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Atos dos Apóstolos

Atos dos Apóstolos 14: Paulo e Barnabé em Listra

Leia Atos dos Apóstolos 14 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

Pentecostes: o Espírito Santo desce sobre Maria e os apóstolos reunidos no Cenáculo
Anthony van Dyck, Pentecostes, c. 1618–1620. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Atos dos Apóstolos 14 conclui a primeira viagem missionária de Paulo e Barnabé. Em Icônio, a pregação divide a cidade. Em Listra, depois da cura de um homem paralítico, a multidão confunde os missionários com deuses e quer oferecer-lhes sacrifícios. Pouco depois, Paulo é apedrejado e deixado como morto. Os dois voltam pelas mesmas cidades, fortalecem os discípulos, estabelecem presbíteros e retornam a Antioquia contando como Deus abriu aos pagãos a porta da fé.

Contexto de Atos dos Apóstolos 14

No capítulo anterior, Paulo e Barnabé foram expulsos de Antioquia da Pisídia e seguiram para Icônio (Atos 13). O capítulo se passa em Icônio e depois em Listra e Derbe, cidades da Licaônia (At 14,6), no planalto central da atual Turquia. Eram cidades do interior, onde a cultura grega convivia com tradições locais e com a língua licaônica. Em Listra, os missionários falam a uma multidão pagã sem ligação aparente com a sinagoga.

Paulo recordará mais tarde as perseguições sofridas em Antioquia, Icônio e Listra (2Tm 3,11). O capítulo termina preparando o Concílio de Jerusalém (Atos 15).

Explicação de Atos dos Apóstolos 14

Versículos 1 a 7: Icônio dividida

Em Icônio, Paulo e Barnabé entram na sinagoga e falam de tal maneira que uma grande multidão de judeus e gregos abraça a fé. Mas os judeus que não acreditam incitam os pagãos contra os irmãos. Mesmo assim, os missionários ficam ali bastante tempo, falando com coragem, confiantes no Senhor, que confirma a palavra da sua graça com sinais e prodígios.

A população da cidade se divide: uns ficam do lado dos judeus, outros dos apóstolos. Neste capítulo Lucas chama Paulo e Barnabé de apóstolos (versículos 4 e 14), no sentido de enviados, embora não pertençam aos Doze. Quando pagãos e judeus, com os seus chefes, planejam maltratá-los e apedrejá-los, eles percebem e fogem para Listra e Derbe e arredores, onde continuam a anunciar o Evangelho. Fugir da perseguição não é covardia; Jesus tinha orientado os discípulos a ir para outra cidade quando fossem perseguidos (Mt 10,23).

Versículos 8 a 10: a cura do paralítico em Listra

Em Listra havia um homem sem força nos pés, paralítico desde o nascimento, que nunca tinha andado. Ele escuta Paulo falar. Paulo fixa nele o olhar e, vendo que ele tem fé para ser salvo, diz em voz alta: levanta-te direito sobre os teus pés. O homem dá um salto e começa a andar. A cena lembra de perto a cura do coxo na Porta Formosa feita por Pedro (Atos 3). Lucas mostra Paulo realizando sinais como Pedro: o mesmo Senhor age por meio dos dois.

Versículos 11 a 13: confundidos com deuses

Vendo o que Paulo fez, a multidão grita na língua licaônica que os deuses desceram até eles em forma humana. Chamam Barnabé de Zeus e Paulo de Hermes, porque era Paulo quem tomava a palavra; na mitologia grega, Hermes era o mensageiro dos deuses. O sacerdote do templo de Zeus, que ficava na entrada da cidade, traz touros e coroas de flores até as portas e quer oferecer um sacrifício com a multidão.

Um conto antigo, narrado pelo poeta latino Ovídio, falava de Júpiter e Mercúrio, os nomes latinos de Zeus e Hermes, visitando a região vizinha da Frígia disfarçados de homens, e de como só um casal pobre, Filêmon e Báucis, os acolheu. Muitos estudiosos pensam que histórias desse tipo explicam a reação rápida da multidão: não queriam deixar de honrar os deuses, caso fossem eles. Ao que parece, Paulo e Barnabé não entendiam a língua local e só percebem o que acontece quando veem os preparativos.

Versículos 14 a 18: somos homens como vocês

Ao entender, Barnabé e Paulo rasgam as próprias vestes, gesto judaico de horror diante de uma blasfêmia, e correm para o meio da multidão gritando. Perguntam por que estão fazendo isso, pois eles também são homens, da mesma condição. Anunciam que os ouvintes devem abandonar essas coisas vãs e se converter ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe.

É o primeiro discurso de Atos dirigido a pagãos sem formação bíblica, e por isso Paulo não cita as Escrituras. Parte da criação. Deus, nas gerações passadas, deixou que as nações seguissem os seus caminhos, mas nunca deixou de dar testemunho de si mesmo: faz o bem, manda do céu as chuvas e as estações férteis, dá alimento e enche os corações de alegria. Mesmo com essas palavras, a muito custo conseguem impedir que a multidão lhes ofereça o sacrifício. Paulo desenvolverá essa ideia no discurso de Atenas (At 17,22-31) e na carta aos Romanos (Rm 1,19-20).

Versículos 19 e 20: Paulo apedrejado

Chegam então adversários vindos de Antioquia da Pisídia e de Icônio, que convencem a multidão. A mesma gente que queria adorar Paulo agora o apedreja e o arrasta para fora da cidade, pensando que está morto. A volubilidade da multidão é impressionante, e lembra a de Jerusalém entre o Domingo de Ramos e a Sexta-feira Santa. Paulo dirá mais tarde que foi apedrejado uma vez (2Cor 11,25).

