Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Casamento Católico

Casamento religioso com efeito civil: como fazer

Uma só cerimônia na igreja que também vale no civil: habilitação, testemunhas, prazo para registrar e cuidados com o cartório.

7 min de leitura
Casal diante do oficial de registro civil, gravura segundo pintura de Benjamin Vautier
Die Gartenlaube, various. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O casamento religioso com efeito civil é a celebração na igreja que também vale perante o Estado, sem uma segunda cerimônia no cartório. Pelo Código Civil (arts. 1.515 e 1.516), ele se equipara ao casamento civil quando os noivos fazem a habilitação no cartório e o casamento é registrado no prazo legal. Os efeitos civis contam desde a data da celebração.

Na prática, o casal resolve duas coisas em paralelo: o processo da paróquia (habilitação matrimonial, curso de noivos, proclamas) e o processo do cartório (habilitação civil). No dia, uma única celebração atende às duas exigências. Depois, o termo assinado na igreja vai para o registro civil.

O que diz a lei brasileira?

As regras estão no Código Civil de 2002 e na Lei de Registros Públicos (Lei 6.015/1973). Em linhas gerais:

  • Art. 1.515 do Código Civil: o casamento religioso que atende às exigências da lei para o casamento civil se equipara a este, desde que registrado. Uma vez registrado, produz efeitos a partir da data da celebração.
  • Art. 1.516: o registro exige os mesmos requisitos do casamento civil. Se houve habilitação prévia, o registro deve ser promovido em até 90 dias da celebração, por comunicação do celebrante ou de qualquer interessado. Passado esse prazo, é preciso fazer nova habilitação.
  • Art. 1.516, § 2º: o casamento religioso celebrado sem habilitação prévia também pode ser registrado a qualquer tempo, a pedido do casal, desde que façam a habilitação antes do registro.
  • Art. 1.516, § 3º: o registro é nulo se, antes dele, um dos dois tiver se casado no civil com outra pessoa.
  • Art. 1.532: a habilitação civil vale por 90 dias a partir da data em que o certificado é extraído.

A Lei 6.015/1973 também trata do assunto (arts. 71 a 75): os noivos habilitados podem pedir ao cartório a certidão para se casarem perante um ministro religioso; o termo da celebração religiosa é assinado pelo celebrante, pelos noivos e por duas testemunhas; e os efeitos civis contam desde a celebração.

Um ponto de atenção sobre os prazos

O art. 73 da Lei 6.015 fala em registro em 30 dias. Esse texto é anterior ao Código Civil de 2002, que fixou 90 dias no art. 1.516. Há, portanto, uma diferença entre os dois textos. Não arrisque: pergunte ao seu cartório qual prazo ele aplica e entregue a documentação o quanto antes depois da cerimônia.

Leia também: Músicas proibidas no casamento na igreja: o que vale

Como fazer o casamento religioso com efeito civil passo a passo?

A ordem exata muda de cidade para cidade, mas o caminho costuma ser este:

  1. Procure a paróquia primeiro. Converse sobre a data e informe que deseja o efeito civil. Pergunte se o padre ou diácono que vai celebrar já está acostumado a esse procedimento e o que a secretaria paroquial precisa receber.
  2. Dê entrada na habilitação civil no cartório. Procure o Cartório de Registro Civil da residência de um dos noivos e diga que o casamento será religioso com efeito civil. O cartório informa os documentos, as testemunhas exigidas e as taxas.
  3. Calcule o prazo de validade. Como a habilitação vale 90 dias (art. 1.532), combine com o cartório o melhor momento para pedir o certificado, de modo que ele esteja válido no dia da celebração.
  4. Entregue o certificado de habilitação à paróquia. A Legislação Complementar da CNBB ao cân. 1067 já inclui o comprovante de habilitação para o casamento civil entre os documentos do processo matrimonial. Muitas dioceses pedem esse comprovante sempre que possível.
  5. Faça a celebração. Depois do rito, o celebrante, os noivos e as testemunhas assinam o livro da paróquia e o termo para o registro civil.
  6. Leve o termo ao cartório. O registro pode ser promovido pelo celebrante ou por qualquer interessado. Em muitas paróquias, quem leva é o próprio casal. Combine antes quem fará isso, para não perder o prazo.
  7. Retire a certidão de casamento. Ela é o documento civil que prova o casamento. Confira nomes, datas e o regime de bens.

