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A Igreja permite a cremação? O que diz a doutrina

Cremar é permitido, mas há regras claras: as cinzas vão para lugar sagrado, não se espalham nem ficam em casa. Entenda o porquê de cada orientação.

Atualizado em 8 min de leitura
A Igreja permite a cremação em obra de Andrea Mantegna
The lamentation over the dead Christ, Andrea Mantegna, between circa 1470 and circa 1474 date Q. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Sim, a Igreja Católica permite a cremação, desde que ela não seja escolhida por motivos contrários à fé cristã, como a negação da ressurreição. Mesmo assim, a Igreja recomenda com insistência o sepultamento do corpo. E, quando há cremação, as cinzas devem ser guardadas em lugar sagrado: não podem ser espalhadas, divididas nem conservadas em casa.

Essas orientações estão na instrução Ad resurgendum cum Christo, publicada em 2016 pela Congregação para a Doutrina da Fé, e no Código de Direito Canônico. Com a cremação cada vez mais comum no Brasil, muitas famílias têm dúvidas sinceras. Vamos por partes.

O que a Igreja diz sobre a cremação?

O Código de Direito Canônico afirma que a Igreja recomenda vivamente que se conserve o costume de sepultar os corpos dos defuntos, mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido escolhida por razões contrárias à doutrina cristã (CDC cân. 1176 §3). O Catecismo diz o mesmo de forma resumida: a Igreja permite a cremação, se ela não puser em causa a fé na ressurreição dos corpos (CIC 2301).

A instrução Ad resurgendum cum Christo retoma esse ensinamento e acrescenta regras práticas sobre as cinzas. O nome do documento vem de sua primeira frase em latim, "para ressuscitar com Cristo", e já indica o tema central: a nossa fé na ressurreição.

Um pouco de história

Durante muito tempo, a Igreja proibiu a cremação. Não porque Deus tenha dificuldade de ressuscitar um corpo cremado, mas porque, em certas épocas, a cremação era promovida justamente como forma de negar a ressurreição e a imortalidade da alma. Em 1963, o Santo Ofício publicou uma instrução que passou a admitir a cremação quando não houvesse essa intenção contrária à fé. O Código de 1983 incorporou esse critério.

Leia também: Por que os católicos rezam pelos mortos? Entenda a doutrina

Por que a Igreja prefere o sepultamento?

A preferência pelo sepultamento não é um detalhe cultural. Ela expressa a fé. A instrução apresenta várias razões:

  • Imitação de Cristo. Jesus foi sepultado e ressuscitou do túmulo. Sepultar os mortos é seguir o caminho do Senhor.
  • Fé na ressurreição da carne. O túmulo é como a semente lançada na terra à espera da ressurreição (cf. 1Cor 15,42-44).
  • Dignidade do corpo. O corpo do batizado foi templo do Espírito Santo. Merece respeito mesmo depois da morte.
  • Memória e oração. O túmulo é um lugar concreto onde a família e a comunidade rezam pelo falecido e mantêm viva a sua lembrança.
  • Obra de misericórdia. Enterrar os mortos é uma das obras de misericórdia corporais.

Ao mesmo tempo, a Igreja reconhece que razões práticas, como custo, falta de espaço em cemitérios, questões sanitárias ou distância, podem levar uma família a optar pela cremação. Nesses casos, a escolha é legítima, desde que se respeitem as orientações sobre as cinzas.

O que fazer com as cinzas segundo a Igreja?

Aqui está o ponto em que mais surgem dúvidas. A instrução Ad resurgendum cum Christo é clara:

O que a Igreja pedeO que a Igreja não permite
Guardar as cinzas em lugar sagrado: cemitério, columbário, igreja ou área destinada a isso pela autoridade da IgrejaConservar as cinzas em casa, como regra
Manter as cinzas reunidas, numa urna dignaDividir as cinzas entre familiares
Identificar o local para que a família possa rezarEspalhar as cinzas no mar, no ar, na terra ou em qualquer outro lugar
Tratar as cinzas com o mesmo respeito devido ao corpoTransformar as cinzas em joias, objetos de recordação ou outros produtos

A instrução prevê que, apenas em casos graves e excepcionais, ligados a condições culturais locais, o Ordinário do lugar, de acordo com a Conferência Episcopal, possa autorizar a conservação das cinzas em casa. Isso não é a regra, e a decisão cabe à autoridade da Igreja, não à família.

