2 Coríntios 6 começa com um apelo urgente: não recebam em vão a graça de Deus, porque agora é o tempo favorável. Em seguida, Paulo descreve tudo o que sofreu como servo de Deus, abre o coração aos coríntios e os chama a não se misturarem com a idolatria, pois eles são o templo do Deus vivo.
Contexto de 2 Coríntios 6
O capítulo continua o apelo à reconciliação do final do capítulo 5. Os versículos 1 e 2 fazem parte da segunda leitura da Quarta-feira de Cinzas. Depois, Paulo apresenta suas credenciais de apóstolo, não com cartas de recomendação, mas com a própria vida.
O trecho de 6,14 a 7,1 tem um tom diferente do que vem antes e depois, e alguns estudiosos pensam que foi inserido de outro escrito. Outros acham que se encaixa bem no apelo de Paulo. A questão permanece aberta, mas o texto faz parte da carta que a Igreja recebeu.
Explicação de 2 Coríntios 6
Versículos 1 e 2: o tempo favorável
Como colaboradores de Deus, Paulo e seus companheiros exortam os coríntios a não receberem em vão a graça de Deus. É possível receber a graça e deixá-la sem fruto. Paulo cita Isaías 49,8, em que Deus promete ouvir o seu servo no tempo favorável e socorrê-lo no dia da salvação. E aplica ao presente: “Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação” (2Cor 6,2). Não é preciso esperar uma ocasião especial: o momento de acolher Deus é hoje.
Versículos 3 a 10: as credenciais do apóstolo
Paulo procura não dar motivo de escândalo a ninguém, para que o ministério não seja desacreditado. Ele se apresenta como servo de Deus por meio de uma longa lista. Primeiro, as provações: muita perseverança, tribulações, necessidades, angústias, açoites, prisões, tumultos, fadigas, noites sem dormir, jejuns. Os Atos dos Apóstolos narram várias dessas situações, como a prisão em Filipos (At 16,19 a 24).
Depois, as virtudes com que enfrentou tudo isso: pureza, conhecimento, paciência, bondade, o Espírito Santo, amor sincero, a palavra da verdade e o poder de Deus. As armas da justiça, na mão direita e na esquerda, lembram o soldado que ataca com uma mão e se protege com a outra.
Por fim, uma série de paradoxos. Considerados impostores, mas verdadeiros; desconhecidos, mas bem conhecidos; dados como mortos, mas vivos; tristes, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; como quem nada tem, mas possuindo tudo. Visto de fora, o apóstolo parece um fracassado. Visto com os olhos da fé, é rico em Deus.
Versículos 11 a 13: um coração aberto
Paulo muda o tom e fala com afeto. Ele diz que falou com toda franqueza e que o seu coração se abriu para os coríntios. Não há falta de espaço no coração dele para a comunidade. O aperto está no coração deles. Como um pai que fala aos filhos, ele pede: correspondam, abram também o coração.
Versículos 14 a 16a: não se unir à idolatria
Paulo pede que os coríntios não formem um jugo desigual com os que não creem. A imagem vem da agricultura: a Lei proibia arar a terra com um boi e um jumento juntos (Dt 22,10), pois não puxam no mesmo passo. Paulo faz uma série de perguntas: que relação pode haver entre a justiça e a iniquidade, entre a luz e as trevas, entre Cristo e Belial (nome usado para o espírito do mal), entre o templo de Deus e os ídolos?
Pelo contexto, Paulo pensa sobretudo na participação em cultos pagãos, muito presentes na vida de Corinto, como já tratou em 1 Coríntios 10. Ele não manda romper toda convivência com os não cristãos. Na Primeira Carta, diz até que o cônjuge cristão não deve abandonar o cônjuge que não crê, se este quiser continuar a vida em comum (1Cor 7,12 e 13). O alerta é contra alianças que levem a comprometer a fé.
Versículos 16b a 18: o templo do Deus vivo
Paulo afirma: nós somos o templo do Deus vivo. O Catecismo usa essa passagem ao falar da Igreja como templo do Espírito Santo (CIC n. 797). Em seguida, Paulo une várias promessas do Antigo Testamento. Deus habitará e caminhará no meio do seu povo e será o seu Deus (Lv 26,12). O povo deve sair do meio da impureza (Is 52,11). E Deus será Pai, e eles serão seus filhos e filhas, eco da promessa feita a Davi (2Sm 7,14). O Catecismo cita este último versículo ao falar da paternidade de Deus (CIC n. 270).
O que 2 Coríntios 6 ensina para a fé católica?
O capítulo ensina que a graça pede resposta. Deus oferece a salvação, mas a pessoa pode recebê-la em vão. Por isso a Igreja insiste na conversão contínua, especialmente na Quaresma, que começa justamente com este texto.
Ensina também que a Igreja é templo do Deus vivo. Cada batizado e toda a comunidade são morada de Deus. Essa dignidade pede coerência de vida e fidelidade ao único Deus.
Por fim, o retrato do apóstolo mostra a lógica do Evangelho. A verdadeira riqueza não está no sucesso aparente, mas na comunhão com Deus. Quem nada tem pode possuir tudo, se tem a Deus.
Reflexão para hoje
É comum adiar as decisões espirituais: vou me confessar quando tiver tempo, vou rezar mais quando a vida acalmar, vou me reconciliar com aquela pessoa um dia. Paulo diz: agora é o tempo favorável. Não amanhã, não depois. Hoje.
A lista dos paradoxos pode consolar quem vive situações difíceis. Há pais que trabalham muito e ganham pouco, mas enriquecem os filhos com valores. Há pessoas que passam por tristezas profundas, mas guardam uma alegria serena no fundo do coração. A fé permite ver a vida com outros olhos.
E o pedido de Paulo, abram o coração, vale para nossas relações. Às vezes nos fechamos depois de uma decepção. Paulo, que tinha motivos para se fechar, faz o contrário: abre o coração e pede reciprocidade. Para conviver bem em família e em comunidade, é preciso esse coração largo.
Para rezar com 2 Coríntios 6
- Que decisão espiritual estou adiando, quando Deus me diz que o tempo favorável é agora?
- Tenho recebido a graça de Deus com fruto ou em vão?
- Meu coração está aberto ou fechado para as pessoas que Deus colocou perto de mim?
Sugestão de oração:
Senhor, vós me dizeis que hoje é o dia da salvação. Não permitais que eu receba em vão a vossa graça. Fazei de mim um templo digno da vossa presença. Alargai o meu coração para acolher os irmãos, e dai-me a alegria de quem, mesmo nada tendo, possui tudo em vós. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 270 e 797.
Perguntas sobre 2 Coríntios 6
O que significa “agora é o tempo favorável”?
O que é o “jugo desigual” de 2 Coríntios 6,14?
O que quer dizer que somos “templo do Deus vivo”?
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