por você. Isso muda o jeito de olhar a própria vida. Mesmo nos dias em que você não consegue rezar, há alguém que intercede por você junto do Pai.
Jesus pediu que fôssemos guardados do Maligno, não que fôssemos tirados do mundo. A santidade não exige fugir do trabalho, da cidade, das redes, da política. Exige estar presente nesses lugares sem perder a pertença a Deus. Um cristão no escritório, na fábrica ou na escola é alguém consagrado ali.
A unidade começa pequena. Antes das grandes questões entre as igrejas, há divisões em casa, na família estendida, na paróquia. Cada reconciliação, cada esforço para escutar quem pensa diferente, é uma forma de responder à oração de Jesus.
Para rezar com João 17
- Sei que Jesus reza por mim junto do Pai?
- Como vivo a minha fé no ambiente em que estou, sem fugir dele?
- Onde posso ser instrumento de unidade nesta semana?
Sugestão de oração:
Pai santo, guarda-me no teu nome, como Jesus te pediu. Consagra-me na verdade da tua palavra. Faze de mim um construtor de unidade na minha casa e na tua Igreja, para que o mundo creia que enviaste o teu Filho. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Concílio Vaticano II, Decreto Unitatis Redintegratio.
Perguntas sobre João 17
Por que João 17 é chamado de oração sacerdotal?
O que é a vida eterna segundo João 17,3?
O que significa “que todos sejam um”?
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