Efésios 4 começa a parte prática da carta. Paulo pede que os cristãos vivam de modo digno da vocação que receberam, guardando a unidade da Igreja: um só Corpo, um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só Batismo. Cristo distribui dons para edificar o seu Corpo. Por fim, o capítulo descreve como deixar o homem velho e revestir-se do homem novo, com conselhos concretos sobre a verdade, a raiva e o perdão.
Contexto de Efésios 4
Os capítulos 1 a 3 contemplaram o plano de Deus: a escolha em Cristo, a salvação pela graça e a Igreja formada por judeus e pagãos. A partir do capítulo 4, a carta tira as consequências para a vida. O tema que liga tudo é a unidade. Se Cristo fez de todos um só Corpo, os cristãos precisam viver como membros desse Corpo, na comunidade e na vida diária.
Explicação de Efésios 4
Versículos 1 a 6: a unidade do Espírito
Paulo, prisioneiro no Senhor, exorta os cristãos a andarem de modo digno da vocação a que foram chamados. Ele aponta as atitudes que tornam possível a vida em comum: humildade, mansidão, paciência, suportando-se uns aos outros com amor. E pede que se esforcem para guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. A unidade é dom de Deus, mas precisa ser guardada com esforço.
Então vem uma lista de sete elementos: um só Corpo e um só Espírito, uma só esperança, um só Senhor, uma só fé, um só Batismo, um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, age por meio de todos e está em todos. A lista tem estrutura trinitária: o Espírito, o Senhor Jesus e o Pai. A unidade da Igreja reflete a unidade do próprio Deus.
Versículos 7 a 10: os dons de Cristo
Unidade não significa que todos são iguais em tudo. A cada um foi dada a graça segundo a medida do dom de Cristo. O autor cita o Salmo 68, que fala de alguém que sobe às alturas, leva cativos e distribui dons (Sl 68,19, numa forma próxima de antigas traduções e interpretações judaicas). E comenta: se Cristo subiu, é porque antes desceu às regiões inferiores da terra. Essa descida é entendida de modos diferentes: a Encarnação, a sepultura ou a descida à mansão dos mortos. Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima dos céus, para plenificar todas as coisas.
Versículos 11 a 16: edificar o Corpo
Cristo deu a uns ser apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e mestres. Esses ministérios existem para preparar os fiéis para o serviço e para edificar o Corpo de Cristo. Os ministros não fazem tudo sozinhos; eles capacitam todos os batizados para a missão.
O objetivo é chegar à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo. Então os cristãos não serão mais como crianças, levadas por qualquer vento de doutrina e enganadas pela astúcia de quem quer desviar. Ao contrário, praticando a verdade no amor, crescerão em tudo em direção a Cristo, que é a Cabeça. Dele, o corpo inteiro, bem articulado, recebe crescimento, e cada parte, fazendo sua função, ajuda a edificar o todo no amor.
Versículos 17 a 24: o homem velho e o homem novo
O autor pede que os cristãos não vivam mais como os pagãos, na futilidade dos pensamentos. Descreve uma mente obscurecida, afastada da vida de Deus pela ignorância e pela dureza do coração, que leva à insensibilidade, à devassidão e à ganância. Mas não foi assim que eles aprenderam Cristo.
A vida cristã é descrita como troca de roupa: despojar-se do homem velho, que se corrompe pelos desejos enganosos, renovar-se no espírito da mente e revestir-se do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade da verdade. A imagem lembra o Batismo, quando o cristão é revestido de Cristo. Mas a mudança precisa ser renovada a cada dia.
Versículos 25 a 32: conselhos para a vida nova
Aqui o capítulo fica muito concreto. Primeiro, abandonar a mentira e falar a verdade ao próximo, porque somos membros uns dos outros. Depois, sobre a raiva: “Irai-vos, mas não pequeis” (Ef 4,26), citando o Salmo 4,5. A raiva, como emoção, pode surgir, mas não deve virar pecado. E o conselho prático: que o sol não se ponha sobre a vossa ira, para não dar lugar ao diabo. Raiva guardada vira rancor.
Quem roubava não roube mais, mas trabalhe com as próprias mãos para ter o que repartir com os necessitados. O trabalho não é só para o próprio sustento, mas também para a partilha. Nenhuma palavra má saia da boca, apenas a que edifica e faz bem a quem ouve. E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, com o qual fostes selados para o dia da redenção. Nossos pecados contra os irmãos ferem o próprio Espírito que habita na Igreja.
Por fim, o autor pede que se afastem toda amargura, irritação, cólera, gritaria, insulto e toda maldade. E conclui: sejam bondosos e compassivos uns com os outros, perdoando-se mutuamente, como Deus os perdoou em Cristo. O perdão que damos nasce do perdão que recebemos.
O que Efésios 4 ensina para a fé católica?
Efésios 4,1-6 é uma das bases bíblicas da doutrina sobre a unidade da Igreja. O Catecismo cita Efésios 4,3 ao explicar que a Igreja, desde a origem, é una, mas com grande diversidade de dons, que deve ser vivida no vínculo da paz (CIC n. 814). Por isso a Igreja professa no Credo que é una e trabalha pela unidade de todos os cristãos.
A expressão um só Batismo também está no Credo: professamos um só Batismo para a remissão dos pecados. O Batismo não se repete, porque marca a pessoa para sempre como membro de Cristo.
Os versículos 11 e 12 mostram a Igreja como corpo com ministérios diversos. A Igreja ensina que os ministros ordenados servem ao povo de Deus, e que todos os batizados participam da missão. E os conselhos sobre a ira são retomados na moral cristã. O site tem um texto sobre o pecado da ira.
Reflexão para hoje
O conselho de não deixar o sol se pôr sobre a raiva é sabedoria pura para a vida em família. Casais que vão dormir sem se falar, irmãos que passam anos sem conversar, pais e filhos que acumulam mágoas: muitas vezes tudo começou com uma raiva que não foi resolvida no mesmo dia. Uma conversa sincera, um pedido de desculpas ou um gesto simples podem impedir que a ferida cresça.
A ideia de trabalhar para ter o que repartir também muda a visão do trabalho. O salário não serve apenas para nós; parte dele pode sustentar quem precisa. E a regra sobre as palavras vale para conversas, grupos de mensagens e redes sociais: antes de falar ou postar, perguntar se aquilo edifica.
Por fim, cada um tem um dom para a edificação do Corpo. Na paróquia, ninguém é apenas espectador. Pode ser cantar, limpar, acolher, visitar doentes, ensinar. A Igreja cresce quando cada parte faz a sua função.
Para rezar com Efésios 4
- Há alguma raiva que eu guardo há dias, meses ou anos?
- Minhas palavras costumam edificar ou ferir as pessoas ao meu redor?
- Qual dom eu recebi de Deus e como posso colocá-lo a serviço da Igreja?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, que fizeste de nós um só Corpo, guarda-me na unidade do teu Espírito. Tira do meu coração a amargura e o rancor. Ensina-me a falar a verdade com amor, a usar meus dons para o bem dos irmãos e a perdoar como tu me perdoaste. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 814; Símbolo Niceno-Constantinopolitano.
Perguntas sobre Efésios 4
O que significa um só Senhor, uma só fé, um só Batismo?
É pecado sentir raiva segundo Efésios 4?
O que é o homem velho e o homem novo?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.