Atos dos Apóstolos 28 conclui o livro. Depois do naufrágio, Paulo é acolhido na ilha de Malta, sai ileso da picada de uma víbora e cura o pai de Públio e muitos doentes. Em seguida, chega finalmente a Roma, onde os irmãos vêm ao seu encontro. Prisioneiro numa casa alugada, ele dialoga com os judeus da cidade e anuncia o Reino de Deus a todos, com coragem e sem impedimento.
Contexto de Atos dos Apóstolos 28
O capítulo continua a narrativa do naufrágio (Atos 27). A ilha onde os náufragos chegam é chamada Malta; a tradição e a maioria dos estudiosos a identificam com a atual ilha de Malta, embora alguns tenham proposto outras ilhas do Mediterrâneo. O livro começou com Jesus enviando os apóstolos como testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até os confins da terra (Atos 1,8). Agora, com Paulo em Roma, capital do Império, esse programa chega ao seu ponto simbólico. Paulo já tinha escrito aos cristãos de Roma (Romanos), o que mostra que a comunidade existia antes da sua chegada.
Explicação de Atos dos Apóstolos 28
Versículos 1 a 6: a víbora em Malta
Salvos, os náufragos descobrem que a ilha se chama Malta. Os nativos, que Lucas chama de bárbaros porque não falavam grego, tratam todos com uma bondade fora do comum: acendem uma fogueira por causa da chuva e do frio. Paulo junta um feixe de gravetos e, ao colocá-lo no fogo, uma víbora sai fugindo do calor e se prende à sua mão. Os nativos pensam que ele é um assassino: escapou do mar, mas a Justiça, que eles imaginavam como uma divindade vingadora, não o deixou viver. Paulo sacode o animal no fogo e não sofre mal algum. Eles esperam que inche ou caia morto. Depois de muito tempo, vendo que nada acontece, mudam de ideia e dizem que ele é um deus. O episódio lembra a promessa de Jesus aos discípulos sobre as serpentes (Mc 16,18; Lc 10,19). Lucas mostra, com leveza, como a opinião das pessoas muda depressa, enquanto Paulo continua o mesmo.
Versículos 7 a 10: a cura do pai de Públio
Perto dali havia terras de Públio, o principal da ilha, que acolhe os náufragos e os hospeda generosamente por três dias. O pai de Públio está de cama, com febre e disenteria. Paulo vai visitá-lo, reza, impõe-lhe as mãos e o cura. A ordem dos gestos é significativa: primeiro a oração, depois a imposição das mãos. Paulo não cura por poder próprio. Quando a notícia se espalha, os outros doentes da ilha vêm e são curados. Os habitantes cobrem os missionários de honras e, na partida, providenciam tudo o que é necessário para a viagem.
Versículos 11 a 16: a chegada a Roma
Três meses depois, terminado o inverno, partem num navio de Alexandria que tinha passado a estação na ilha e levava como emblema os Dióscuros, Castor e Pólux, considerados protetores dos navegantes. Fazem escala em Siracusa, na Sicília, depois em Régio, e chegam a Putéoli, perto de Nápoles. Ali encontram irmãos na fé e ficam com eles sete dias. Lucas resume: e assim fomos para Roma. Os cristãos da cidade, sabendo da chegada, vêm ao encontro de Paulo até o Foro de Ápio e as Três Tabernas, lugares na Via Ápia, a dezenas de quilômetros da capital. Ao vê-los, Paulo dá graças a Deus e se enche de coragem. Em Roma, recebe permissão para morar à parte, com um soldado que o vigia. O apóstolo que chegou acorrentado é acolhido como irmão.
Versículos 17 a 22: Paulo e os judeus de Roma
Três dias depois, Paulo convida os líderes judeus da cidade. Explica que, sem ter feito nada contra o povo ou os costumes dos pais, foi preso em Jerusalém e entregue aos romanos. Estes queriam soltá-lo, mas, diante da oposição dos judeus, ele foi obrigado a apelar a César, sem querer acusar a sua nação. É por causa da esperança de Israel que carrega esta corrente. Os líderes respondem que não receberam cartas da Judeia nem notícias contra ele. Desejam ouvi-lo, pois sabem que esse grupo encontra oposição em toda parte. Paulo continua a buscar primeiro o seu povo, como fez em todas as cidades.