Documentos que costumam ser pedidos

Na Igreja, a lista básica vem da Legislação Complementar da CNBB ao cân. 1067: certidão de batismo expedida para fins de casamento (com data não anterior a seis meses), formulário da habilitação matrimonial, comprovante de habilitação civil e outros documentos que o bispo diocesano determinar. No cartório, a lista é definida pela lei e pelas normas locais. Pergunte nos dois lugares, porque cada um tem a sua.

E as testemunhas?

Para a Igreja, o casamento exige a presença do assistente (bispo, pároco ou quem recebeu delegação) e de duas testemunhas (cân. 1108). A Lei 6.015 também prevê que duas testemunhas assinem o termo religioso. Alguns sites de noivas falam em um número maior de testemunhas quando há efeito civil, mas não encontramos isso em norma. Confirme no cartório quantas testemunhas ele exige e se elas precisam ser as mesmas da habilitação.

Lembre que padrinhos e testemunhas não são a mesma coisa. Os padrinhos são um costume; as testemunhas são exigência do direito. Veja mais em Padrinhos de casamento na igreja.

Leia também: Padrinhos de casamento na Igreja: quantos e quem

Vale a pena fazer com efeito civil?

Para muitos casais, sim, porque resolve tudo em uma cerimônia só. Mas cada caso pede um olhar prático:

OpçãoComo funcionaCuidado principal
Religioso com efeito civil (habilitação antes)Habilitação no cartório, celebração na igreja, registro depoisValidade de 90 dias da habilitação e prazo para registrar
Civil antes, religioso depoisCasamento no cartório e, em outra data, na igrejaA paróquia pede a certidão de casamento civil
Religioso registrado depois (sem habilitação prévia)Celebração na igreja e habilitação posterior para registrarAté o registro, o casamento não tem efeitos civis

O terceiro caminho existe na lei (art. 1.516, § 2º), mas a Igreja tem cautela com casamentos que não possam ser reconhecidos civilmente. O cân. 1071, § 1, 2º, pede licença do Ordinário do lugar para assistir a um casamento que não possa ser reconhecido ou celebrado segundo a lei civil. Por isso, muitas paróquias preferem a habilitação civil antes da cerimônia.

O casamento continua sendo um sacramento

O efeito civil não muda nada no sacramento. Ele apenas faz com que o Estado reconheça a mesma celebração. Para a Igreja, o que torna o casamento válido é o consentimento livre dos noivos, expresso na forma canônica, diante do ministro e das testemunhas. O Catecismo lembra que o consentimento é o elemento indispensável que "faz o matrimônio" (CIC 1626).

Perguntas frequentes

Quanto tempo tenho para registrar o casamento religioso no cartório?

O Código Civil (art. 1.516, § 1º) fala em 90 dias da celebração, quando houve habilitação prévia. A Lei 6.015 ainda traz 30 dias no art. 73, então confirme com o seu cartório e registre o quanto antes.

O padre pode recusar o efeito civil?

A decisão sobre o procedimento é da paróquia, seguindo as normas da diocese. Muitas paróquias fazem casamentos com efeito civil; pergunte logo na primeira conversa como é feito ali.

Preciso ir ao cartório no dia do casamento?

Não. Vocês vão ao cartório antes, para a habilitação, e depois, para o registro. No dia, a cerimônia é só na igreja.

Se a habilitação vencer antes do casamento, o que acontece?

Será preciso fazer nova habilitação, porque ela vale 90 dias (art. 1.532). Por isso é bom alinhar as datas com o cartório e com a paróquia ao mesmo tempo.

Para aprofundar

Fontes

Este artigo se baseia em: Código Civil brasileiro (Lei 10.406/2002), arts. 1.515, 1.516 e 1.532; Lei de Registros Públicos (Lei 6.015/1973), arts. 71 a 75; Código de Direito Canônico (cân. 1067, 1071 e 1108); Legislação Complementar da CNBB ao Código de Direito Canônico (cân. 1067); Catecismo da Igreja Católica (§ 1626). Os prazos e documentos de cartório podem mudar: confirme sempre no Registro Civil da sua cidade.

As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.