O Salmo 9 é uma ação de graças pela justiça de Deus. O salmista louva o Senhor que derrotou os inimigos, que reina para sempre e que é refúgio para o oprimido. No centro está uma promessa: Deus não esquece o clamor dos humildes, e a esperança dos pobres não será frustrada.
Contexto do Salmo 9
O Salmo 9 tem uma particularidade de numeração. Na Bíblia hebraica, seguida pela tradução da CNBB, os Salmos 9 e 10 são separados. Na antiga tradução grega e na Vulgata, eles formam um único salmo. Por isso, na numeração litúrgica, o Salmo 9 hebraico corresponde à primeira parte do Salmo 9 (às vezes chamado 9A), e o Salmo 10 hebraico, à segunda parte (9B). A partir daí, a numeração litúrgica fica, em geral, um número atrás da hebraica.
Há bons motivos para ver os dois como um só poema: o Salmo 10 não tem título, e juntos eles formam um acróstico, isto é, as estrofes começam, de modo incompleto, com as letras do alfabeto hebraico em ordem. O título do Salmo 9 diz: ao mestre de canto, sobre “a morte do filho” (expressão de sentido incerto, talvez o nome de uma melodia), salmo de Davi. A atribuição a Davi é tradição. Na Bíblia da CNBB, o título conta como versículo 1.
O gênero mistura ação de graças e súplica. O Salmo 9 é mais de louvor; o Salmo 10 é mais de lamento.
Explicação do Salmo 9
Versículos 2 e 3: louvarei de todo o coração
O salmo começa com entusiasmo: o orante quer dar graças ao Senhor de todo o coração (Sl 9,2). O orante quer contar todas as maravilhas de Deus, alegrar-se e cantar ao nome do Altíssimo. Louvar de todo o coração significa louvar com a vida inteira, sem divisão.
Versículos 4 a 7: os inimigos recuam
O motivo do louvor é uma vitória: os inimigos recuaram, tropeçaram e pereceram diante da face de Deus. O Senhor defendeu o direito e a causa do orante, sentando-se no trono como juiz justo. Repreendeu as nações, fez perecer o ímpio e apagou o seu nome para sempre. Das cidades inimigas resta apenas ruína e esquecimento.
Na Bíblia, apagar o nome é a pior derrota: é desaparecer da memória. O contraste é com Deus, cujo nome permanece e é cantado.
Versículos 8 a 11: o Senhor reina e é refúgio
Esta é uma das partes mais bonitas do salmo. O Senhor está sentado no trono para sempre e preparou o seu tribunal. Ele julgará o mundo com justiça e governará os povos com retidão.
E esse juiz é também abrigo: o Senhor é refúgio para o oprimido, um refúgio nos tempos de angústia. Por isso confiam nele os que conhecem o seu nome, porque ele não abandona os que o procuram. Conhecer o nome de Deus, na Bíblia, é ter experiência de quem ele é. Quem já foi socorrido sabe que pode confiar.
Versículos 12 e 13: Deus não esquece o clamor dos humildes
O salmista convida todos a cantar ao Senhor que habita em Sião e a anunciar entre os povos as suas obras. Deus é chamado de aquele que pede contas do sangue derramado: ele se lembra das vítimas. Não esquece o clamor dos humildes. Em Israel, quando alguém era assassinado, cabia a um parente próximo pedir contas do sangue derramado (Nm 35,19). Aqui é o próprio Deus quem assume essa defesa em favor dos pobres que não têm quem os defenda.
Versículos 14 e 15: tem piedade de mim
No meio do louvor surge uma súplica: tem piedade de mim, Senhor, vê a aflição que sofro dos que me odeiam, tu que me ergues das portas da morte. As portas da morte são a imagem do perigo extremo. O orante quer ser salvo para poder proclamar os louvores de Deus nas portas da filha de Sião, isto é, de Jerusalém. Há um jogo bonito: das portas da morte para as portas da cidade, da ameaça para o louvor.
