Tempo Comum, 31ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Tiago

Tiago 5: a Unção dos Enfermos e a oração do justo

Leia Tiago 5 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Tiago Menor, apóstolo, de manto amarelo e azul, segurando um livro
El Greco, São Tiago Menor, c. 1610–1614. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Tiago 5 encerra a carta com uma denúncia forte contra os ricos que exploram os trabalhadores, um convite à paciência até a vinda do Senhor e conselhos sobre a oração em todas as situações da vida. É neste capítulo que está a passagem sobre os presbíteros que ungem o doente com óleo, na qual a Igreja reconhece o sacramento da Unção dos Enfermos.

Contexto de Tiago 5

O capítulo 4 terminou falando dos comerciantes que fazem planos sem pensar em Deus. Tiago agora se dirige aos ricos opressores, com uma linguagem que lembra os profetas Amós e Isaías. Depois, volta-se aos irmãos que sofrem, provavelmente trabalhadores pobres, e os anima a esperar com paciência. A carta termina sem saudações pessoais, com orientações práticas sobre a oração, a doença, o pecado e o cuidado com quem se afasta da verdade.

Explicação de Tiago 5

Versículos 1 a 6: o clamor dos trabalhadores

Tiago fala aos ricos: chorai e gritai por causa das desgraças que virão sobre vós. As riquezas apodreceram, as roupas foram comidas pela traça, o ouro e a prata enferrujaram. Ouro não enferruja de verdade; a imagem quer mostrar que a riqueza acumulada sem partilha perde o sentido. Essa ferrugem será testemunha contra eles e devorará suas carnes como fogo. Acumularam tesouros nos últimos dias, quando o tempo já é de prestar contas.

O versículo 4 é central: o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram vossos campos está clamando, e os gritos dos ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos. A Lei de Moisés já mandava pagar o diarista no mesmo dia, antes do pôr do sol (Dt 24,14-15). Reter o salário é uma injustiça que Deus escuta.

Tiago continua: vivestes na terra em luxo e prazeres, engordastes vossos corações para o dia da matança, como animais que comem sem saber que serão abatidos. Condenastes e matastes o justo, e ele não vos resiste. O justo pode ser o pobre oprimido em geral; alguns veem também uma alusão a Jesus, o Justo condenado.

Versículos 7 a 11: paciência até a vinda do Senhor

Aos irmãos que sofrem, Tiago pede paciência até a vinda do Senhor. Usa a imagem do agricultor, que espera o precioso fruto da terra, aguardando com paciência as chuvas do outono e da primavera. Na terra de Israel, as primeiras chuvas permitiam semear, e as últimas faziam o grão amadurecer. Assim também nós: fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima.

Não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados: o juiz já está à porta. O sofrimento pode nos tornar irritados com quem está ao lado; Tiago pede cuidado. Como exemplo de paciência no sofrimento, ele aponta os profetas, que falaram em nome do Senhor. Chamamos felizes os que perseveraram. Ouvistes falar da perseverança de Jó e vistes o fim que o Senhor lhe deu, porque o Senhor é cheio de compaixão e de misericórdia.

Versículo 12: não jurar

Acima de tudo, não jureis, nem pelo céu, nem pela terra, nem por qualquer outro juramento. Que o vosso sim seja sim, e o vosso não, não. É quase a mesma palavra de Jesus em Mt 5,34-37. Jurar a todo momento é sinal de que nossa palavra perdeu valor. A Igreja entende que isso não proíbe o juramento sério feito por motivo justo, como num tribunal, mas condena o uso leviano do nome de Deus.

Versículos 13 a 15: a oração e a unção dos enfermos

Tiago percorre as situações da vida: alguém de vós está sofrendo? Reze. Está alegre? Cante louvores. A oração acompanha tudo.

E então: alguém de vós está doente? Chame os presbíteros da Igreja, para que rezem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração feita com fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se tiver cometido pecados, serão perdoados (Tg 5,14-15).

Vale olhar cada elemento. Quem chama é o doente ou sua família. Quem vem são os presbíteros, os responsáveis pela comunidade, e não qualquer pessoa com dom de cura. Eles rezam sobre o doente, provavelmente impondo as mãos, e o ungem com óleo, que na época era usado também como remédio (veja Lc 10,34). Tudo é feito em nome do Senhor, isto é, com a autoridade de Cristo. Os efeitos são três: salvar, levantar e perdoar os pecados. Os dois primeiros verbos, no grego, podem indicar tanto a cura do corpo quanto a salvação e a ressurreição. Já em Mc 6,13 os apóstolos ungiam com óleo muitos doentes e os curavam.

Versículos 16 a 18: confessar e rezar uns pelos outros

Por isso, confessai os pecados uns aos outros e rezai uns pelos outros, para serdes curados. A oração fervorosa do justo tem muito poder. O texto fala de uma confissão feita no seio da comunidade, unida à oração de uns pelos outros. Na tradição, este versículo foi muitas vezes lido como uma raiz da prática de confessar os pecados, que encontra sua forma plena no sacramento da Penitência, celebrado com o sacerdote. É uma leitura tradicional, não uma definição: o Concílio de Trento ligou os versículos 14 e 15 à Unção dos Enfermos, e a Igreja fundamenta o sacramento da Penitência sobretudo nas palavras de Jesus ressuscitado aos apóstolos em Jo 20,22-23 (CIC 1485).