Versículos 23 a 29: a palavra de Isaías
No dia marcado, muitos vão à casa onde Paulo está. Da manhã até a tarde, ele expõe o Reino de Deus e procura convencê-los a respeito de Jesus, a partir da Lei de Moisés e dos Profetas. Alguns se deixam convencer, outros não creem. Sem chegar a um acordo, começam a sair, e Paulo lhes recorda uma palavra do Espírito Santo pelo profeta Isaías (Is 6,9-10): o povo ouve, mas não entende; olha, mas não vê, porque o coração se endureceu. Jesus usou o mesmo texto ao falar das parábolas (Mt 13,14-15). Paulo conclui que a salvação de Deus é enviada aos pagãos, e eles a ouvirão. Isso não significa que Deus rejeitou Israel; o próprio Paulo ensina que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis (Rm 11,29). O versículo 29, que fala da saída dos judeus discutindo, não aparece em muitos manuscritos antigos, e por isso várias traduções o omitem ou o colocam em nota.
Versículos 30 e 31: o Reino anunciado sem impedimento
Paulo mora dois anos inteiros numa casa alugada e recebe todos os que vêm procurá-lo. Anuncia o Reino de Deus e ensina o que se refere ao Senhor Jesus Cristo com toda a coragem e sem nenhum impedimento. É assim que o livro termina. Lucas não narra o julgamento nem a morte de Paulo. A última palavra é sobre a Palavra, que não está acorrentada (2Tm 2,9).
O que Atos dos Apóstolos 28 ensina para a fé católica?
O final aberto do livro tem sentido teológico. A história dos Atos continua na vida da Igreja: depois de Pedro e Paulo, outros anunciam o Evangelho até os confins da terra. A tradição da Igreja recorda que Paulo, como Pedro, deu a vida por Cristo em Roma, e por isso celebramos juntos os dois apóstolos no dia 29 de junho (ver São Paulo, apóstolo dos gentios).
A cura do pai de Públio, com oração e imposição das mãos, mostra o cuidado da Igreja com os doentes, que continua de muitos modos, entre eles o sacramento da Unção dos Enfermos (ver a Unção dos Enfermos). E a hospitalidade dos nativos de Malta lembra que a bondade humana, mesmo antes de conhecer Cristo, prepara o caminho do Evangelho.
Por fim, o capítulo ensina a missão universal da Igreja. A salvação é oferecida a todos os povos, sem que Deus retire a sua fidelidade a Israel. O Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, convida a Igreja a ser sempre missionária, em saída (ver Evangelii Gaudium).
Reflexão para hoje
Paulo chegou a Roma de um jeito que ninguém planejaria: preso, depois de um naufrágio, carregando correntes. Mesmo assim, a promessa de Deus se cumpriu. Muitas vezes nossos caminhos também passam por desvios e perdas. Deus não abandona a sua palavra, ainda que ela se realize de modos inesperados.
Quando os irmãos de Roma foram ao seu encontro, Paulo deu graças e se encheu de coragem. Um simples gesto de presença pode reerguer quem está cansado. Visitar um doente, acompanhar alguém num velório, ir ao encontro de quem chega à comunidade: são formas concretas de viver Atos 28.
E a casa alugada de Paulo, aberta a todos, mostra que nenhuma situação impede totalmente o anúncio. Um idoso em casa, um doente no hospital, alguém com pouca liberdade de movimento também pode acolher, rezar e testemunhar. O livro dos Atos continua sendo escrito por nós.
Para rezar com Atos dos Apóstolos 28
- Em que desvio da minha vida Deus está, mesmo assim, cumprindo a sua promessa?
- Quem eu posso ir encontrar para dar coragem, como os irmãos de Roma?
- Como posso anunciar Jesus nas condições concretas em que vivo hoje?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, que conduziste Paulo até Roma através de tempestades e correntes, conduz também a minha vida. Faz de mim alguém que acolhe como os habitantes de Malta e que dá coragem como os irmãos de Roma. Que a tua Palavra não fique presa em mim, mas corra livre, e que eu continue, com a tua Igreja, a história dos Atos dos Apóstolos. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.
Perguntas sobre Atos dos Apóstolos 28
Por que o livro dos Atos termina sem contar a morte de Paulo?
O que aconteceu com Paulo e a víbora em Malta?
Quanto tempo Paulo ficou em Roma segundo Atos 28?
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