Versículos 16 a 19: a esperança dos pobres
As nações caíram na cova que fizeram, e o seu pé ficou preso na rede que esconderam. O Senhor se fez conhecer pelo julgamento: o ímpio fica preso na obra das próprias mãos. É a mesma lógica do Salmo 7: o mal se volta contra quem o pratica.
Os ímpios voltam ao Xeol, a morada dos mortos, todos os povos que se esquecem de Deus. E então a grande promessa: o pobre não será esquecido para sempre, a esperança dos humildes nunca será frustrada. É uma frase que atravessa a Bíblia: Deus se coloca do lado dos pequenos.
Versículos 20 e 21: levanta-te, Senhor
O salmo termina com um pedido: levanta-te, Senhor, não prevaleça o homem; sejam julgadas as nações diante de ti. Que os povos saibam que são apenas homens. É uma oração contra a arrogância humana, que esquece os próprios limites e quer ocupar o lugar de Deus.
O que o Salmo 9 ensina para a fé católica?
O Salmo 9 ensina que Deus é juiz justo e, ao mesmo tempo, refúgio dos que sofrem. Essas duas imagens não se contradizem. O juízo de Deus é justamente a defesa dos pobres e a derrota da injustiça. A Igreja, fiel a essa revelação, sempre teve um amor especial pelos pobres, porque Deus se identificou com eles. Jesus vai mais longe e diz que o que fazemos aos pequenos, a ele o fazemos (Mt 25,40).
O salmo também ensina a esperança. A frase de que a esperança dos pobres não será frustrada não promete que todos os problemas se resolverão logo, mas garante que Deus não esquece. A esperança cristã se apoia na fidelidade de Deus, que se mostrou plenamente na ressurreição de Jesus.
Por fim, o salmo mostra que louvor e súplica caminham juntos. O Catecismo observa que os salmos foram reunidos aos poucos num grande livro de oração do povo de Deus (CIC n. 2585). Neles a gratidão pelo que Deus já fez dá coragem para pedir o que ainda falta. A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas.
Reflexão para hoje
O salmo começa com gratidão. Antes de pedir, o orante conta as maravilhas de Deus. É um bom hábito: lembrar, no fim de um dia ou de uma semana, as graças recebidas. Quem faz isso descobre que Deus já agiu muitas vezes, e reza com mais confiança.
A certeza de que o Senhor é refúgio para o oprimido pode ser rezada por quem está passando por uma situação de injustiça: o trabalhador explorado, a mulher que sofre violência, a família despejada, o idoso abandonado. E é também um chamado para nós. Se Deus é refúgio dos oprimidos, a sua Igreja deve ser lugar de acolhida. Uma visita, uma ajuda concreta, um ouvido atento fazem parte da resposta a este salmo.
Por fim, o pedido final nos alcança: que os povos saibam que são apenas homens. Há uma tentação de achar que controlamos tudo. O salmo nos devolve à humildade, que não é se diminuir, mas reconhecer quem é Deus e quem somos nós.
Para rezar com o Salmo 9
- Quais maravilhas de Deus eu posso contar hoje, olhando para a minha vida?
- Quem são os oprimidos perto de mim, e como posso ser para eles sinal do refúgio de Deus?
- Em que situação preciso renovar a esperança de que Deus não me esqueceu?
Sugestão de oração:
Senhor, de todo o coração te dou graças pelas maravilhas que fizeste na minha vida. Tu és refúgio para o oprimido e não esqueces o clamor dos pequenos. Ergue-me das portas da morte, sustenta a esperança dos pobres e faz de mim um instrumento da tua justiça. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2585.
Perguntas sobre Salmo 9
Por que o Salmo 9 tem numeração diferente em algumas Bíblias?
O que o Salmo 9 diz sobre os pobres?
O Salmo 9 é um acróstico?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.