Como exemplo, Tiago cita Elias, um homem como nós. Rezou com insistência para que não chovesse, e não choveu sobre a terra durante três anos e seis meses. Rezou de novo, e o céu deu chuva e a terra produziu seu fruto. A história está em 1Rs 17 e 18, e a duração de três anos e meio aparece também em Lc 4,25. Conheça mais sobre o profeta Elias.

Versículos 19 e 20: reconduzir quem se desviou

A carta termina com um apelo: se alguém de vós se desviar da verdade e outro o reconduzir, saiba que quem faz um pecador voltar do seu caminho errado salvará a vida dele da morte e cobrirá uma multidão de pecados (veja 1Pd 4,8 e Pr 10,12). Tiago fecha a carta não com uma ameaça, mas com a missão de buscar quem se perdeu.

O que Tiago 5 ensina para a fé católica?

A passagem de Tg 5,14-15 é a principal base bíblica do sacramento da Unção dos Enfermos. O Catecismo cita este texto e explica que a Igreja apostólica já conhecia esse rito, que a Tradição reconheceu como um dos sete sacramentos (CIC 1510). Recorda o ensinamento do Concílio de Trento: esta santa unção foi instituída por Cristo como sacramento, insinuada no Evangelho de Marcos e promulgada por Tiago (CIC 1511). Também ensina que, pela santa Unção e pela oração dos presbíteros, toda a Igreja encomenda os doentes ao Senhor, para que os alivie e os salve (CIC 1499).

Só os sacerdotes, isto é, bispos e presbíteros, são ministros deste sacramento (CIC 1516). A graça própria da Unção é um dom do Espírito Santo que renova a confiança e a fé em Deus e fortalece contra o desânimo; e, se o doente cometeu pecados, eles lhe são perdoados (CIC 1520). A cura física pode acontecer, se for da vontade de Deus, mas o fruto principal é a força espiritual para viver a doença unido a Cristo.

A Unção não é só para quem está morrendo. Durante séculos ela foi dada sobretudo aos moribundos e ficou conhecida como Extrema-Unção, mas a Igreja lembra que se destina a quem começa a correr perigo por doença grave ou pela idade avançada, e pode ser repetida. Saiba mais em o que é a Unção dos Enfermos.

O exemplo de Elias é citado pelo Catecismo ao falar da oração dos profetas e da força da oração do justo (CIC 2582). E a denúncia dos versículos 1 a 6 está na base do ensinamento da Igreja sobre o salário justo: a injustiça contra o trabalhador está entre os pecados que, segundo a tradição catequética, bradam ao céu (CIC 1867).

Reflexão para hoje

Quando alguém da família adoece gravemente, muitas vezes se espera até o último momento para chamar o padre, com medo de assustar o doente. Tiago ensina outra coisa: chamar os presbíteros é um ato de fé e de cuidado, não um anúncio de morte. Antes de uma cirurgia séria, numa doença prolongada, na fragilidade da velhice, a Unção é um encontro com Cristo que fortalece. Converse com o padre da sua paróquia.

O capítulo também fala aos patrões e a todos nós como consumidores. Pagar com justiça e em dia a diarista, o pedreiro, o funcionário não é favor, é dever. O grito de quem foi lesado chega aos ouvidos de Deus.

E para quem sofre, há a paciência do agricultor. Ninguém faz a chuva cair antes do tempo. Esperar em Deus não é ficar parado, mas continuar semeando, rezando e confiando. A última palavra da carta é missão: quem conhece alguém afastado da fé pode ser o instrumento para que volte. Uma visita, um convite, uma oração constante podem salvar uma vida.

Para rezar com Tiago 5

  • Há alguém doente na minha família ou comunidade que precisa receber a Unção dos Enfermos?
  • Sou justo e pontual com quem trabalha para mim?
  • Por quem que se afastou da fé eu posso rezar e a quem posso estender a mão?

Sugestão de oração:

Senhor, cheio de compaixão e misericórdia, olha pelos doentes da minha família e da minha comunidade. Que eles encontrem nos teus sacerdotes a tua presença que salva, levanta e perdoa. Dá-me a paciência do agricultor, a justiça com quem trabalha e a coragem de reconduzir quem se afastou de ti. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Concílio de Trento, doutrina sobre o sacramento da Extrema-Unção.

Perguntas sobre Tiago 5

Onde está a Unção dos Enfermos na Bíblia?

A principal passagem é Tiago 5,14-15, que manda chamar os presbíteros para rezar sobre o doente e ungi-lo com óleo em nome do Senhor. O Catecismo cita esse texto ao explicar o sacramento, junto com Marcos 6,13.

A Unção dos Enfermos é só para quem está morrendo?

Não. Ela é para quem começa a correr perigo por doença grave ou idade avançada, e pode ser recebida mais de uma vez. O nome Extrema-Unção vem do tempo em que era dada sobretudo aos moribundos.

Tiago 5,16 manda confessar os pecados a qualquer pessoa?

O versículo fala da confissão mútua e da oração na comunidade. Na leitura tradicional, ele é visto como uma raiz da prática da confissão, que se realiza plenamente no sacramento da Penitência com o sacerdote, instituído por Cristo segundo João 20,22-23.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.