O Salmo 86 é a súplica de um pobre que confia em Deus. Ele pede que o Senhor o escute, o alegre e o ensine a andar no seu caminho, e se apoia na certeza de que Deus é bom, compassivo, lento para a ira e cheio de amor. No meio da súplica há um louvor universal: todas as nações virão adorar o Senhor.
Contexto do Salmo 86
Na numeração da liturgia e da Vulgata, este é o Salmo 85. O título o chama de oração de Davi, segundo a tradição. É o único salmo atribuído a Davi no terceiro livro do Saltério. Neste salmo o título faz parte do versículo 1.
O gênero é a súplica individual. Os estudiosos notam que o salmo é tecido com expressões de outros salmos e de textos como o Êxodo, quase uma antologia de orações. Isso não diminui seu valor: mostra alguém que reza com as palavras que aprendeu da Escritura. A Igreja o reza na Liturgia das Horas nas Completas de segunda-feira, a oração antes de dormir.
Explicação do Salmo 86
Versículos 1 a 7: o pobre que clama
O orante começa: inclina, Senhor, o teu ouvido e responde-me, porque sou pobre e necessitado. Pede que Deus guarde sua vida, porque é fiel, e salve o seu servo que confia nele. Pede piedade, porque clama o dia inteiro; pede alegria, porque eleva a alma a Deus.
Os motivos se acumulam, e o principal está no versículo 5: tu, Senhor, és bom e perdoas, és rico em amor para todos os que te invocam. O salmista termina esta parte com confiança: no dia da angústia eu te chamo, porque tu me respondes. A pobreza aqui não é só falta de bens; é a condição de quem depende inteiramente de Deus.
Versículos 8 a 10: só tu és Deus
No meio da súplica, um hino: entre os deuses não há nenhum como tu, Senhor, e nada se compara às tuas obras. Todas as nações que fizeste virão prostrar-se diante de ti e dar glória ao teu nome. Tu és grande e fazes maravilhas; só tu és Deus.
É surpreendente que um pobre em apuros pense nas nações. Mas faz sentido: quem descobre a grandeza de Deus no próprio sofrimento percebe que ele é Deus de todos. A esperança de que os povos virão adorar o Senhor aparece também nos profetas (Is 2,2 a 3; Zc 8,22) e no Apocalipse (Ap 15,4).
Versículos 11 a 13: ensina-me o teu caminho
Aqui está o coração do salmo: "Ensina-me, Senhor, o teu caminho" (Sl 86,11), para que eu ande na tua verdade. E um pedido precioso: unifica o meu coração para que tema o teu nome. O coração dividido entre Deus e outras coisas é a raiz de muita infelicidade; o salmista pede um coração inteiro.
Então promete louvar a Deus com todo o coração e glorificar seu nome para sempre, porque o amor de Deus foi grande para com ele e o arrancou das profundezas do mundo dos mortos. A expressão pode indicar um perigo de morte do qual foi salvo.
Versículos 14 a 17: o Deus compassivo
Volta a angústia: orgulhosos se levantaram contra ele, um bando de violentos procura tirar sua vida, e eles não levam Deus em conta. Mas o salmista responde com a mais antiga confissão de fé sobre Deus: tu, Senhor, és Deus compassivo e clemente, lento para a ira, rico em amor e fidelidade. São quase as palavras que Deus mesmo pronunciou diante de Moisés no Sinai (Ex 34,6).
Por fim pede: volta-te para mim e tem piedade; dá tua força ao teu servo e salva o filho da tua serva. Filho da serva indica alguém nascido na casa do senhor, que pertence à família desde sempre. E termina pedindo um sinal da bondade de Deus, para que os inimigos vejam e fiquem envergonhados, porque o Senhor o ajudou e consolou.
O que o Salmo 86 ensina para a fé católica?
O salmo ensina a oração do pobre, que Jesus proclamou feliz (Mt 5,3). O Catecismo diz que os salmos têm como traços comuns a simplicidade e a espontaneidade da oração, o desejo do próprio Deus e a confiança e entrega à sua vontade (CIC n. 2589). Tudo isso aparece aqui.
A confissão de que Deus é compassivo, lento para a ira e rico em amor é o fundamento da misericórdia divina que a Igreja anuncia. Em Jesus, essa misericórdia ganhou rosto humano. A expressão filho da tua serva ganha um eco especial para os cristãos: Maria se disse a serva do Senhor (Lc 1,38), e o Filho nascido dela é o servo fiel por excelência.
O pedido unifica o meu coração toca a vida espiritual: a santidade consiste em ter um coração inteiro para Deus, como pede o grande mandamento de amar a Deus de todo o coração (Mt 22,37).
Reflexão para hoje
Rezar este salmo ao fim do dia, como faz a Igreja nas Completas, é um bom exercício. Antes de dormir, reconhecemos que somos pobres e necessitados, entregamos as angústias do dia e repetimos que Deus é bom e perdoa.
O pedido unifica o meu coração também é muito atual. Vivemos divididos entre mil solicitações, notificações, preocupações e desejos. Muitas vezes queremos Deus e, ao mesmo tempo, outras coisas que nos afastam dele. Pedir um coração inteiro é pedir paz interior.
E o salmo ajuda a não ter medo de pedir sinais da bondade de Deus. Não como exigência, mas como filho que pede ao pai um gesto de carinho. Quem está em sofrimento pode rezar assim, com simplicidade.
Para rezar com o Salmo 86
- Eu me reconheço pobre e necessitado diante de Deus?
- Em que meu coração está dividido, e o que preciso pedir para que ele se unifique?
- Como posso terminar meu dia entregando tudo a Deus?
Sugestão de oração:
Senhor, Deus compassivo e clemente, inclina o teu ouvido para mim, que sou pobre e necessitado. Ensina-me o teu caminho e unifica o meu coração, para que eu te ame por inteiro. Guarda a minha vida nesta noite e dá-me um sinal da tua bondade. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2589; Liturgia das Horas.
Leia também: Completas, a oração antes de dormir. Salmo anterior: Salmo 85. Próximo salmo: Salmo 87.
Perguntas sobre Salmo 86
Qual é o versículo mais conhecido do Salmo 86?
Quando a Igreja reza o Salmo 86?
O que significa Deus lento para a ira?
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