O Salmo 94 é um clamor ao Deus que faz justiça. Ele começa pedindo que o Juiz da terra se levante contra os soberbos que oprimem o povo, matam a viúva e o órfão e dizem que Deus não vê. Depois, ensina com sabedoria que Deus vê e ouve tudo, e termina com uma confissão pessoal de confiança: quando o pé vacila, é o amor de Deus que sustenta.
Contexto do Salmo 94
Na numeração litúrgica e da Vulgata, este é o Salmo 93. O texto hebraico não tem título nem autor. Ele fica no meio dos salmos do Reino do Senhor (93 e 95 a 99), embora não seja um deles, e a vizinhança faz sentido: se Deus é Rei, ele é também Juiz, e um rei justo defende os fracos.
O gênero é misto. Começa como súplica comunitária, passa a uma instrução sapiencial, dirigida aos insensatos, e termina como salmo de confiança individual. Não sabemos a situação histórica precisa. O texto fala de opressores dentro do próprio povo, talvez autoridades injustas que usam a lei para condenar inocentes.
Explicação do Salmo 94
Versículos 1 e 2: o Deus das vinganças
O salmo começa chamando Deus de “Deus das vinganças”. A expressão assusta o leitor de hoje, mas precisa ser entendida no seu contexto. Na Bíblia, a “vingança” de Deus não é rancor nem desejo de fazer sofrer. É a intervenção do Juiz que restabelece o direito e defende quem não tem defesa. O salmista não pede para se vingar com as próprias mãos: entrega a causa a Deus. São Paulo dirá o mesmo: não façais justiça por vós mesmos, deixai agir a ira de Deus (Rm 12,19).
Versículos 3 a 7: até quando os ímpios?
A pergunta “até quando?” é típica das súplicas. Os ímpios se gloriam, falam com arrogância, esmagam o povo de Deus e oprimem a sua herança. Matam a viúva e o estrangeiro e assassinam os órfãos. Na Lei de Israel, esses três grupos eram os mais protegidos, justamente por serem os mais frágeis (Dt 10,18; Dt 24,17). O pior é o motivo da violência: eles dizem que o Senhor não vê, que o Deus de Jacó não percebe. É o ateísmo prático: não negam Deus em teoria, mas vivem como se ele não existisse.
Versículos 8 a 11: quem fez o ouvido não ouvirá?
Agora o salmista fala como mestre e se dirige aos insensatos do povo. Usa um argumento simples e forte: aquele que plantou o ouvido não ouviria? Aquele que formou o olho não veria? (Sl 94,9). Se Deus é o criador dos sentidos, como poderia ser cego e surdo? Quem educa as nações não saberá corrigir? O Senhor conhece os pensamentos do homem e sabe que são vaidade. São Paulo cita este versículo para mostrar que a sabedoria humana, sem Deus, é vazia (1Cor 3,20).
Versículos 12 a 15: feliz quem Deus educa
O tom muda para a bem-aventurança. Feliz o homem a quem Deus corrige e ensina pela sua Lei. A correção de Deus não é castigo cego, mas educação que dá paz nos dias maus, enquanto se cava a cova para o ímpio. O Senhor não rejeita o seu povo nem abandona a sua herança. O julgamento voltará a ser justo, e todos os retos de coração o seguirão. A mesma ideia da correção como sinal de amor aparece em Provérbios 3,11-12 e na Carta aos Hebreus 12,5-11.
Versículos 16 a 19: quando meu pé vacila
O salmo se torna pessoal. Quem se levantará a meu favor contra os malfeitores? Se o Senhor não fosse a minha ajuda, logo eu estaria morando no silêncio, isto é, na morte. Quando eu disse que meu pé vacilava, o teu amor, Senhor, me sustentou. Quando as preocupações se multiplicavam dentro de mim, as tuas consolações alegraram a minha alma. Estes versículos estão entre os mais consoladores do Saltério: falam de ansiedade e de amparo com uma sinceridade muito humana.
Versículos 20 a 23: Deus, minha rocha
No fim, o salmista volta aos opressores. Pode ser aliado de Deus um tribunal corrupto, que cria a injustiça usando a lei? Eles se unem contra o justo e condenam sangue inocente. Mas o Senhor é a fortaleza e a rocha do salmista. O próprio mal dos ímpios se volta contra eles, e Deus os fará desaparecer. O salmo termina, como começou, confiando o julgamento a Deus.
O que o Salmo 94 ensina para a fé católica?
O salmo ensina que Deus é justo e não é indiferente ao sofrimento dos pobres. A Igreja vê nisso a raiz da sua preocupação com os fracos e da sua doutrina social. A justiça não é só uma virtude humana, mas reflexo do próprio Deus. Veja a virtude da justiça.
Sobre a linguagem dura, o Catecismo explica que os salmos foram reunidos ao longo do tempo e exprimem a oração do povo de Deus, com suas lutas e sua confiança (CIC n. 2585 a 2589). Ao rezar um salmo como este, o cristão não pede o mal de ninguém. Entrega a Deus o juízo e o desejo de justiça, e reza em nome de todos os que hoje são oprimidos. Jesus, que pediu perdão por quem o crucificava, ensina a rezar estes versos sem ódio, pedindo que o mal seja vencido e que o pecador se converta.
A pergunta “quem fez o ouvido não ouvirá?” também é uma bela catequese sobre a Providência: Deus conhece cada pessoa e cada situação. Nada fica escondido diante dele.
Reflexão para hoje
Todos já sentimos a revolta diante de injustiças que parecem não ter solução: corrupção, violência contra os mais fracos, gente honesta prejudicada por quem conhece as brechas da lei. O Salmo 94 dá voz a essa revolta, mas a transforma em oração. Em vez de alimentar o ódio ou fazer justiça com as próprias mãos, o salmista coloca a causa diante de Deus.
Isso não significa cruzar os braços. Quem reza este salmo é chamado a defender, na medida do possível, a viúva, o órfão e o estrangeiro de hoje: os idosos esquecidos, as crianças sem cuidado, os migrantes. A oração pela justiça e o compromisso com ela andam juntos.
E há os versículos 18 e 19, que valem para quem vive a ansiedade. Quando as preocupações se acumulam e o pé parece escorregar, o salmo lembra que o amor de Deus sustenta e que suas consolações podem alegrar a alma. Vale a pena guardá-los na memória para os dias difíceis. Se precisar, reze também uma oração para a ansiedade e a paz interior.
Para rezar com o Salmo 94
- Diante das injustiças, eu as entrego a Deus ou deixo o rancor crescer em mim?
- Vivo às vezes como se Deus não visse o que faço?
- Em que momento senti o amor de Deus me segurar quando meu pé vacilava?
Sugestão de oração:
Senhor, Juiz justo, tu vês o que os homens escondem e ouves o clamor dos pobres. Entrego em tuas mãos as injustiças que me ferem e livra meu coração do ódio. Quando meu pé vacilar, sustenta-me com teu amor; quando as preocupações se multiplicarem, alegra minha alma com tuas consolações. Faz de mim instrumento da tua justiça e da tua paz. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2585 a 2589.
Perguntas sobre Salmo 94
Por que o Salmo 94 chama Deus de “Deus das vinganças”?
O que significa “quem fez o ouvido não ouvirá”?
Qual versículo do Salmo 94 consola na ansiedade?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.