Em dezembro de 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé esclareceu dois pontos. Primeiro, as cinzas podem ser depositadas num lugar sagrado comum e permanente, definido pela autoridade da Igreja, com a identificação de cada pessoa para não se perder a sua memória. Segundo, a autoridade eclesiástica pode avaliar o pedido de uma família para conservar uma parte mínima das cinzas num lugar significativo para a história do falecido, desde que se afaste toda ideia panteísta, naturalista ou niilista e que o restante das cinzas fique em lugar sagrado. Continua não permitido espalhar as cinzas ou transformá-las em joias e objetos de recordação.

Por que não espalhar as cinzas?

Espalhar as cinzas pode parecer um gesto poético, mas a Igreja vê nele riscos sérios. Pode sugerir ideias que não são cristãs: que a pessoa se "dissolve" na natureza, que se funde com o universo ou que a morte é aniquilação. Além disso, apaga o lugar de memória e de oração. A família perde o túmulo onde poderia rezar, e a comunidade perde a lembrança concreta daquele irmão na fé.

Por que não guardar a urna em casa?

Guardar as cinzas em casa pode parecer uma forma de manter a pessoa por perto. Mas a Igreja lembra que o falecido pertence também à comunidade cristã, não só à família. Além disso, com o passar dos anos, as cinzas guardadas em casa correm o risco de ser esquecidas, mudadas de lugar ou tratadas sem o devido respeito, sobretudo quando as gerações mudam.

Leia também: Por que os padres católicos não se casam? Entenda o celibato

E se o falecido pediu que as cinzas fossem espalhadas?

É uma situação delicada e frequente. Algumas orientações:

  1. Converse com o padre o quanto antes. Cada caso tem nuances, e o sacerdote pode orientar a família com caridade.
  2. Entenda o motivo do pedido. Muitas vezes a pessoa pediu isso por desconhecer a orientação da Igreja, ou por motivos afetivos, como o amor ao mar ou a uma cidade. Não se trata, necessariamente, de rejeição da fé.
  3. Procure honrar a intenção de modo compatível com a fé. Por exemplo, depositar as cinzas num columbário de uma igreja próxima ao lugar que a pessoa amava.

A instrução também prevê que, quando o falecido tiver pedido claramente a cremação e a dispersão das cinzas por razões contrárias à fé cristã, as exéquias religiosas devem ser negadas. É o caso de quem fez essa escolha justamente como forma de negar a ressurreição. Esse discernimento cabe à autoridade da Igreja, o pároco e, em caso de dúvida, o bispo diocesano, e não à família.

Como ficam as exéquias quando há cremação?

A pessoa que será cremada tem direito às exéquias católicas, como qualquer fiel. Sempre que possível, é recomendável celebrar a despedida com o corpo presente, antes da cremação, com Missa ou celebração da Palavra. Depois, a urna pode ser levada ao local definitivo com uma oração. Converse com a paróquia sobre o melhor caminho. Veja também o artigo sobre as exéquias e o funeral católico.

Se a família já cremou um parente e mantém as cinzas em casa, não há motivo para desespero ou culpa paralisante. O caminho é buscar orientação na paróquia e providenciar, com calma, um lugar sagrado para a urna. Muitas igrejas e cemitérios católicos no Brasil já oferecem columbários.

Perguntas frequentes

Quem é cremado pode ressuscitar?

Sim. A ressurreição é obra do poder de Deus, que não depende do estado em que o corpo se encontra. A preferência pelo sepultamento é questão de sinal e de respeito, não de possibilidade.

Cremação é pecado?

Não, quando escolhida por motivos legítimos e respeitando as orientações da Igreja. Seria contrária à fé se fosse escolhida para negar a ressurreição ou a vida eterna.

Posso guardar uma pequena parte das cinzas num pingente?

Não. A Igreja não permite transformar as cinzas em joias ou objetos de recordação. Desde 2023, a autoridade eclesiástica pode autorizar, a pedido da família, que uma parte mínima das cinzas seja conservada num lugar significativo para a história do falecido, mas isso depende de permissão e não se estende a joias. Consulte o pároco ou a cúria diocesana.

Pode-se celebrar Missa com a urna presente?

As orientações práticas variam conforme a diocese, por isso converse com a paróquia. O ideal recomendado é celebrar as exéquias com o corpo presente, antes da cremação.

Para aprofundar

Fontes

Congregação para a Doutrina da Fé, instrução Ad resurgendum cum Christo sobre a sepultura dos defuntos e a conservação das cinzas em caso de cremação (2016). Dicastério para a Doutrina da Fé, resposta sobre a conservação das cinzas dos defuntos submetidos à cremação (2023). Código de Direito Canônico (cân. 1176 §3). Catecismo da Igreja Católica (CIC 2301). Bíblia Sagrada (tradução da CNBB). As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.