Os discípulos se reúnem ao redor dele, e Paulo se levanta e volta para a cidade. No dia seguinte parte com Barnabé para Derbe. O apedrejamento de Estêvão, que Saulo aprovou, agora é sofrido pelo próprio Paulo. É provável que Timóteo, natural daquela região, tenha conhecido Paulo nessa viagem, já que o encontraremos em Listra mais tarde (At 16,1), mas o texto não o diz aqui.

Versículos 21 a 23: confirmar os discípulos e estabelecer presbíteros

Em Derbe anunciam o Evangelho e fazem muitos discípulos. Então tomam uma decisão corajosa: voltam pelas mesmas cidades onde tinham sido perseguidos, Listra, Icônio e Antioquia. O objetivo é fortalecer os discípulos e exortá-los a permanecer na fé, dizendo: "É preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus" (At 14,22).

Em cada Igreja, eles designam presbíteros, isto é, anciãos responsáveis pela comunidade, e, depois de orações e jejuns, os confiam ao Senhor em quem tinham acreditado. Os missionários não deixam comunidades soltas: organizam a vida da Igreja e garantem que haja quem cuide dela. A forma desse ministério se desenvolverá com o tempo, mas a palavra presbítero é a origem do termo que hoje designa o padre.

Versículos 24 a 28: o retorno a Antioquia

Atravessam a Pisídia, chegam à Panfília, anunciam a Palavra em Perge e descem a Atália, de onde navegam para Antioquia da Síria. Era ali que tinham sido confiados à graça de Deus para a obra que acabavam de realizar. Ao chegar, reúnem a Igreja e contam tudo o que Deus tinha feito com eles e como abriu aos pagãos a porta da fé. Notemos o sujeito da frase: não o que eles fizeram, mas o que Deus fez com eles. E permanecem bastante tempo com os discípulos.

O que Atos dos Apóstolos 14 ensina para a fé católica?

O discurso de Listra ensina que Deus pode ser conhecido a partir da criação. A chuva, as estações, o alimento e a alegria são testemunhos da sua bondade. A Igreja ensina que a razão humana pode chegar a conhecer a existência de Deus pelas coisas criadas, embora precise da revelação para conhecê-lo plenamente. Veja fé e razão na Igreja católica. Ao mesmo tempo, os missionários rejeitam com firmeza qualquer culto prestado a eles: a adoração é devida somente a Deus.

A designação de presbíteros mostra a Igreja organizada desde cedo, com ministros que presidem as comunidades em comunhão com os apóstolos. Isso está na raiz do sacramento da Ordem e da estrutura hierárquica da Igreja. E a frase sobre as tribulações lembra que a cruz faz parte do caminho cristão: não é sinal de que Deus nos abandonou, mas participação na paixão de Cristo que conduz ao Reino. Os versículos 21 a 27 são lidos no 5º Domingo da Páscoa do Ano C.

Reflexão para hoje

A multidão de Listra passou da adoração ao apedrejamento em pouco tempo. A opinião pública é instável, nas cidades antigas e nas redes sociais de hoje. Quem vive de aplausos sofre quando eles viram críticas. Paulo e Barnabé não se deixaram levar nem por uma coisa nem pela outra, porque buscavam a glória de Deus, e não a própria.

Também chama atenção a coragem de voltar. Paulo, recém-apedrejado, retorna às cidades onde foi perseguido para animar os irmãos. Às vezes Deus nos pede que voltemos a lugares difíceis, a uma família ferida, a um trabalho complicado, a uma comunidade com problemas, não para sofrer à toa, mas para fortalecer quem ficou.

E a frase sobre as tribulações é honesta. A fé não promete uma vida sem problemas. Promete que os problemas não têm a última palavra, e que por eles também se entra no Reino. Isso consola quem passa por doença, luto ou dificuldade financeira: o sofrimento vivido com Cristo não é perdido.

Para rezar com Atos dos Apóstolos 14

  • Busco mais o reconhecimento das pessoas ou a glória de Deus no que faço?
  • Há algum lugar ou relação difícil para onde Deus me pede que eu volte para fortalecer alguém?
  • Como estou vivendo as minhas tribulações: com revolta ou unido a Cristo?

Sugestão de oração:

Deus vivo, criador do céu e da terra, obrigado pela chuva, pelo alimento e pela alegria que nos dás. Livra-me da vaidade dos aplausos e do medo das críticas. Nas tribulações, fortalece a minha fé, para que eu permaneça contigo até entrar no teu Reino. Abençoa os padres que cuidam das nossas comunidades. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Ovídio, Metamorfoses, livro VIII.

Perguntas sobre Atos dos Apóstolos 14

Por que chamaram Paulo e Barnabé de deuses em Listra?

Depois que Paulo curou um homem paralítico de nascença, a multidão pensou que os deuses Zeus e Hermes tinham descido em forma humana. Paulo e Barnabé rasgaram as vestes e disseram que eram apenas homens.

O que significa é preciso passar por muitas tribulações?

É a exortação de Paulo e Barnabé aos discípulos em Atos 14,22. Ensina que as dificuldades fazem parte do caminho cristão e que, unidas a Cristo, conduzem ao Reino de Deus.

O que são os presbíteros de Atos 14?

Eram os anciãos escolhidos por Paulo e Barnabé para cuidar de cada comunidade, com oração e jejum. A palavra presbítero está na origem do termo que hoje designa o padre.

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